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Com aquecimento, até o final do século Bauru terá redução de 20% nas chuvas

Publicado em 12 fevereiro 2007

Se as previsões do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês) se confirmarem, até o final do século haverá uma redução de pelo menos 20% na ocorrência de chuvas na região de Bauru entre junho e agosto.

 

Como conseqüência da falta de chuva ainda maior no inverno e do aumento da temperatura, estimado em cerca de 4 graus, riachos podem secar e rios ficarão menores. Várias culturas, como a plantação de café, soja, arroz, feijão e milho sofrerão quedas significativas. A situação mais desfavorável será para o cultivo do café, que tende a desaparecer, caso o aquecimento supere os 5 graus.

 

Já a cana-de-açúcar terá um aumento de produtividade se a temperatura ficar até 3 graus mais quente. Mais do que isso, a tendência é o produtor perder dinheiro.

 

Outra conseqüência prevista para a região de Bauru é o desaparecimento por completo do pouco que ainda resta de floresta tropical. O cenário mais provável é a vegetação se transformar em um imenso cerrado.

 

Doenças infecciosas como a leishmaniose, leptospirose, hantavirose e dengue, que têm preocupado as autoridades sanitárias de Bauru, devem se propagar com mais intensidade diante de um clima mais quente.

 

As previsões foram feitas pelo diretor do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), Roberto Vicente Calheiros, com base em estudos realizados pelos pesquisadores Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e por Luiz Gylvan Filho, da Universidade de São Paulo (USP).

 

Calheiros lembra ainda que existe uma probabilidade muito grande da região sofrer com eventos extremos provocados pela mudança climática que deve afetar o mundo todo até 2099.

 

Segundo ele, as tempestades ficarão mais intensas e não necessariamente mais freqüentes. "Podemos ter até menos tempestades, mas elas serão bem mais compactas. De modo que onde ela pegar, as conseqüências poderão ser muito sérias", prevê o diretor.

 

Ele cita os tornados que foram registrados nas cidades de Palmital e Lençóis Paulista em 2004, que deixaram um rastro de destruição por onde passaram. Por sorte, ambos ocorreram na zona rural. Mesmo assim, em Palmital, dois trabalhadores rurais morreram quando o ônibus em que estavam virado pela força do vento.

 

Em Lençóis, o tornado recebeu classificação F3, cuja velocidade dos ventos chega a 300 quilômetros por hora. "Evento como esse nunca havia sido registrado antes", enfatiza Calheiros. Em 2005, foi a vez de Indaiatuba ser castigada por um tornado. Vagões pesando toneladas de puro aço foram arrancados dos trilhos.

 

Isso para citar algumas ocorrência só no Estado de São Paulo. Em outros Estados, especialmente os do Sul, os registros também estão se intensificando e devem crescer ainda mais lá e aqui.

Já o fim dos últimos resquícios de floresta que existem na região significará também o fim de algumas espécies animais e vegetais. Segundo Calheiros, um estudo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) indica que a diminuição da umidade na Bacia Amazônica vai deixar o clima mais seco. Com isso, a floresta deve desaparecer aos poucos para dar lugar ao cerrado — vegetação de porte médio, com árvores medindo entre três e seis metros de altura com tronco e galhos retorcidos, cascas espessas e raízes profundas.

 

Nesse tipo de vegetação, segundo o diretor do IPMet, fica inviável a sobrevivência de algumas espécies animais como a onça, por exemplo. Embora não seja comum vê-las andando por aí, elas ainda existem na região.

 

Efeitos são irreversíveis

 

A primeira parte do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), divulgada no último dia 2, em Paris, indica que o aquecimento global é causado fundamentalmente pela atividade humana e que seus efeitos no clima já começaram e continuarão pelos próximos séculos, mesmo que haja um corte nas emissões dos gases estufa.

 

Para especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) envolvidos na realização do relatório, o documento não apresenta surpresas, mas traz detalhes sobre um aspecto importante: os extremos climáticos. De acordo com José Antonio Marengo, meteorologista do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe, o documento atual traz dados mais consistentes e realistas do que a última versão, lançada em 2001.

 

O cientista explica que o relatório anterior destacava o aquecimento global, o degelo das calotas polares e o aumento do nível do mar, mas não trazia tantos detalhes sobre os extremos, que se caracterizam por pancadas de chuva violentas alternadas com longas secas, ondas de calor e furacões. Um exemplo dos extremos climáticos, segundo ele, são as recentes inundações em Minas Gerais e São Paulo.

 

"O texto de 2001 apontava que o aquecimento global poderia atingir até 5,8 graus Celsius, no pior cenário. O de 2007 indica um aumento de até 4,5 graus. Por outro lado, pela questão dos extremos climáticos, concluímos que a situação é pior do que imaginávamos", afirma.

 

Outro pesquisador do CPTEC, Carlos Nobre, concorda com a avaliação e destaca que o cenário é especialmente preocupante para o Brasil. "Já somos um País com muitos extremos climáticos, o que implica secas, enxurradas, deslizamentos de encostas, inundações e vendavais. O relatório, cujos dados são bem mais consistentes que os anteriores, dá indicações de que esses fenômenos vão se intensificar", diz ele. (Agência Fapesp)