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Global Research

Com mais dinheiro em caixa, IAC reforça pesquisas com cana

Publicado em 05 novembro 2008

Referência no país em melhoramento genético convencional, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), ligado à Secretaria de Agricultura de São Paulo, completa este ano 121 anos com uma guinada em seu orçamento e investimentos, propiciando nova injeção de ânimo às pesquisas agrícolas.

O instituto deverá fechar 2008 com um orçamento de R$ 30,5 milhões - R$ 25 milhões já realizados -, frente aos R$ 26,5 milhões de 2007. Os recursos extra-orçamentários, advindos de outros órgãos públicos e da iniciativa privada, somarão mais R$ 22 milhões, quase o dobro do ano passado.

"É muito mais do que a gente tinha tradicionalmente", diz Marco Antonio Zullo, diretor do IAC recém-empossado. Em entrevista ao Valor, Zullo afirmou que o instituto vive "um momento feliz", de caixa reforçado e uma equipe de pesquisadores jovem e qualificada. "Estamos com 212 pesquisadores, com uma idade média de 32 anos, sendo 80% deles com doutorado".

O alívio financeiro, diz o diretor, foi possível graças à organização de alguns setores da agricultura, sobretudo o sucroalcooleiro, que vem conscientizando os produtores sobre o papel vital da pesquisa científica no aumento da produtividade da cultura. Mas o mérito recai também sobre a nova gestão estadual, ressalva Zullo, "mais desenvolvimentista que burocrática".

Não seria uma surpresa, portanto, que quem sai ganhando, neste cenário, é a cana-de-açúcar, segmento da agricultura que mais arrecada verbas no instituto. Cerca de 130 empresas do setor contribuem atualmente com as pesquisas do Centro de Cana do IAC, localizado em Ribeirão Preto. O interesse pela cultura é auto-explicativo: a cana ocupa hoje cerca de 7 milhões de hectares no país e estima-se que pode crescer mais 50% nos próximos cinco anos, ao mesmo tempo em que a demanda por etanol aumenta no mercado internacional. O setor já exporta o equivalente a US$ 7 bilhões por ano.

No Programa Cana são investidos cerca de R$ 3 milhões por ano pela iniciativa privada e cerca de R$ 800 mil por fomento. Para 2009, a expectativa é igualar o fomento à parceria com o setor privado, em razão de projetos apresentados à Fapesp, diz o órgão.

Desde 1997, o instituto paulista já criou e patenteou 17 novas variedades de cana - 22% do total liberado e cerca de 10% da área de cana do país -, que atendem produtores de dentro e fora do Estado. Entre as regiões contempladas por variedades adaptadas de cana estão Minas Gerais, Goiás e o oeste baiano, onde o órgão fechou uma parceria com a Fundação BA.

Segundo Zullo, as novas variedades de cana tem o objetivo de ampliar a produção sem aumento de área, elevar o teor de sacarose e a resistência a doenças e também adaptar a cultura às condições climáticas de outras regiões do Brasil. "A expansão depende fundamentalmente da pesquisa científica porque requer o desenvolvimento de variedades adaptadas às características de solo e clima de cada localidade", diz o diretor do IAC.

Zullo diz que o sucesso dos canaviais paulistas tem atraído a atenção de outros países. Desde o início deste ano, o IAC exporta tecnologia para o México, através de uma parceria com o grupo Piasa, no Estado de Vera Cruz. Há negociações também com Angola, Moçambique e Peru, que deverão iniciar testes com materiais do IAC.

Na citricultura, o segundo carro-chefe do instituto (ainda há centros de pesquisa para café, hortaliças, grãos e fibras), os resultados com novas variedades resistentes a doenças são mais lentos. Segundo Zullo, o foco das pesquisas no momento é o greening. A doença, considerada a pior da citricultura, surgiu em 2004 e já provocou a erradicação de pelo menos 2 milhões de pés-de-laranja em São Paulo, segundo estimativas da Secretaria de Agricultura. "Quando ela vem, tem que botar o pomar inteiro abaixo", afirma Zullo.

A doença dos laranjais incide também em países como Uruguai, Cuba e Estados Unidos. Com este último, o IAC está em tratativas para desenvolver três projetos de estudos sobre o agente causador da doença e formas de combate. "No passado, a colaboração entre os países era mais franca e livre. Hoje há muitas regulamentações que impedem as parcerias, alegando ameaça comercial e de segurança sanitária", diz Zullo. "Se não for assim, até a gente achar a solução não vai mais existir pomar".