Notícia

Jornal da USP

COMBUSTÍVEL - ICB produz etanol de resíduos vegetais

Publicado em 29 junho 1998

Por IZABEL LEÃO
Instituto de Ciências Biomédicas utiliza bactéria modificada pela engenharia genética para produzir álcool combustível, mas o processo foi patenteado por pesquisadores norte-americanos Bagaço de cana-de-açúcar, palha de milho, trigo, arroz e soja, que normalmente eram desperdiçados e jogados fora, agora podem ser reaproveitados e aumentar a produtividade das usinas em até 15%. Através de uma bactéria desenvolvida em laboratório por meio da engenharia genética já é possível transformar esses restos em etanol, ou seja, álcool combustível. A nova técnica faz parte da pesquisa "Produção de Etanol a partir de hidrolisado de bagaço da cana-de-açúcar empregando Escherichia coli recombinante", desenvolvida pelo professor Flávio Alterthum, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, juntamente com dois cientistas norte-americanos, Lonnie O. Ingram e Tyrrell Conway, da Universidade da Flórida. Segundo Alterthum, a idéia inicial era criar uma bactéria capaz de transformar outros tipos de açúcares, abundantes na natureza, e produzir um combustível alternativo à gasolina. "A criação desse novo microorganismo ocorreu devido a dois tipos de bactéria. A Escherichia coli (encontrada no intestino humano), capaz de utilizar uma porção de açúcares, porém incapaz de produzir álcool, e a Zymomonas mobilis (encontrada no mel), capaz de produzir álcool com muita eficiência utilizando poucos tipos de açúcares. Pegamos os genes responsáveis pela produção de etanol dessa bactéria e colocamos na outra. Com isso passamos a ter um microorganismo capaz de utilizar muitos açúcares e também produzir etanol." SEM DESPERDÍCIO E por que voltar a produzir etanol? Alterthum diz que o álcool é um combustível mais limpo do ponto de vista da poluição ambiental. "É um material que ao ser queimado gera menos poluentes do que a gasolina. Em segundo lugar, é um combustível renovável, ou seja, a queima do álcool no motor gera gás carbônico e água. O gás é reaproveitado pelas plantas, no caso a cana-de-açúcar que, por sua vez, gera o álcool. Assim, forma-se um ciclo em que nada se perde. Sem contar a criação de mais empregos na área rural e a utilização de terras improdutivas." O Brasil foi, na década de 1980, um grande produtor mundial de álcool combustível e chegou a ter cerca de 90% de sua frota de automóveis movida a etanol. Hoje esse número é inferior a 1%. Alterthum conta que o governo brasileiro vem desestimulando o projeto Pró-Álcool porque o preço do petróleo está mais barato. O professor enfatiza: "Em função do preço mais barato da gasolina temos mais poluição, menos emprego e menos utilização da terra. Sem contar que com a produção do álcool gera-se dinheiro, dentro do País, não precisamos ficar dando dinheiro para os outros países". Apesar das inúmeras tentativas de Alterthum com usinas ou usineiros brasileiros, nenhum deles mostrou interesse em financiar o teste dessa nova técnica para produção de álcool em grande escala. "Os usineiros brasileiros, como são subsidiados pelo governo, não criaram o hábito de investir em pesquisa como os norte-americanos." Em 1991, a experiência foi patenteada nos Estados Unidos sob o n° 5.000.000 (cinco milhões) - prova de reconhecimento da importância da pesquisa, pois só as grandes descobertas recebem patentes com números redondos. Como era de se esperar, prevendo os resulta dos promissores da experiência, há dois anos a empresa Bionol International está montando nos Estados Unidos, no estado da Louisiana, uma usina piloto para desenvolver o etanol a partir do bagaço de cana e exportar a tecnologia. BACTÉRIA RECOMBINANTE O projeto baseou-se na produção de etanol a partir de hidrolisado de bagaço de cana-de-açúcar empregando a Escherichia coli recombinante. Mas a experiência permite utilizar quaisquer resíduos agrícolas que contenham hemicelulose e celulose, como as palhas de arroz, milho, soja e trigo. "A bactéria que desenvolvemos é muito eficiente na utilização da xilose, que é gerada a partir da hemicelulose, bem como na utilização da celobiose e da glicose, moléculas intermediárias da quebra da celulose", explica o professor. Hemicelulose, lignina e celulose compõem o bagaço de cana. Para que este possa ser utilizado como matéria-prima é preciso quebrar a hemicelulose de modo a liberar a xilose e a arabinose. No entanto, esse processo gera outros produtos tóxicos que inibem o crescimento da bactéria e por isso precisam ser quimicamente tratados. No processo convencional de produção de etanol a partir do caldo da cana-de-açúcar, a fermentação por levedura (Saccharomyces cerevisiae) ocorre entre 8 e 10 horas. Quando fermentado pela E. coli leva de 30 a 40 horas. O primeiro passo nesse método é fazer com que o bagaço de cana se transforme num líquido. Daí é tratado para eliminar as substâncias tóxicas. Adiciona-se a bactéria recombinante e, após cerca de 40 horas, faz-se a destilação resultando o etanol. "A grande vantagem desse processo é utilizar uma matéria-prima que é resíduo, propiciando uma suplementação à produção de álcool de até 15%", observa o pesquisador. Alterthum alerta que o tempo de vida das reservas de petróleo do mundo está estimado em apenas 50 anos, enquanto que as matérias-primas que permitem a fabricação do etanol são abundantes na natureza. Além da utilização dos resíduos da cana-de-açúcar, o professor vem estudando também o processamento do soro de leite, a casca de amendoim, o sabugo de milho e o resíduo da industrialização do abacaxi. Entre os anos de 1995 e 1997, Alterthum contou com um auxílio da Fapesp no valor de R$ 43.500.00.