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Com o futuro nas mãos - Admirável Mundo Novo

Publicado em 18 setembro 2002

Por Por Cristiane Mano
Um medicamento descoberto em uma planta da Amazônia. Bactérias transgênicas capazes de produzir insulina humana. Um programa de computador desenvolvido para entender e organizar os dados do genoma da cana-de-açúcar. Há um ponto em comum entre esses produtos: todos fazem parte de algo novo, novíssimo. Uma espécie de revolução que se passa em pequenas empresas de ponta, nascidas em universidades e com grande potencial de geração de receita -- as paulistas Alellyx e Scylla, a mineira Biomm e a carioca Extracta. As quatro compõem uma amostra de primeira linha das cerca de 300 empresas brasileiras de biotecnologia, uma das mais recentes e promissoras áreas de negócios do mundo. Um levantamento da Fundação Biominas mostra que metade delas nasceu há menos de sete anos. O potencial desses negócios vem atraindo a atenção de investidores, como os fundos de investimento Rio Bravo e Votorantim Ventures, do grupo Votorantim. Nos Estados Unidos, empresas de biotecnologia já são o principal alvo de capitalistas de risco, de acordo com uma pesquisa realizada pela PricewaterhouseCoopers. Juntas, elas receberam 296 milhões de dólares entre abril e junho deste ano -- mais de 20% do total destinado a todos os mercados. Alellyx, Scylla, Biomm e Extracta são, além de negócios promissores, exemplos de como tirar proveito do senso de oportunidade, transformar conhecimento em valor e assumir riscos. A seguir, conheça um pouco esse admirável mundo novo. NO PRINCIPIO ERA A XYLELLA Num prédio envidraçado de Campinas, a 90 quilômetros de São Paulo, um grupo de cientistas tenta romper a fronteira que separa a universidade do mundo dos negócios. Na recepção, há uma escada que conduz ao segundo (e último) andar. Lá de cima, avista-se um galpão cheio de andaimes e sacos de cimento. O biólogo paulista Fernando Reinach, vestindo uma camiseta branca empoeirada, caminha pelas obras. "Ali será a sala dos computadores", diz, enquanto aponta um dos cantos. Reinach é um dos protagonistas dessa história, junto com os biólogos Jesus Ferro, Paulo Arruda e Ana Cláudia da Silva e os cientistas da computação João Setúbal e João Kitajima. Eles estão começando algo inédito no país e ainda raro no mundo -- o desenvolvimento de produtos para empresas ligadas à agricultura usando a informação do genoma de espécies cultivadas ou de causadores de pragas. O prédio ainda em construção é a sede da Alellyx, empresa que abriu as portas em maio deste ano após um investimento de 11 milhões de dólares feito pela Votorantim Ventures. Nele funciona hoje um dos laboratórios de biotecnologia mais modernos do mundo. Reinach, diretor da Votorantim Ventures e presidente da Alellyx, e os cincos sócios se conheceram durante a execução do Projeto Genoma, no mapeamento genético da bactéria Xylella fastidiosa, que provoca a praga amarelinho nos laranjais. (O nome da empresa é uma homenagem à bactéria: alellyx é xylella ao contrário, exceto pela posição da letra "l".) O grupo tornou-se celebridade no meio científico em 1999, após a publicação da pesquisa, coordenada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pela conceituada revista britânica Nature. Era a primeira vez no mundo que o genoma de um causador de doenças em plantas tinha sido decifrado. Atualmente eles são alguns dos -- senão os -- maiores especialistas nessa área no mundo. Agora, Reinach e seus sócios querem transformar cinco anos de experiência em laboratórios de genômica em lucro. O negócio da Alellyx não é simplesmente decifrar genomas. É usar as informações contidas neles para desenvolver produtos. Óbvio? Bem, só muito recentemente o americano Craig Venter, fundador da pioneira Celera em 1998, descobriu que não ganhará dinheiro com as patentes do seqüenciamento do genoma humano, e sim com drogas desenvolvidas com base nessas informações. A indústria genômica é ainda desconhecida por parte do mercado. No caso da Alellyx, até a maneira de calcular o preço dos produtos é um desafio. "Imaginamos cobrar pela solução o equivalente a um terço do prejuízo anual dos produtores com determinada praga", diz Reinach. Um exemplo: no caso do amarelinho, seriam 100 milhões de reais. (O custo de pesquisa e desenvolvimento de uma solução para a praga seria de cerca de 10 milhões de reais.) Bom demais? No longo prazo, poderá ser. Reinach e seus sócios não esperam faturar nos primeiros três anos de operação da empresa. A natureza da atividade da Alellyx pressupõe longos ciclos de pesquisa. Seus cerca de 40 cientistas trabalham em cinco projetos diferentes desde que o laboratório passou a funcionar. Todos esses projetos estão baseados em culturas já conhecidas, como cana-de-açúcar, eucalipto e laranja. Para ter uma idéia do que é possível, com o apoio da Suzano a Fapesp desenvolveu um eucalipto com gene de ervilha que tem maior rendimento de celulose. O grande capital da empresa são os próprios pesquisadores. Hoje, os cinco sócios estão totalmente dedicados à prospecção de clientes e ao desenvolvimento de produtos. "Sempre imaginei que haveria uma explosão de negócios de biotecnologia no país", diz Ferro. "Mas não pensei que um dia estaria envolvido. É como um sonho." OS BIOINFORMATAS O cenário clássico e estereotipado de um laboratório de biologia já foi uma sala branca, com poções borbulhantes e culturas de bactérias que se multiplicam em pequenos potes de vidro. Tudo isso ainda existe, mas atualmente o papel de destaque é dos computadores. Cada vez mais os laboratórios se assemelham a salas de processamento de dados. Essa transformação explica por que a Scylla, uma empresa de biotecnologia, tem apenas cientistas da computação -- mais precisamente seis deles -- em seu quadro de pessoal. Desde março deste ano, a empresa ocupa uma sala com uma dúzia de computadores no terceiro andar da incubadora da Universidade de Campinas, no interior de São Paulo. Sua proposta é desenvolver programas de computador que processem um seqüenciamento genômico ou sirvam para o desenvolvimento de produtos para a indústria farmacêutica. O paulista João Meidanis, de 42 anos, fundador da Scylla, foi um dos primeiros cientistas brasileiros a se especializar em bioinformática. Também ele é um produto do mapeamento do genoma da Xylella fastidiosa. "Só aquele projeto exigiu a elaboração de mais de 100 programas diferentes", diz Meidanis. "E fizemos dezenas de adaptações pelo caminho." Nos últimos cinco anos, Meidanis ajudou a coordenar outros seqüenciamentos genéticos, como o da bactéria Xanthomonas citri, causadora do cancro cítrico, e o do câncer, promovido pelo Instituto Ludwig de Pesquisas Sobre o Câncer, que está desvendando o código genético dos tumores. No decorrer desses projetos, ele aprendeu a lidar com jargões da biologia tão herméticos como "parálogos" (dois genes muito parecidos entre si). Numa pequena estante da sala em que a Scylla está instalada, Meidanis mantém, entre os livros de computação, obras de biologia. "Sempre achei que teria de sair da universidade para dedicar tempo e dinheiro suficientes ao desenvolvimento desse trabalho", diz Meidanis. Isso foi possível quando a Votorantim Ventures decidiu investir na empresa (o valor não é divulgado), em maio deste ano. Os cinco demais sócios também se formaram nos projetos de seqüenciamento de DNA. O mais novo, o paulista Alexandre Barbosa, um jovem de 22 anos que usa piercing e cabelos compridos, concluirá o curso de engenharia da computação na Unicamp neste ano. Nenhum deles possui especialização acadêmica no assunto: não há cursos específicos para o tema no país. Por enquanto, há apenas um projeto de criação de um mestrado em ciências genômicas e biotecnologia, aprovado pelo Ministério da Educação em julho. O senso de oportunidade de Meidanis colocou a Scylla num mercado novíssimo no mundo -- e que não tem chamado a atenção apenas de pequenas empresas. A americana IBM está investindo 100 milhões de dólares para desenvolver o supercomputador Blue Gene. Com lançamento previsto para o próximo ano, ele será capaz de decifrar detalhes mais complexos da genômica. Por enquanto, a Scylla não fechou nenhum contrato. "Ainda somos muito novos", diz Meidanis. "Mas já esperamos algum negócio entre este e o próximo mês." NEGÓCIO VERDE Você certamente já ouviu dizer que a biodiversidade brasileira esconde tesouros que poderiam render bilhões à indústria farmacêutica. Há cerca de 65.000 espécies de plantas no Brasil, e apenas cerca de 1.300 têm ação farmacêutica conhecida. "Sobre as demais, pouco ou nada se sabe", diz o médico Antonio Paes de Carvalho, presidente e fundador da carioca Extracta, uma pequena empresa que surgiu em 1998 exatamente para garimpar o que ainda não foi descoberto. Para tanto, a Extracta, instalada no loteamento industrial da Universidade Federal do Rio de Janeiro, utiliza um método conhecido como varredura de alta velocidade. Tradução: uma pesquisa rápida, monitorada por máquinas sofisticadas, de substâncias que podem servir a fins específicos. A empresa já investiu 4,6 milhões de dólares para montar um banco de 30 617 amostras químicas, obtidas de 4 597 espécies de plantas da mata Atlântica e da Amazônia. A primeira etapa do trabalho é artesanal. Equipes formadas por três ou quatro pessoas, lideradas por um botânico, vão a campo colher amostras aleatoriamente -- afinal, nunca se sabe onde estará um novo remédio. A partir daí, os cerca de 30 pesquisadores da empresa começam a investigar cada uma das amostras. É gente graduada -- um quinto do total tem mestrado ou doutorado. A Extracta fechou seu primeiro contrato com o laboratório GlaxoSmithKline, em meados de 2000, no valor de 1,6 milhão de dólares. O objetivo: pesquisar moléculas que possam dar origem a novos remédios. "Estamos concluindo os trabalhos", diz Paes de Carvalho. "E não deixaremos o cliente desapontado." Os detalhes? Estão protegidos por um contrato de confidencialidade. Neste ano, a empresa deverá iniciar pesquisas com a americana Genzyme para buscar drogas inovadoras e dividir os direitos de licenciamento no futuro. Há também um contrato, fechado com a Natura em janeiro deste ano, de desenvolvimento de fitoterápicos. "É um mercado promissor", diz Paes de Carvalho. "Quase todos os fitoterápicos vendidos no Brasil vêm da Europa, da China e da Índia." É um modelo de negócio que, talvez mais do que qualquer outro, depende de um elemento imponderável: após vários meses e milhões de dólares gastos, pode ser que a Extracta não encontre nada. Para os clientes, o risco é o mesmo. O potencial de geração de receita da Extracta só se concretizará depois de registrar substâncias ativas e licenciá-las para a indústria. Paes de Carvalho parece confiante de que não está longe disso. "Se quiserem me dar algum pedaço da Extracta para assegurar minha velhice", diz, "bastará um par de patentes." COMEÇAR DE NOVO À primeira vista, a venda da mineira Biobrás para a norueguesa Novo Nordisk, por 75 milhões de dólares, em dezembro do ano passado, parecia o fim do caso clássico de empreendedores brasileiros de biotecnologia que deram certo. Mas não era. Fundada em 1976 pelo cientista Marcos Mares Guia e pelo capitalista de risco Guilherme Emrich, a Biobrás passou a dominar o mercado brasileiro de insulina nos anos 80 e fechou a década de 90 faturando mais de 50 milhões de reais. Emrich continua trabalhando todos os dias na sede da empresa, em Belo Horizonte, onde está instalada a maioria dos negócios de biotecnologia do país. (Mares Guia, que tocava um projeto de desenvolvimento de um pâncreas artificial nos Estados Unidos, morreu em meados de agosto, aos 67 anos.) A diferença é que ali, desde maio deste ano, funciona a sede da Biomm, uma nova desenvolvedora de medicamentos baseados em engenharia genética. Cerca de 30 pesquisadores que compunham o quadro da Biobrás também aparecem todos os dias nos laboratórios da empresa. "A venda foi parte de uma estratégia de crescimento", diz Emrich. "Era a única maneira que tínhamos de captar dinheiro e investir em novos produtos." Para trás, ficaram as fábricas, algo que não deverá constar da estrutura da Biomm. A idéia é que a empresa ganhe dinheiro com a licença de produção de suas descobertas. É um modelo de negócio que deverá crescer nos próximos anos em todo o mundo. A Standard & Poors espera que empresas como a Biomm faturem 15 bilhões de dólares em 2004. A base desse crescimento seria uma decisão estratégica tomada pelas grandes indústrias farmacêuticas. Para aumentar as chances de encontrar um novo medicamento, um processo longo e caro, que pode levar de oito a 12 anos e custa, em média, 500 milhões de dólares por droga, elas optaram pela terceirização do desenvolvimento. A Biomm detém duas patentes. Uma delas é a de produção de insulina por meio de bactérias transgênicas (a Biobrás produzia insulina do pâncreas de porcos). A outra, desenvolvida há poucos meses, é da primeira vacina contra a leishmaniose. "Devemos fechar contratos de licenciamento nos próximos meses", diz Emrich. Os trunfos da Biomm são a rede de relacionamentos, dos tempos da Biobrás, criada com universidades e institutos de pesquisas de todo o mundo, e o dinheiro obtido com a venda da antiga empresa. No longo prazo, o sucesso do modelo dependerá dos contratos que forem fechados com indústrias farmacêuticas. E para isso será fundamental a capacidade da empresa de oferecer algo atraente ao mercado -- e do sucesso da abertura de capital na Bolsa de Valores de São Paulo, realizada no início de setembro.