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Com dificuldades, pesquisadores usam internet para arrecadar dinheiro

Publicado em 31 outubro 2015

SÃO PAULO, SP - Faltou dinheiro para financiar a ciência? Uma solução é passar o chapéu ou, em outros termos, usar o crowdfunding –financiamento coletivo– para angariar recursos. Após agências de fomento federal e fluminense desacelerarem a distribuição de verbas, a neurocientista da UFRJ e colunista da Folha de S.Paulo Suzana Herculano-Houzel recorreu à modalidade.

Ela já gastou mais de R$ 20 mil do próprio bolso para manter seu laboratório funcionando. Com o financiamento coletivo, quer arrecadar R$ 100 mil para garantir que os projetos em andamento possam ser finalizados. Entre eles está um que visa entender a relação entre distribuição de células nevosas no cérebro e vascularização. Isso permite a avaliação do "custo energético" do órgão em diferentes animais e indivíduos.

Um outro projeto almeja esclarecer a relação entre número de neurônios e capacidade cognitiva.

Trata-se de uma versão "dois ponto zero" da antiga vaquinha. No entanto, é mais comum projetos que gerem um serviço ou produto serem financiados pelas pessoas, como livros, jogos ou shows.

No caso das recompensas oferecidas por Suzana há ilustrações e artigos científicos autografados e até uma "consulta cara a cara" com a neurocientista –esta para quem contribuir com R$ 5.000.

"É como já mostrou a neurociência: colaborar com uma boa causa cria satisfação", afirma a pesquisadora. Até o momento foram arrecadados 78% do total da meta.

Mexilhão

Dois dos pioneiros do crowdfunding científico nacional são a estudante de doutorado Marcela Uliano e o seu orientador Mauro Rebelo, professor da UFRJ, que em 2013 conseguiram R$ 40.736 para o projeto de sequenciamento do genoma do mexilhão-dourado, uma espécie invasora que se tornou uma praga nos ecossistemas brasileiros e que corre risco de chegar à Amazônia.

No rastro de destruição deixado pela espécie invasora estão peixes que morrem ao engoli-los e até mesmo outros moluscos que não conseguem se alimentar, "vedados" com a fixação dos mexilhões-dourados em suas conchas –o órgão responsável por isso é conhecido como pé.

Com a ajuda de uma ilustradora, eles escreveram um roteiro e fizeram um vídeo explicativo "como se fosse para a minha mãe", diz Rebelo. Foram muitas horas de trabalho dedicadas ao crowdfunding, mas, segundo os cientistas, foi muito mais divertido do que escrever um projeto para uma agência de fomento.

Após a obtenção dos recursos, o genoma do bicho finalmente está sendo sequenciado. E a recompensa daqueles que apoiaram é o direito de batizar os genes, proteínas, e vias metabólicas mapeadas. Os primeiros trabalhos já estão sendo publicados.

"A experiência foi boa não só porque arrecadamos os R$ 40 mil, mas também pelo aprendizado de que o brasileiro gosta de ciência. Se explicar de uma forma simples, as pessoas sem qualquer instrução fazem perguntas muito inteligentes", avalia Marcela.

Psicocinese

As vaquinhas permitem também que projetos menos ortodoxos, rejeitados pelos cientistas que dão pareceres para as agências de fomento, tentem se financiar. O físico Gabriel Guerrer, que faz pós-doutorado na Instituto de Psicologia da USP, recorreu ao crowdfunding para testar a hipótese de que algumas pessoas têm a capacidade de influenciar a matéria com a mente –fenômeno chamado de psicocinese.

Pessoas com habilidades mentais superiores, como meditadores frequentes, teriam a capacidade de atrapalhar a passagem de um laser por uma fenda dupla. Parece filme dos X-Men, mas Guerrer garante que é somente a óptica simples que dá substrato para a ideia.

A meta é arrecadar R$ 48 mil –até o momento foram obtidos R$ 22.680– para financiar, entre outras coisas, a compra de equipamentos e um estágio nos EUA, com um pesquisador que já realizou esse experimento e que relatou resultados positivos.

No despacho em que negou financiamento para o projeto, a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) apontou que Guerrer não tinha experiência alguma nesse assunto, da mesma forma que o seu supervisor, o professor de psicologia da USP Wellington Zangari, que é especialista em psicologia social da religião.

Guerrer, que trabalhou no CERN, um importante acelerador de partículas que fica na fronteira da Suíça com a França, afirma que ouviu críticas pelo caráter pouco usual do seu projeto, mas argumenta que "não existe postura menos científica do que impedir que algo seja investigado cientificamente".

FOLHAPRESS