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Coleção “Humanistas e Cientistas do Brasil” traz biografias de grandes intelectuais brasileiros

Publicado em 12 abril 2016

Por Vivian Costa

A SBPC e a Edusp lançaram ontem (11/04) três volumes da coleção “Humanistas e Cientistas do Brasil”, projeto que teve como coordenador o geneticista e professor Luiz Edmundo de Magalhães. O evento contou com a participação da viúva do pesquisador, Nícia Wendel de Magalhães, da presidente da SBPC, Helena Nader, do presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Hernan Chaimovich, e do vice-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Eduardo Moacyr Krieger.

A coleção é resultado de um projeto que foi idealizado por Magalhães e apresentado à SBPC em 2007, durante a segunda gestão do professor Ennio Candotti como presidente da instituição. O objetivo era reunir as biografias de renomados cientistas brasileiros, que já não estavam mais vivos, das áreas de ciências humanas, ciências exatas e ciências da vida.

Wendel, professora de biologia e ambientalista, comentou que estava muito contente e emocionada por ver o sonho do marido se tornar realidade. “Ele se dedicou muito por esta obra. Era a coisa mais importante para ele nos últimos meses de vida, tanto que mesmo internado ele se preocupava com o livro. Por isso, prometi ao Edmundo que levaríamos o projeto à frente, mesmo que fosse a última coisa que faríamos. Infelizmente ele faleceu dois dias depois dessa conversa, mas a obra saiu”, conta.

Wendel contou que foi a presidente da SBPC, Helena Nader, quem propôs introduzir um capítulo sobre Magalhães no livro. “Meu filho disse que a obra estava pronta, mas como ela insistiu, aceitamos a ideia. Eu, juntamente com os meus filhos, contribuímos para reunir o material para que ele fizesse parte da obra também como homenageado”, lembra.

Emocionada, Nader lembrou que Magalhães realizou boa parte das atividades relacionadas à feitura da obra quando o enfisema pulmonar que o acometia já lhe dificultava sair de casa. “Ele faleceu dias depois de me entregar os originais do livro que organizou”, disse. A presidente da SBPC também citou que a ideia do geneticista era produzir um livro apenas de cientistas falecidos: “A partir de sua morte ele passou a atender o critério fundamental para ser incluído dentre os homenageados. E foi isso que aconteceu. Ele fez como um fotógrafo que coloca a câmera no automático e corre para também sair na foto”.

Krieger, que estava representando o presidente da Fapesp e presidente de honra da SBPC, José Goldemberg, disse que o livro enaltece a memória daqueles que realmente contribuíram com a ciência no Brasil em diferentes setores. “Temos que referenciar estes cientistas que contribuíram com a ciência no Brasil, principalmente nesta hora difícil em que o País precisa de um norte. É bom termos essa obra com cientistas que souberam se dedicar à ciência e, com isso, promover o seu progresso”, disse.

Em seu discurso, o presidente do CNPq ressaltou o quanto que a Ciência, Tecnologia e a Inovação são importantes para que os países contornem momentos de crise e quão fundamental é o papel dos cientistas. “Estes livros trazem “heróis” que permitiram que o Brasil tivesse Ciência. Por isso, esta obra não está simplesmente homenageando cientistas. Ela nos mostra como sair da crise, já que não é possível de sair sem o trabalho de mentes que produzem arte, educação, física, entre outras áreas. Com isso, podemos melhorar a condição econômica e social do Brasil”, disse.

Chaimovich também ressaltou a baixa representatividade feminina na obra, uma questão que precisa ser melhor observada na Ciência. “O número de mulheres citadas na coleção é extremamente pequeno e isso nos faz lembrar que é preciso pensar na questão gênero de forma mais aguda, profunda e recuperar nomes que deveriam estar e não estão”, disse.

A ex-secretária geral da SBPC e bióloga Rute Maria Gonçalves de Andrade, que participou do lançamento via Skype, também concorda com a importância dos pesquisadores que fazem a ciência do Brasil, e que deve ser uma inspiração para as próximas gerações de cientistas. “É um projeto de suma importância, pois mostra que no Brasil existem pessoas que foram significativas para a ciência nacional, e até em nível mundial. É importante mostrar para os cientistas jovens que temos muitos exemplos que podemos seguir aqui no País”, comenta.

Obra

Em 2010, uma comissão organizadora foi formada e o projeto, então, começou a ganhar vida. Nessa época, Andrade, que acompanhou todo o desenvolvimento da coleção, afirma que foi uma experiência muito gratificante. “Aprendi muito sobre os cientistas da ciência brasileira”, comenta.

A presidente da SBPC comparou a coleção “Humanistas e Cientistas do Brasil” com o  “Cientistas do Brasil – depoimentos”, livro lançado em 1998 em comemoração ao quinquagésimo aniversário da SBPC. “Em ambas as iniciativas, nosso propósito é mostrar ao Brasil alguns de seus principais cientistas, suas trajetórias profissionais, seu pensamento e suas contribuições à ciência e ao País”, afirma.

Na obra de 1988, no entanto, publicada em um único volume, foram os próprios cientistas que contaram suas histórias, por meio de entrevistas. Nesta coleção de 2016, as biografias são narradas por um ou mais autores, “normalmente colegas de trabalho que se tornaram amigos no decorrer da vida”, conforme conta Nader.

Ela destacou também algumas curiosidades, como o caso do sociólogo Aziz Simão e o geógrafo Aziz Ab’Saber, cientistas entrevistados para o primeiro livro que também tiveram sua história imortalizada na obra lançada ontem. “Alguns colegas, como Erney Camargo, Isaac Roitman e Hernan Chaimovich, participaram de ambas publicações, como entrevistadores naquela e como autores nesta”, ressalta.

A coleção “Humanistas e Cientistas do Brasil” é composta por três volumes – “Ciências da Vida”, “Ciências Exatas” e ‘Ciências Humanas” -, que somam 997 páginas, com as histórias de 63 cientistas e intelectuais brasileiros. A presidente da SBPC observou ainda que a obra é parte das comemorações dos 80 anos da USP.

O autor

Luiz Edmundo de Magalhães foi diretor do Instituto de Biociências (IB) da USP, entre 1985 e 1988, reitor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) de 1975 a 1979, e Doutor Honoris Causa desta instituição. Especialista em Genética Animal e Genética de Populações, foi o responsável pela produção do primeiro camundongo transgênico no Brasil. Nos últimos anos de vida, dedicou-se a trabalhos sobre ética animal. Magalhães foi ainda conselheiro e secretário-geral da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de 1969 a 1991.

Magalhães faleceu no dia 23 de maio de 2012, mas o projeto foi levado adiante com o apoio de sua esposa, a professora e ambientalista Nícia Wendel de Magalhães, e seus seis filhos. Na apresentação da coleção, ele escreveu que o projeto, realizado pela SBPC, tem por objetivo “homenagear intelectuais que deixaram suas marcas na evolução do conhecimento e colaboraram de forma significativa para o nosso progresso, nos diversos campos do saber”.

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