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A Cidade On (São Carlos, SP)

Com apoio público, empresa de São Carlos inicia exportação de material genético

Publicado em 22 julho 2021

Uma empresa de biotecnologia de São Carlos (SP) desenvolveu um processo inédito para produzir, pela primeira vez no Brasil, DNA polimerases de alta qualidade em escala comercial.

O empreendimento, que teve apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da Fapesp, ganhou reconhecimento e começou a entrar na pauta de exportação da cidade, com o primeiro contrato de venda para Europa assinado.

A pesquisadora responsável pelo projeto, Amanda Bernardes Muniz, explica que as DNA polimerases são enzimas amplamente utilizadas para a manipulação in vitro do DNA em clonagem, sequenciamento e mutagêneses de DNA, entre outras técnicas, com aplicação, por exemplo, em diagnósticos médicos e análises forenses com base em material genético.

"Apesar de ser um insumo de uso rotineiro em meio laboratorial, o Brasil não tinha uma produção da enzima dentro de padrões rigorosos de qualidade que viabilizasse sua comercialização. Nosso objetivo era produzir, no país, uma enzima com padrões comparáveis aos das que já são comercializadas", diz Muniz.

Segundo a pesquisadora, que tem formação em física e atua na área de biofísica molecular, os processos de controle de qualidade foram desenvolvidos pela empresa com o apoio de uma companhia alemã, que é uma das financiadoras da empresa brasileira.

"A enzima é produzida em bactérias e, se houver qualquer outro DNA contaminante proveniente da produção, o resultado que se busca com a polimerase fica comprometido. Por isso o controle de qualidade rigoroso é fundamental para a comercialização", afirma Muniz.

"Éramos usuários do produto e sentíamos as dificuldades da dependência em relação à importação", conta a bióloga Maria Amélia Dotta, que atuava na indústria farmacêutica antes de se tornar uma das fundadoras da "Cellco", em 2014.

"As variações de preços, sujeitas a reviravoltas cambiais, causavam problemas para a programação dos projetos e prazos de entrega", diz Dotta. "Essa experiência no nosso trabalho com biologia molecular nos mostrava que havia ali uma oportunidade de desenvolvimento de um produto e começamos a explorar isso como um projeto e optamos por submeter à Fapesp", afirma.

A bióloga e a física se conheceram durante o doutorado, no Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da Universidade de São Paulo (USP), onde ambas já haviam se aprofundado na pesquisa sobre proteínas recombinantes. Muniz começou a atuar na empresa em 2016 e o projeto foi aprovado pelo Pipe-Fapesp no mesmo ano.

Em 2018, com o processo de produção da enzima já desenvolvido, a empresa obteve novo apoio do Pipe-Fapesp para a fase 2, para que fosse possível ganhar escala comercial. "Mesmo antes do fim do projeto o produto já estava no mercado, graças ao aprimoramento da enzima que conseguimos obter no projeto da Amanda", diz Dotta.

Com o apoio, a empresa de São Carlos entra em um mercado avaliado em R$ 1 bilhão em 2020, com previsão de crescimento anual de 6,7% até 2025, quando chegará a R$ 1,38 bilhão.

Além das duas fases do projeto de desenvolvimento da enzima concluído em fevereiro de 2021, a companhia também obteve apoio de um projeto Pipe-Fapesp, ainda vigente, para o desenvolvimento de um kit de diagnóstico de Covid-19 por RT-qPCR (transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase quantitativa, na sigla em inglês) pelo método multiplex, o que barateia o produto.

A empresa já havia desenvolvido, em outro projeto Pipe-Fapesp, um processo produtivo de dNTPs (desoxirribonucleotídeos fosfatados), utilizados na técnica de PCR.

(Com informações da Agência Fapesp e IFSC/USP).