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Combustível florestal

Publicado em 20 julho 2007

"A indústria alcoolquímica vai substituir a petroquímica", diz Paulo Arruda, da Unicamp, que destaca a importância do melhoramento genético para potencializar o aproveitamento de espécies florestais, como eucalipto ou pinus, na produção de energia

Murilo Alves Pereira escreve para a Agência Fapesp:

A crescente demanda por energia e combustíveis pode forçar a produção desses recursos a partir de espécies florestais. A afirmação é do biólogo Paulo Arruda, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor da empresa de biotecnologia Alellyx Applied Genomics.

Segundo Arruda, há vários estudos sobre o uso de espécies florestais — como eucalipto, pinus e choupo — para a produção do etanol. "Hoje, o ramo da bioenergia está investindo em tecnologia para aproveitar o que sobra de outras áreas. Só na indústria do eucalipto há sobras de até 30% da produção", disse à Agência Fapesp.

O biólogo lembra que, nos Estados Unidos, o choupo — ou álamo (gênero Populus) — é usado em pequena escala para a produção de energia, em tecnologia que poderia ser aplicada a outras espécies. No Brasil, no entanto, os estudos ainda estão começando. "Em breve, a indústria alcoolquímica vai substituir a petroquímica. Devemos estar preparados para essa mudança", afirmou.

Para Arruda, o melhoramento genético por transgenia é uma forma de potencializar o aproveitamento das espécies florestais tanto na produção de energia como na de celulose ou de madeira. O cientista falou sobre o assunto no 5º Simpósio Internacional e Mostra de Tecnologia da Agroindústria Sucroalcooleira (Simtec), que termina nesta sexta-feira (20/7) em Piracicaba, interior de SP.

Segundo ele, a transgenia depende de um investimento inicial em pesquisa básica. "É preciso conhecer o gene, saber como ele se expressa e como controlá-lo", disse. Com essas informações, é formado um banco de dados com as características que se deseja aplicar na planta.

"O próximo passo é o desenvolvimento de tecnologia para trabalhar com esses dados e melhorar o eucalipto", explicou. Características como tamanho das fibras, redução da lignina e qualidade da celulose, importantes para as indústrias madeireira, de energia e do papel, podem ser manipuladas geneticamente.

A lignina, por exemplo, é o composto responsável pela rigidez da parede das células vegetais. Se essa qualidade é importante para manter a rigidez do caule das plantas, é também um desafio para a exploração da celulose. Os pesquisadores da Alellyx conseguiram "fabricar" eucaliptos com 10% a menos de lignina, sem prejudicar o crescimento da planta.

"O estudo ainda está no laboratório; resta observar como esse eucalipto vai se comportar no campo", disse. Segundo Arruda, o controle da redução da lignina deverá ter um grande impacto industrial. Serão necessários menos agentes químicos para dissolver a lignina e fazer a hidrólise da celulose, reduzindo os custos e a pressão sobre o meio ambiente.


Aumento da produtividade

Se no setor sucroalcooleiro a produtividade é medida pela obtenção de sacarose por hectare, no madeireiro calcula-se a quantidade de madeira conseguida em determinada área. Nesse cálculo, a densidade da madeira é um dos pontos fundamentais.

Segundo Arruda, já é possível controlar a densidade por meio da redução dos vasos no interior das células. A Alellyx descobriu um gene que diminui em 78% esses espaços vazios, mediante redução do número de vasos e de seu tamanho. O ganho em densidade é notável.

"Isso é inédito, ninguém encontrou até hoje uma forma de controlar esses vasos", enfatizou o pesquisador. Nos estudos iniciais não foram constatados prejuízos ao crescimento da planta. Os pesquisadores agora devem observar como o eucalipto se comporta em campo.

Outro estudo identificou um gene que controla o tamanho das fibras, o que representou um aumento do teor de celulose em 11%. "A questão principal é saber como aproveitar ao máximo o carbono fixado por unidade de área", disse Arruda, contextualizando a atual discussão das mudanças climáticas. "Isso reduziria a pressão em novas áreas florestais e manteria nosso planeta habitável."

O professor da Unicamp faz questão de destacar que, embora se ampliem as pesquisas sobre as espécies florestais, as áreas nobres devem continuar sendo exploradas para a produção de alimentos. Para a produção de energia seriam usadas áreas marginais e alternativas.

(Agência Fapesp, 20/7)