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Diário do Nordeste online

Cocaína na adolescência é ainda mais prejudicial que na vida adulta, diz estudo

Publicado em 31 agosto 2017

Uma pesquisa realizada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) concluiu que pessoas que começam a usar cocaína durante a adolescência desenvolvem déficits cognitivos mais significativos do que quem inicia o consumo da droga na vida adulta.

Os pesquisadores compararam dois grupos de dependentes e observaram diferenças marcantes principalmente em habilidades como atenção sustentada (requerida para a realização de tarefas longas, como o preenchimento de um questionário), memória de trabalho (necessária para o cumprimento de ações específicas, como a de um garçom que precisa gravar o pedido de cada uma das mesas até o momento de entregar o prato corretamente) e memória declarativa (que corresponde ao armazenamento e recuperação de dados após um período de intervalo).

“A adolescência é considerada uma das etapas cruciais do desenvolvimento cerebral, quando o excesso de sinapses é eliminado e as estruturas essenciais para a vida adulta são selecionadas e refinadas. O uso de drogas nesse momento pode atrapalhar o processo de programação do cérebro e fazer com que conexões importantes sejam perdidas”, comentou Paulo Jannuzzi Cunha, professor da FMUSP e coordenador do projeto.

Foi identificado ainda que no grupo de usuários com início precoce foi 50% mais frequente o consumo concomitante de maconha e 30% de álcool, quando comparado com dependentes que iniciaram o uso depois dos 18.

Participaram do estudo usuários que estavam sob uma condição de abstinência controlada. Foram incluídos na amostra 103 pacientes dependentes de cocaína – 52 deles no grupo de usuários com início precoce (antes de 18 anos) e 51 no grupo com início tardio (após 18 anos). Todos estavam há pelo menos sete dias sem consumir a droga. A ausência dos metabólitos da cocaína foi comprovada por meio de testes toxicológicos de urina. Além disso, havia um terceiro grupo controle que contou com 63 pessoas não usuárias de substâncias psicoativas.

A faixa etária dos participantes variou de 20 a 35 anos e a proporção de homens e mulheres foi semelhante. Entre os dependentes com início precoce destaca-se um participante que faz uso de cocaína desde os 12 anos.

“Dados da literatura científica indicam que até os 25 anos de idade uma região do cérebro conhecida como córtex pré-frontal está em desenvolvimento. Essa região se relaciona com as chamadas funções executivas, como planejamento, tomada de decisão, controle inibitório, atenção e memória de trabalho. Decidimos avaliar, portanto, se essas habilidades estavam mais prejudicadas nos usuários com início precoce”, contou a psicóloga Bruna Mayara Lopes, primeira autora do artigo.

Os resultados completos da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram divulgados na revista Addictive Behaviors.

Em busca de novas descobertas

Atualmente, o grupo da FMUSP segue com as investigações a fim de correlacionar o perfil cognitivo do grupo de início tardio e o grupo de controle a fim de comparar o funcionamento cerebral em repouso e também durante uma tarefa de tomada de decisão.

Para os pesquisadores os estudos evidenciam a necessidade de desenvolver estratégias e programas de prevenção mais efetivos e dirigidos ao público adolescente. “Vivemos em uma sociedade que associa diversão ao uso de substâncias psicoativas e esse é um aspecto cultural importante. Uma das formas de conscientizar sobre os riscos pode ser a realização de oficinas com os estudantes. É importante torná-los protagonistas nesse processo de conscientização, em vez de meros receptores passivos de informação”, avaliou Priscila Dib Gonçalves, supervisora do Serviço de Psicologia e Neuropsicologia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e coautora do artigo..

Para Cunha, os resultados mostram ainda que os pacientes mais graves, ou seja, com déficits cognitivos mais acentuados, necessitam de tratamento mais intensivo e multidisciplinar, com a associação de terapia e medicamentos.

Outra pesquisa já havia observado a existência de maior probabilidade de prejuízos cognitivos com o consumo precoce de droga. No estudo, realizado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) por Maria Alice Fontes, observou-se que pessoas que começaram a fumar maconha antes dos 15 anos tinham pior desempenho em testes que avaliam funções executivas quando comparadas com usuários de início tardio. Os resultados foram publicados em 2011 no British Journal of Psychiatry.

As informações são da Agência da FAPESP