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Combate à micose tropical

Publicado em 03 janeiro 2006

Agência FAPESP - Apesar de a doença ter sido descrita por Adolfo Lutz (1855-1940) há quase 100 anos, e de vários grupos ao longo de todos esses anos terem trabalhado com o fungo Paracoccidioides brasiliensis, que é tipicamente tropical, a biologia desse microrganismo permanece um enigma. Os avanços, quando ocorreram, estão dentro do universo molecular e, agora, genômico. "Ainda se conhece pouco sobre a biologia desse fungo. O hábitat dele, por exemplo, ainda não foi totalmente descrito", disse Gustavo Henrique Goldman, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, à Agência FAPESP. Um importante passo dentro da área genômica foi dado no fim de 2005. Em trabalho publicado na edição de dezembro do periódico Eukaryotic Cell, um grupo formado por cientistas de diversas universidades, entre os quais a equipe de Goldman, estabeleceu arranjos ordenados ("microarrays") de 4.692 genes. Segundo Goldman, hibridizações com esses arranjos ordenados de genes possibilitaram a descoberta de diversas informações genéticas, que são mais expressas durante a mudança para a fase de levedura patogênica humana. "Esses arranjos ordenados de genes foram validados por um ensaio quantitativo de expressão gênica chamado transcrição reversa-reação em cadeia da polimerase em tempo real", diz o cientista. Como todos os estudos sobre essa infecção fúngica - um grupo da Universidade Federal de São Paulo chegou até a desenvolver uma potencial vacina contra ela, chamada de paracoccidioidomicosis -, associam a doença ao ambiente rural, existem algumas pistas de como esse fungo se comporta no ambiente. "Os mais afetados são trabalhadores rurais do sexo masculino. A maioria dos casos são de pessoas que trabalham na cultura do café", explica Goldman. Segundo ele, como as fronteiras agrícolas no Brasil estão em expansão, não é difícil prever o que pode ocorrer. "Os casos de infecção com o fungo P. brasiliensis devem crescer", diz. Hospitais em cidades como Botucatu e Ribeirão Preto, no interior paulista, são praticamente os únicos com informações sobre o problema, que pode ser considerado endêmico nessas localidades. Além de tentar tornar mais conhecida a doença, os pesquisadores travam uma outra disputa, dessa vez dentro dos laboratórios. Com base em ferramentas genômicas, eles tentam desvendar os genes responsáveis pela infecção. "O grande problema, no caso dos seres humanos, é a passagem da fase dos esporos assexuados, produzidos pelo micélio, para a de levedura", explica Goldman. Acredita-se que, no campo, o agricultor costuma respirar os chamados conídios, estruturas fúngicas de reprodução assexuada. "Sabemos que o aumento da temperatura, de 26ºC para 37ºC, é o fator ambiental que dispara essa mudança. As leveduras são as responsáveis pela infeção", diz Goldman. Em alguns casos mais graves, até processos infecciosos em ossos do joelho foram relacionados com o fungo. Agora, com esse conjunto de informações genéticas nas mãos, os pesquisadores estão pelo menos um pouco mais perto de um de seus objetivos. "Queremos gerar um sistema molecular capaz de inibir a doença", diz Goldman. Ele destaca ainda outro objetivo do projeto, a tentativa de fazer o seqüenciamento de todo o genoma do fungo.