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A Crítica (MS) online

Com quase 200 casos prováveis em MS, chikungunya pode afetar sistema nervoso central

Publicado em 25 agosto 2020

Por Maria Fernanda Ziegler e Carlos Ferreira

Com 190 casos prováveis em MS, a chikungunya pode ter manifestações ainda mais graves que os sintomas característicos da doença, como febre aguda, cefaleia, erupção cutânea e intensas dores articulares e musculares e transmitido por meio da picada de fêmeas dos mosquitos Aedes aegypti.

A análise, foi realizada por 38 pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade de São Paulo (USP), Ministério da Saúde, Imperial College London e Universidade de Oxford, mostra que o patógeno pode infectar também o sistema nervoso central e comprometer as principais funções motoras.

Os municípios com casos confirmados são Corumbá (1), Rochedo (1), Bonito (1), Campo Grande (9), Três Lagoas (1), Dourados (48), Ivinhema (1), Anaurilândia (3), Amambai (1) até o dia 5 de agosto. As mulheres são as mais atingidas com 56,7% dos casos no Estado.

“O estudo trouxe novos entendimentos importantes sobre a doença e o vírus da chikungunya. Além da possibilidade de o vírus infectar o sistema nervoso central, identificamos também que a letalidade da doença é maior em adultos jovens e não em crianças ou idosos, como se costuma prever em surtos da doença. A investigação mostra ainda que pacientes com diabetes parecem morrer com frequência sete vezes maior durante as fase aguda e subaguda da doença [entre 20 e 90 dias após serem infectados] que indivíduos sem a comorbidade”, diz William Marciel de Souza, pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e coautor do artigo publicado na revista Clinical Infectious Diseases.

O perfil dos prováveis casos em MS é de pessoas entre 30-39 anos com 18,42%, seguido de 10-19 anos com 17,37%.

Surto - O trabalho teve como base uma ampla gama de dados clínicos, epidemiológicos e amostras laboratoriais de pacientes que morreram durante o maior surto da doença nas Américas, ocorrido no Estado do Ceará, em 2017. Na época, foram registrados 105 mil casos suspeitos e 68 mortes.

A maioria dos casos da doença é caracterizada pela forma aguda da infecção, com febre alta, dores de cabeça, nas articulações e nos músculos, além de náusea, fadiga e erupções na pele, por três semanas após a infecção. Depois desse período, alguns pacientes podem evoluir para a fase subaguda, com a persistência desses sintomas. Em alguns casos, a dor nas articulações pode persistir por mais de três meses, indicando a transição para o estágio crônico, que pode durar anos.

Além de ter a comprovação laboratorial, os pesquisadores também verificaram os prontuários médicos e observaram que a grande maioria dos infectados que morreram durante o surto no Ceará apresentou síndrome neurológica – lesões no sistema nervoso central que podem ser altamente incapacitantes por comprometerem as principais funções motoras.

“As dores articulares eram bem conhecidas e estão relacionadas com a denominação da doença, que no idioma suaíli significa aquele se dobra [de dor]. No entanto, identificamos também graves problemas no sistema nervoso decorrentes da chikungunya”, diz Souza.

Das 36 amostras de tecido cerebral de indivíduos que vieram a óbito, quatro (ou 11%) continham o microrganismo. “A presença do vírus dentro do cérebro de infectados significa uma caracterização bem clara de que ele consegue ultrapassar a barreira hematoencefálica – que protege o sistema nervoso central – e tem capacidade de causar uma infecção no cérebro e na medula espinhal”, explica Souza.

Além das novas características da infecção, os pesquisadores identificaram também que o risco de morte nas fases agudas e subagudas era sete vezes maior em pacientes com diabetes. Os pesquisadores realizaram uma análise patológica e os resultados indicam, nos casos de óbito, a infecção por chikungunya em distúrbios na circulação sanguínea e no equilíbrio hídrico no cérebro, coração, pulmão, rim, baço e fígado.

“O trabalho confirma algumas observações clínicas prévias da morte por chikungunya e também evidencia novos aspectos da doença e sua letalidade. Essas novas informações, obtidas por meio do estudo minucioso do surto ocorrido no Ceará, deverão contribuir para o reconhecimento de fatores causadores de gravidade, ajudando também, no futuro e a partir de novos estudos, no tratamento”, diz Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, professor da FMRP da USP e coautor do estudo.