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Jornal do Brasil

CNPq perde 45% das verbas com estudante improdutivo

Publicado em 09 julho 1996

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq, perde com estudantes improdutivos 45% das verbas que investe anualmente em bolsas de estudo de mestrado e doutorado "Não podemos mais desperdiçar dinheiro desse jeito", reclamou ontem o presidente do CNPq José Galizia Tundisi. Destinada ao financiamento de pesquisas, a instituição, vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, gasta por mês R$ 12 milhões em bolsas de auxilio para 14.500 estudantes. Nos cursos de mestrado, cada um recebe R$ 724 mensais, durante dois anos. Nos cursos de doutorado, a mensalidade é de R$ 1072, por quatro anos. Mas só 55% produzem teses no final do curso. Os demais, segundo José Galizia Tundisi, freqüentam os cursos mas não têm produção acadêmica alguma. Para evitar o problema, o CNPq irá adotar uma nova forma de avaliação. Seu pressente acha que o dinheiro para pesquisa no Brasil, embora escasso, poderá ser mais bem aproveitado. "Proponho criar uma câmara de compensação em que todos os órgãos de financiamento à pesquisa, federais e estaduais, discutam suas prioridades", disse. CNPQ GASTA MUITO COM ALUNOS IMPRODUTIVOS FABRÍCIO MARQUES SÃO PAULO — O presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) José Galizia Tundisi, disse ontem que a instituição desperdiça, com estudantes improdutivos, 45% das verbas que investe em bolsas de estudo de mestrado e doutorado. "Apenas 55% dos bolsistas produzem teses de mestrado e doutorado. Os demais são improdutivos. Não podemos mais desperdiçar dinheiro desse jeito", disse Tundisi, ao participar de uma mesa-redonda sobre pesquisa científica, no 48º Encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na PUC de São Paulo. O CNPq é uma entidade de financiamento, à pesquisa, ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Gasta, por mês, R$ 12 milhões em bolsas de auxílio para 14,5 mil estudantes de mestrado e doutorado. Cada um dos 9997 bolsistas de mestrado recebem R$ 724 mensais, durante dois anos. Os 4.506 bolsistas de doutorado ganham R$ 1.072 mensais, num período de quatro anos. Levantamento preliminar do CNPq mostra que apenas 55% dos bolsistas produzem teses de mestrado e doutorado ao final de seus cursos. Os demais embolsam o dinheiro, não concluem o curso e não fazem o trabalho. José Tundisi disse que o CNPq vai criar uma nova forma de avaliação dos bolsistas, para afastar os improdutivos. "Vamos criar um sistema rigoroso de avaliação. Eu prefiro qualidade a quantidade. Prefiro pagar melhor a quem produz a ter um número grande de bolsistas, sem produção acadêmica que justifique o investimento", afirmou. Essa política já está sendo aplicada aos bolsistas de doutorado e pós-doutorado que o CNPq mantém em universidades estrangeiras. No fim do curso de pós-graduação, eles são obrigados a voltar para o Brasil — caso contrário, devem devolver todo o dinheiro da bolsa. O CNPq gasta por ano R$ 100 mil com cada bolsista no exterior. Tundisi contou que também está racionalizando a concessão das bolsas no exterior. "Criamos um processo rigoroso de seleção e reduzimos de 400 para 100 o número de pesquisadores que vão para o exterior este ano. Eu tenho certeza de que esses 100 são da melhor qualidade. O Brasil gasta bastante com eles e não pode se dar ao luxo de desperdiçar dinheiro", disse. Na "opinião do presidente do CNPq, o dinheiro para pesquisa no Brasil, embora escasso, poderia ser mais bem aproveitado. Ele sugeriu uma saída: "Proponho criar uma câmara de compensação, em que todos os órgãos de financiamento à pesquisa, federais e estaduais, discutam suas prioridades. Tem muito pesquisador que pede verba a vários órgãos diferentes e estes não têm qualquer articulação para distribuir esse dinheiro de forma justa e equilibrada." O presidente do CNPq foi censurado pelo pesquisador Warwick Kerr, da Universidade Federal de Uberlândia. "O país está tentando se desenvolver. Precisa aumentar e não diminuir o número de bolsas de estudo", disse. Tundisi, diplomático, prometeu lutar para aumentar as verbas e o número de bolsas. "Mas os bolsistas vão ter que mostrar produtividade", ressalvou.