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Jornal do Commercio (PE)

Com PPP, Butantã inaugura centro de vacinas

Publicado em 22 setembro 2006

Por Emilio Sant'Anna

Da Agência Estado

O Instituto Butantã, que é ligado ao governo de São Paulo, inaugurou nesta terça-feira o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento de Imunobiológicos Veterinários Rosalvo Guidolin, voltado à produção de vacinas para animais. A construção do laboratório, com recursos estimados em R$ 1,7 milhão, é resultado de uma Parceria Público-Privada (PPP) firmada entre o governo e a empresa de produtos farmacêuticos para animais Ouro Fino, com sede em Cravinhos, no interior de São Paulo.

O centro de pesquisas funcionará como uma minifábrica de vacinas animais. A iniciativa permitirá a transferência de tecnologia e know-how para que a empresa produza, em sua fábrica no interior do Estado, imunobiológicos para o setor veterinário.

A primeira vacina resultante do acordo será a anti-rábica, com produção estimada de 24 milhões de doses anuais. A transferência de tecnologia irá gerar receita para o Butantã, por meio de um percentual sobre o valor de royalties e dos produtos comercializados nesse mercado, que movimenta anualmente US$ 890 milhões em todo o mundo.

Nos planos do Butantã está o uso desses recursos no desenvolvimento de novas vacinas humanas, como a contra a gripe aviária, em fase de estudos. O presidente do Instituto Butantã, o médico e bioquímico Isaías Raw, destacou a importância do desenvolvimento de vacinas veterinárias.

"Para que exista a saúde humana, é muito importante a saúde animal", disse. Para ele, essa é uma iniciativa que deve ser seguida por outras instituições de pesquisa, por universidades e, principalmente, pelas empresas privadas.

"Esse tipo de parceria faz falta para as indústrias que respeitam o desenvolvimento tecnológico brasileiro", afirmou ele. Mas ressaltou que nem sempre é isso o que acontece. "É mais fácil para ele (empresário) buscar no exterior essa tecnologia. No entanto, a cada quatro ou cinco anos terá que ir lá fora buscar outra vez, pois não aprendeu a desenvolver essa tecnologia."

Para Raw, no entanto, é preciso ter cuidado com a separação entre os setores público e privado. Ele destacou ainda o déficit de pesquisa e desenvolvimento de ciência e tecnologia no setor privado e a falta de investimentos a longo prazo como uma das razões para o baixo crescimento econômico do País e para o desemprego.

"O Brasil está produzindo mais mestres e doutores que a demanda do mercado", diz. "Estamos formando um exército de pessoas que não terão colocação na indústria privada."

Pesquisadores apóiam parcerias

Parcerias desse tipo são vistas como estratégicas pelos pesquisadores, atentos à corrida gerada pelo desenvolvimento do setor biotecnológico. O diretor do Butantã, Otávio Azevedo Mercadante, acredita que esse é um importante processo para o desenvolvimento da economia.

"Hoje já existe o consenso que as instituições têm que deixar de fazer pesquisa isoladamente", diz. Para ele, apesar de haver cientistas de alto padrão, a transferência de tecnologia e conhecimento para as empresas não ocorre naturalmente. "A iniciativa privada, principalmente no setor farmacêutico, não desenvolve pesquisas em nosso País."

Mercadante compara o Brasil com outros países emergentes. "Estamos no limiar de perder esse salto de conhecimento gerado pela biotecnologia", diz.

Participam do projeto do novo Centro de Pesquisas e Desenvolvimento de Imunobiológicos Veterinários, como financiadoras, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Jornal do Commercio (Rio de Janeiro/RJ) — São Paulo — 06/09/2006 — Pág. A15