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Com nova técnica, zika e dengue podem ser detectados mais rápido e fácil

Publicado em 02 maio 2018

Um novo sistema para diagnóstico rápido dos vírus dengue e zika que dispensa preparações ou equipamentos laboratoriais foi descrito por pesquisadores dos Estados Unidos e do Brasil na edição de 26 de abril da revista científica "Science".

Desenvolvida no Broad Institute, vinculado ao MIT (Massachusetts Institute of Technology) e à Harvard University, a plataforma de diagnóstico Sherlock (abreviação em inglês para Desbloqueio Enzimático Específico de Alta Sensibilidade) permite detectar ácidos nucleicos (RNA e DNA) em vários tipos de amostras por meio de uma reação enzimática que pode ser feita em um tubo de ensaio ou em tiras de papel, mesmo longe do laboratório.

Para isso, os cientistas adaptaram uma enzima chamada CRISPR-Cas13, capaz de reconhecer ácidos nucleicos, acrescentando moléculas repórter que indicam a presença de um alvo genético, como um vírus.

Até agora, para processar as amostras de pacientes nessa plataforma, era necessário extrair e isolar os ácidos nucleicos ali presentes, o que requer infraestrutura laboratorial e pessoal treinado, dificultando a realização em campo.

Para facilitar e baratear o processo, a equipe coordenada por Pardis Sabeti no Broad Institute criou o Hudson (abreviação em inglês para Aquecendo Amostras Diagnósticas não Extraídas para Obliterar Nucleases), um tratamento químico e térmico para ser usado nas amostras com o objetivo de inativar certas enzimas que, de outra forma, degradariam os alvos genéticos.

O novo método possibilitou à enzima detectar seu alvo diretamente em fluidos corporais como saliva, urina ou sangue. As amostras podem então ser processadas por Sherlock e os resultados finais, positivos ou negativos, são facilmente visualizados em tiras de papel.

"Ferramentas rápidas e sensíveis são essenciais para diagnosticar, monitorar e caracterizar uma infecção. Este sistema está nos aproximando ainda mais de um diagnóstico rápido e fácil de usar, que pode ser implantado em qualquer lugar", disse Sabeti em comunicado do Broad Institute.

Colaboração brasileira

A validação do novo sistema foi feita com amostras de pacientes brasileiros coletadas no âmbito de um projeto apoiado pela Fapesp e coordenado por Maurício Lacerda Nogueira, professor da Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto).

"Temos feito estudos epidemiológicos com a dengue nos últimos 15 anos e, mais recentemente, também com o zika. Isso nos permitiu ter uma coleção de amostras muito grande e bem caracterizada", disse Nogueira à Agência Fapesp.

As amostras usadas no estudo foram colhidas entre 2015 e 2016, época de grande circulação tanto do zika quanto da dengue na região de São José do Rio Preto. A plataforma Sherlock se mostrou capaz de processar as amostras e apresentar os resultados em menos de duas horas.

"Selecionamos uma série de amostras capazes de representar um desafio para qualquer método novo. Dengue e zika são vírus muito parecidos, que frequentemente apresentam resultados cruzados nos testes. Essa plataforma Sherlock conseguiu diagnosticar com 100% de acerto, mesmo as amostras mistas, ou seja, positivas para mais de um vírus", contou Nogueira.

O pesquisador conta que há mais de 10 anos tem colaborado com pesquisadores do MIT na busca por tecnologias rápidas e baratas de diagnóstico, que possam ser usadas em campo para monitorar epidemias em tempo real.

"Uma das grandes vantagens desse tipo de tecnologia é a facilidade de adaptar o teste para se adequar às necessidades do momento. Caso surja uma epidemia com um vírus novo, é possível rapidamente desenvolver o kit com os reagentes e levá-lo ao local. Porém, ainda estamos a alguns anos da aplicação comercial desse tipo de método", disse Nogueira.

No artigo, o grupo de Sabeti mostrou ser possível desenvolver rapidamente ensaios adaptados para discriminar, usando a plataforma Sherlock, os quatro sorotipos do vírus da dengue e as diferentes linhagens do zika que circularam pelo Brasil entre 2015 e 2016.

Além disso, os pesquisadores desenvolveram ensaios capazes de identificar nos patógenos variantes genéticas (polimorfismos) com relevância clínica. No caso do zika, a plataforma conseguiu discriminar as amostras de pacientes que continham uma mutação em uma proteína viral chamada prM, que, segundo pesquisa publicada na Science em 2017, poderia contribuir para o desenvolvimento de microcefalia fetal.

Já no caso do HIV, vírus causador da Aids, Sherlock se mostrou capaz de identificar variantes genéticas associadas à resistência aos medicamentos antirretrovirais.

A evolução do PCR

Como ressaltaram os autores, os métodos existentes para detectar o material genético de vírus em amostras, como é o caso da reação em cadeia da polimerase (PCR, em inglês) em tempo real, são bastante sensíveis e rapidamente adaptáveis. No entanto, necessitam de equipamentos caros e extenso preparo das amostras em laboratório.

Já os testes capazes de detectar antígenos virais não necessitam de tanta infraestrutura, porém, apresentam menor sensibilidade e especificidade na detecção do patógeno.

"Um método diagnóstico ideal combinaria a sensibilidade, a especificidade e a flexibilidade das técnicas moleculares com a rapidez e a facilidade de uso das técnicas baseadas em antígenos. Tal tecnologia poderia ser rapidamente desenvolvida e aplicada diante de um surto viral emergente e seria útil tanto para vigilância epidemiológica como para uso na rotina clínica", disseram os autores no artigo.

Para Nogueira, as técnicas que usam enzimas da família CRISPR para a detecção de ácidos nucleicos podem representar a evolução dos testes do tipo PCR.

A dengue não tem tratamento. MITO: não existe um remédio ou tratamento contra o vírus em específico, mas alguns sintomas da doença, como febre, cefaleia, dores no corpo e nas articulações, manchas e erupções na pele, podem, e devem, ser tratados. Alguns deles podem evoluir para quadros mais graves se não forem bem cuidados. Por isso, é fundamental o acompanhamento médico para determinar o melhor procedimento em cada caso

O mosquito da dengue só gosta de água suja. MITO: o mosquito gosta de qualquer tipo de água, seja suja ou limpa, desde que ela esteja parada e nas condições ideais de temperatura e luminosidade. Por isso, ele pode se proliferar tanto em piscinas (dependendo da quantidade de cloro) e caixas d'água, quanto em pneus velhos e sacos de lixo

Uma boa alimentação garante imunidade à doença. MITO: ter uma dieta saudável é sempre recomendação para ter boa saúde, em qualquer circunstância. No caso da dengue, uma pessoa saudável pode ter um quadro mais leve da doença, e combater os sintomas com mais facilidade que alguém que esteja desnutrido ou com a imunidade comprometida. Mas qualquer um pode contrair a doença caso seja exposto ao vírus

Os sintomas da dengue tipo 4 são diferentes dos outros tipos da doença. MITO. Os sintomas da doença são os mesmos nos quatro tipos de dengue. Eles incluem febre, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, perda do paladar e do apetite, manchas e erupções na pele, náuseas, vômitos, tonturas, cansaço, dor no corpo, nos ossos e nas articulações

Posso pegar dengue mais de uma vez. VERDADE: existem quatro tipos diferentes de vírus da dengue, que não geram imunidade cruzada, ou seja, a imunidade é específica para cada um dos tipos. Se a pessoa pegar a dengue do tipo 1, por exemplo, ficará imune ao tipo 1, mas poderá se infectada ainda pelos vírus de tipo 2, 3 e 4

Uma pessoa com dengue pode se tratar apenas em casa. PARCIALMENTE VERDADE: sim, desde que essa seja a orientação do médico. Nunca se deve tratar a doença em casa sem antes buscar ajuda médica. Só um especialista pode indicar os melhores remédios e o tratamento adequado em cada caso, dependendo da gravidade e da evolução da doença. Em geral, como não é comum efetuar o diagnóstico de dengue por exames, que são demorados e complexos, é recomendado ao paciente ir para casa e ficar em observação. Se os sintomas piorarem, ele deve voltar ao médico para uma nova avaliação. Em casos mais graves, pode ser necessária até uma internação

É possível que uma pessoa infectada passe a doença. MITO: não há transmissão da dengue de pessoa para pessoa. É necessário um mosquito "Aedes aegypti" contaminado com o vírus da dengue para que a doença contagie um ser humano. O que pode acontecer é um mosquito que não tem a doença picar alguém infectado e, então, se contaminar. Neste caso, ele passa a ser um potencial transmissor da doença

Repelentes ajudam a espantar o mosquito. VERDADE: o repelente reduz o risco de picadas pelos mosquitos e pode ser utilizado toda vez que a pessoa for a um local onde provavelmente existam insetos. Seu uso deve ser criterioso, sem excessos, e respeitar as recomendações dos fabricantes e dos profissionais de saúde. Apesar de ajudar a afastar o mosquito, vale ressaltar que ele não é garantia de imunidade à doença. Além disso, ao suar ou molhar-se, o repelente pode sair e ter sua eficácia reduzida

O mosquito que transmite a doença não pica durante a noite. MITO: não é comum, mas pode acontecer. O mais comum é as picadas acontecerem durante o dia e no fim da tarde. Durante a noite, os mosquitos não costumam sair para voar e ficam abrigados entre plantas e nos entulhos. Mas isso não impede que, eventualmente, saiam e piquem alguém

As picadas só acontecem nas pernas. MITO: picadas podem acontecer em qualquer parte exposta do corpo, apesar de ocorrerem com mais frequência nas pernas e, principalmente, nos pés. Essas regiões possuem ácidos que geram um cheiro bem característico e que tende a atrair mais o mosquito. O cuidado, no entanto, deve ser com todo o corpo, pois o mosquito também pode acabar picando outras regiões

O mosquito infectado pode não transmitir a doença VERDADE: o vírus se aloja na saliva do mosquito, que é utilizada durante a picada para sugar o sangue. A chance de transmissão, nestas condições, é grande e praticamente inevitável, mas pode eventualmente não acontecer. Isso porque, apesar de contaminado, o vírus presente no mosquito pode estar ainda em período de incubação que dura, em média, dez dias. Só depois desse período ele pode ser transmitido, o que pode acontecer várias vezes durante o ciclo de vida do mosquito, de cerca de um a dois meses

Tomar chá de cravo-de-defunto ou de cravo-amarelo ajuda a combater a doença. MITO: não há nenhum estudo científico que comprove essa teoria que surgiu da ideia de que, ao tomar essas bebidas, a pessoa exalaria um cheiro capaz de espantar o mosquito

É possível tratar a dengue apenas com homeopatia. MITO: embora um medicamento homeopático tenha sido aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) com esse fim, Marcos Cyrillo, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), diz que não há testes suficientes para comprovar sua eficácia cientificamente. No entanto, algumas pessoas que acreditam neste tipo de terapia podem se sentir bem após fazer uso de alguns remédios homeopáticos para tratar os sintomas da doença. Em todos os casos, o indicado é sempre consultar um médico que avalie o quadro geral da doença (se é leve ou grave) e oriente o paciente na melhor alternativa de tratamento

Fico livre do mosquito da dengue ligando o ar-condicionado. MITO: ambientes mais frios e o fluxo de ar do aparelho inibem a ação dos mosquitos, mas não os eliminam. Não há como garantir segurança completa nestes casos, especialmente se o aparelho não provocar um forte fluxo de ar, permitindo que os insetos continuem voando

Se um paciente tem apenas febre já pode estar com dengue. VERDADE: a febre é um dos sintomas da dengue. Quando surge, é necessário consultar um médico para o correto diagnóstico e para descartar outras doenças, como gripe

Em casos de suspeita de dengue, paracetamol e dipirona não devem ser usados pelo paciente. MITO: a recomendação é não utilizar apenas aspirina (ácido acetilsalicílico), porque este medicamento é anticoagulante e pode causar hemorragias em quem está com dengue. A dipirona, apesar de não ser vetada, também pode gerar efeitos adversos no sangue, portanto deve ser evitada. Já o paracetamol, em doses baixas, é o que menos tem risco de efeitos adversos no tratamento da dengue. Em todos os casos, a recomendação é sempre procurar um médico antes de tomar qualquer remédio. Somente um especialista poderá determinar qual é o melhor para cada paciente

Uma vacina para conter o vírus está sendo estudada. VERDADE: há muitos estudos de vacinas contra a dengue em andamento, alguns inclusive já em teste e com resultados promissores. Mas nenhum chegou a uma conclusão definitiva até o momento e serão necessários mais alguns anos de pesquisas antes de colocá-las no mercado

Qualquer inseticida mata o mosquito. VERDADE: o produto ajuda a matar os mosquitos e pode ser utilizado de acordo com as recomendações do fabricante em ambientes fechados. No entanto, não se pode confiar somente neste mecanismo de controle. É preciso, antes de tudo, evitar deixar água parada em recipientes dentro e fora de casa, que é o local de depósito das larvas e grande fator de proliferação do mosquito

Misturar água sanitária na água elimina as larvas. VERDADE: em uma concentração alta, a água sanitária pode, em teoria, matar as larvas do mosquito. Mas isso não é garantido, pois ela precisaria ser utilizada em uma concentração muito alta para atingir tal benefício. A água sanitária oferece ainda algumas restrições, pois só pode ser utilizada em recipientes que armazenam água que não seja para consumo humano, como piscinas desativadas e ralos pluviais, por exemplo. Portanto, não deixar a larva surgir, evitando a água parada, é sempre mais eficiente do que tentar eliminá-la com produtos químicos depois

A pessoa que teve a doença fica imune após o tratamento. PARCIALMENTE VERDADE: quem já teve dengue adquire imunidade permanente para aquele tipo de dengue que a acometeu. Como existem quatro tipos diferentes de vírus da doença, a pessoa pode adquirir ainda um vírus do outro tipo. Portanto, mesmo quem já teve dengue uma vez deve continuar tomando medidas para evitar um novo contágio por um outro tipo da doença

Apenas a fêmea do mosquito transmite a dengue. VERDADE: o vírus fica alojado na saliva do mosquito, que é utilizada para sugar o sangue na hora da picada. Como apenas a fêmea do mosquito transmissor se alimenta de sangue e o macho não, somente ela transmite a doença