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Clone, só na ficção

Publicado em 28 janeiro 2002

Por CRISTIANE SEGATTO
PEA geneticista que treinou atores da novela das 8 condena a clonagem reprodutiva, mas defende as pesquisas com embriões.RFIL - Dados pessoais: Casada, 35 anos, dois enteados - Formação: Graduada em física pela PUC-RJ, tem Ph.D. em genética humana molecular pelo Mount Sinai Medical Center, em Nova York - Ocupação: Professora do Instituto de Biociências e do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP A cientista Lygia da Veiga Pereira abomina os jargões empregados pelos colegas ao falar sobre genética. Reconhece que a complicada nomenclatura bloqueia a atenção do ouvinte leigo, impedindo-o de entender a ciência que promete alterar o cotidiano das pessoas. Aflita com tanta desinformação na praça, Lygia lançou o livro Seqüenciaram o Genoma Humano... E agora? (Editora Moderna), um guia que faz qualquer um se sentir iniciado no assunto. Reconhecida pelo didatismo, a professora foi convidada a ensinar fundamentos de genética aos atores da novela O Clone, da Rede Globo. Numa dessas aulas particulares ela conheceu um Juca de Oliveira esforçadíssimo, armado de leituras prévias sobre o tema e perguntas incansáveis. Foi Lygia quem preparou os slides, com fotos dos sobrinhos dela, que o médico Albieri, interpretado pelo ator, usou para explicar a técnica nas cenas da novela. Carioca, a pesquisadora montou na Universidade de São Paulo um laboratório para criar camundongos com genes alterados, fundamentais para o estudo de doenças genéticas humanas. "Troquei Ipanema pela Fapesp", brinca, referindo-se ao apoio financeiro que recebe da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Num dos intervalos dos experimentos, deu a seguinte entrevista: ÉPOCA A genética e a clonagem sempre foram assuntos áridos para a maioria das pessoas. Agora estão na novela das 8. Isso é bom? Lygia da Veiga Pereira - É curioso como essa área do conhecimento passa uma imagem de coisa muito sofisticada. Os telespectadores vêem aquela dupla hélice de DNA na abertura da novela, captam a mensagem de que se trata de algo muito científico, mas não entendem como aquilo vai mudar nosso cotidiano. Chegou a hora de explicar o impacto que a pesquisa genética terá na vida das pessoas. Elas precisam ter um mínimo de conhecimento do que está acontecendo nos laboratórios para formar uma opinião consciente. Imagine se o Congresso decidisse aprovar uma lei que obriga todo mundo a ter seu DNA arquivado pela polícia. Os cidadãos precisam entender que as seguradoras terão acesso a essas informações e poderão triplicar o custo das coberturas se descobrirem que os segurados têm predisposição a alguma doença. ÉPOCA A novela passa a sensação de que a clonagem é fácil de fazer. Na vida real, os cientistas teriam o mesmo sucesso do médico Albieri? Lygia - A novela faz pensar que a clonagem é uma coisa simples. Albieri colocou um único embrião numa única mulher e não só deu certo como ainda nasceu Leo (Murilo Benício), que é uma beleza. Na vida real, o médico precisaria de umas 50 doadoras de óvulos. Teria de estimular a ovulação nessas mulheres e conseguir uns 400 óvulos. Aí precisaria implantar a célula do doador e formar 400 embriões. Apenas 100 sobreviveriam a tanta manipulação. ÉPOCA - Bastaria ter uma única barriga de aluguel? Lygia - Não. Nosso Albieri precisaria de 50 voluntárias e implantaria dois embriões no útero de cada uma delas. Dessas mulheres, 49 não iriam engravidar, perderiam os bebês logo no início, sofreriam aborto espontâneo aos seis meses de gestação ou dariam à luz uma criança malformada. Na melhor das hipóteses, uma delas geraria um clone normal. ÉPOCA - Algum dia será possível ressuscitar uma pessoa querida por meio dessa técnica? Lygia - A idéia da novela é muito atraente. Afinal, a irreversibilidade da morte é de uma crueldade insuportável para o ser humano. Se apresentamos a clonagem como forma de driblar esse destino, a técnica parece uma maravilha. Mas existem riscos nessas experiências. O público precisa entender que o produto desse processo será sempre um novo indivíduo, não o que morreu. Clone é como um gêmeo idêntico. Tem o mesmo jeitão, a mesma cara do irmão. Mas o efeito da vivência é quase tão importante quanto a genética na formação de uma pessoa. Somos produto do meio e do tempo em que vivemos. ÉPOCA - Não lhe parece legítimo que um casal que não possa ter filhos recorra à clonagem? Lygia - Sou absolutamente contra a clonagem para fins reprodutivos. Qualquer novo medicamento ou prática médica têm de ser testados milhares de vezes. Os estudos precisam comprovar que o método não faz mal e é eficaz. Até hoje a clonagem mostrou-se um desastre. Para cada clone normal, há dezenas de animais malformados. Até podemos jogar fora o subproduto das experiências com animais. Mas não poderíamos fazer o mesmo com seres humanos. ÉPOCA - Qual é sua opinião sobre médicos como o italiano Severino Antinori, que pretendem criar o primeiro clone humano? Lygia - Não acho que sejam cientistas sérios. Eles vivem de autopromoção. Não estão envolvidos em experimentos de clonagem de animais e caem de pára-quedas nesse assunto. Antinori diz que será capaz de monitorar a gravidez de um feto clonado a ponto de interrompê-la ao perceber algo errado. E se detectar anomalias com seis meses de gestação? E se um grave problema respiratório aparecer após o nascimento? É por isso que o consenso mundial é de que a clonagem para reprodução não deve ser aplicada em seres humanos. ÉPOCA - E se a técnica fosse perfeita em animais? Você aceitaria aplicá-la a humanos? Lygia - Ficaria mais difícil argumentar contra. Mas continuaria com medo. Começaria a pensar em coisas mais subjetivas, como as expectativas lançadas sobre a criança clonada. Acho que a humanidade não está preparada emocionalmente para lidar com uma situação que não faz parte da natureza. ÉPOCA - Como geneticista, você tem a aflição de estar brincando de Deus? Lygia - Pessoalmente não sinto isso. O pesquisador sério não deveria ter essa sensação. No máximo, pode sentir que está destrinchando segredos de Deus ou da natureza. Sempre lembro do livro A Reforma da Natureza, de Monteiro Lobato, no qual Emília quer mudar tudo. Ela não se conforma que uma fruta tão saborosa como a melancia nasça de uma planta rasteira. Aí vê uma jabuticaba caindo na cabeça de alguém e percebe que o estrago seria muito maior se fosse uma melancia. Quem brinca de Deus entra num caminho muito perigoso. Na natureza, os sistemas são muito complexos. Você mexe num ponto, pensa que só vai ter efeito localizado, mas aí depara com uma conseqüência inesperada. ÉPOCA - Você apóia a clonagem para fins terapêuticos? Lygia - É o futuro. Vai abrir uma área importante, a medicina regenerativa. Em vez de criar uma pessoa a partir de uma célula, podemos usar os mesmos mecanismos para induzir a célula a se transformar em um tecido específico. Imagine poder criar células do fígado, transplantá-las para um indivíduo com cirrose e regenerar o órgão. Ou pegar um pedacinho de pele e criar neurônios que revertam uma lesão na coluna vertebral. ÉPOCA - Você concorda com o uso de células de embriões humanos nessas pesquisas? Lygia - Concordo. As chamadas células-tronco embrionárias possuem o maior potencial de se transformar em qualquer tipo de célula. Adicionando certos reagentes, elas têm uma capacidade incrível de virar músculo, neurônio, célula do sangue, célula hepática ou do pâncreas. Só que para consegui-las é preciso destruir embriões. A questão principal é determinar quando começa a vida, um assunto sem consenso entre as religiões. ÉPOCA - A polêmica nesse campo é basicamente religiosa? Lygia - Sim. Em Israel, considera-se que a vida começa depois da implantação do embrião no útero. Portanto, não há restrição às pesquisas. São utilizados embriões de cinco dias, e não um feto formadinho como as pessoas imaginam. O embrião a que nos referimos é um conglomerado sem forma de 100 a 200 células. São excedentes das clínicas de fertilização, que provavelmente iriam para a lata de lixo, sem ritual especial. ÉPOCA - As células de embrião são mais eficientes que o material extraído de adultos? Lygia - Com embriões, é possível conseguir maior quantidade de células-tronco. Multiplicamos esse material em laboratório quase indefinidamente. Além disso, elas parecem mais versáteis. Têm capacidade de virar qualquer célula ainda maior que as de adulto. Mas pode ser que daqui a pouco as pesquisas com células de adulto avancem e fique claro que não vamos precisar de células-tronco embrionárias. Se o material da medula ou o do cordão umbilical derem conta do recado, serei a primeira a defender o fim do uso de embriões. Enquanto temos dúvidas, não podemos proibir a pesquisa com células-tronco embrionárias. Estamos num momento de abrir o leque de possibilidades, e não de apostar todas as fichas num só tipo de pesquisa.