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Começou com a zika | Resposta rápida: como epidemias levaram ciência brasileira a outro patamar

Publicado em 09 março 2020

As rápidas respostas do Brasil no diagnóstico e no sequenciamento genético do coronavírus mostraram que o país estava pronto para a chegada de um novo agente infeccioso capaz de causar epidemia.

As cientistas que fizeram o sequenciamento do novo vírus afirmaram que a experiência anterior nas pesquisas com o vírus da zika ajudaram no trabalho com o covid-19. A epidemia de zika em 2015 levou a OMS (Organização Mundial de Saúde) a declarar emergência mundial após a associação do vírus a casos de microcefalia, mas também motivou o avanço científico brasileiro.

"Na época da zika era um diagnóstico lento, demorava meses para sair. Hoje temos vários laboratórios que foram equipados e estão com o que há de mais moderno em metagenômica. Conseguimos descobrir mais rapidamente e fazer o sequenciamento. Assim vamos na intimidade do agente causador", afirma o professor e pesquisador da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Kleber Luz, um dos pioneiros nas análises da zika e integrante da comissão nacional criada para pesquisar o vírus.

Luz diz que, além de avanços científicos, uma descentralização de laboratórios de biologia molecular ocorreu no Brasil.

"O país é muito grande, e na época da zika você tinha dois laboratórios que faziam o teste, e isso perturbou muito a assistência e a pesquisa. Hoje Natal não precisa mais mandar [o teste] para Belém, pode mandar para Pernambuco. O Ceará ficou autônomo. Isso está ajudando não só no caso do coronavírus, mas de outros agentes infecciosos", diz.

Para o pesquisador do Departamento de Virologia e Terapia Experimental da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em Pernambuco, Rafael França, a atenção dada ao vírus da zika serviu para melhorar a rede de saúde. "Os laboratórios da Fiocruz e dos institutos de pesquisa foram preparados e estão prontos para uma resposta rápida. Hoje a gente sabe como lidar com uma epidemia, como ter uma resposta mais efetiva e em um tempo mais curto. A gente está realmente mais alerta", afirma.

O pós-doutorando do departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (Universidade de São Paulo) e da Plataforma Científica Pasteur-USP, Luiz Gustavo Góes, é um dos pesquisadores da instituição que estuda coronavírus há anos. Ele reconhece que a epidemia da zika deixou um legado à ciência, em especial a criação de redes de suporte.

A criação de redes de resposta científica são importantes no entendimento de agentes etiológicos [agentes causadores de uma doença] de sua natureza, de como atuam na geração de determinadas doenças ou mesmo na geração de respostas para o controle, mitigação e desenvolvimento de estratégias de diagnóstico ou desenvolvimento de terapias profiláticas e terapêuticas

Luiz Gustavo Góes

Segundo Góes, essas redes criam não só um aparato de equipamentos laboratoriais, mas também de expertise e recursos humanos. "Então logo que apareça uma emergência, podem ser direcionados esforços para estudos de novos agentes etiológicos de ameaça a saúde humana e animal", diz.

Góes lembra da primeira rede científica de estudo de importantes doenças humanas, atuante entre 2000 e 2006: a Rede Diversidade Genética de Vírus, financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo). "Era constituída de 25 laboratórios e tinha o objetivo de estudar variedades genéticas de quatro importantes vírus: HIV-1, hepatite C, hantavírus e vírus sincicial respiratório [VSR, uma das principais causas de infecções respiratórias em crianças, e um dos que podem causar bronquiolite]", diz.

Um segundo exemplo, segundo Góes, foi a Rede Zika, que "demonstrou a capacidade científica da virologia nacional em entender e combater um agente de etiologia importante como a zika e sua relação com a microcefalia."

Após a zika, surgiu ainda a Plataforma Científica Pasteur-USP, reunindo pesquisadores da universidade, do Instituto Pasteur de Paris e da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). "Atuando para contribuir na saúde pública do estado e do Brasil, esta plataforma conta, por exemplo, com laboratórios de nível 3 de biossegurança, essencial para o cultivo viral e necessário para estudos da biologia deste novo coronavírus", diz.

O vice-presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e professor de genética aposentado da USP, Aldo Malavasi, afirma que vários aspectos devem ser levados em conta no benefício do investimento em ciência.

"O que aconteceu com a zika e a chikungunya é que houve um grande treinamento propiciado pelo Ministério da Saúde, mas também pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Também se discutiu muito, com mais trabalhos tratando desse assunto. Tudo tem lado ruim e bom; e o bom nesse caso foi que desenvolveram mais os processos de detecção e análise", diz.

Para ele, o Brasil está mais pronto também porque tem gente formada, "principalmente jovens", que podem rapidamente responder à nova epidemia." "Assim passamos a detectar a doença com testes, mas também lembramos que pesquisa significa produção de anticorpos e posteriormente de vacina", afirma.

O vice-presidente da SBPC acredita que a resposta da nossa ciência ao coronavírus pode servir de incentivo a novos investimentos na área pelo governo federal.

"Isso foi algo importante para o nosso governo entender que o investimento em ciência sempre reverte em algo positivo para sociedade, ou de forma mais direta, como nesse caso (quando tem laboratórios que conseguem rapidamente dar respostas do ambiente causal); ou de forma mais lenta. E estamos aprendendo a reagir de forma rápida."

 

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