Notícia

Correio do Estado (Campo Grande, MS)

Clonagem na agricultura é usada há mais de 30 anos no País

Publicado em 11 novembro 2004

Por São Paulo - Agenda Estado
Todos os dias, no Brasil, cientistas em mais de 50 laboratórios de universidades e empresas privadas pegam árvores frutíferas, cana-de-açúcar e plantas ornamentais, como violetas e orquídeas, e clonam. Tiram pedaços de uma bananeira saudável, por exemplo, e criam milhares de mudas idênticas a ela, pequenos clones, vendendo-os aos produtores. Tudo para acelerar a reprodução destes bons exemplares e, obter, ao fim, uma fruta melhor e mais saborosa, uma muda mais resistente a pragas, mais adequada ao clima. Mas, surpreendentemente, pouca gente sabe que fazer clones na agricultura, no Brasil, é uma atividade que tem mais de 30 anos. Um dos introdutores da técnica foi o professor aposentado Otto Crocomo, da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP). "Começamos em 1971 com a samambaia", conta ele, que fundou e dirigiu por 11 anos o Centro de Biotecnologia Agrícola (Cebtec). A clonagem em plantas até ajudou a salvar o eucalipto no Brasil na década de 70, quando o cancro dizimou a plantação dessa árvore no Espírito Santo e se espalhava por outros Estados. "A única opção rápida foi fazer clones daqueles que eram resistentes e não haviam sido destruídos pelo cancro", diz o professor da Esalq Antonio Natal Gonçalves, ex-aluno de doutorado de Crocomo e que trabalha na área desde 1972. O grupo de Crocomo criou 252 clones diferentes de eucaliptos para a Duratex, do grupo Itaúsa. Já o Cebtec fez, por exemplo, 3 milhões de clones de morango no total. No caso da cana-de-açúcar, a reprodução é via clones. "Toda a multiplicação da cana comercial no Brasil é feita assim", diz o engenheiro agrônomo Paulo Leite, presidente da Canavia-lis, que, entre outras atividades, produz mudas, livres de doenças comuns, e as vende a agricultores do País. A parceria entre empresas e universidades no caso dos clones na agricultura é prolífera e antiga. "No final dos anos 80 trabalhamos 5 anos com a Votorantim para livrar a laranja do vírus tristeza, que destruiu muito da plantação no Brasil", conta Crocomo. No caso da laranja, a donagem é até fundamental. "Se você for plantar a partir de semente, ela terá primeiro uma fase juvenil, com espinhos, e ficará com uns 10 metros de altura. Se você clonar uma laranja adulta, ela não terá a fase juvenil e ficará com uns 4 ou 5 metros", explica Gonçalves. Casos naturais Há também os casos em que a própria natureza, sem ajuda do homem, faz clones, como ocorre com espécies do cerrado e da mata atlântica. "Ipês e jequitibás, de modo geral, são clones", afirma Gonçalves. Recentemente ele fez um projeto com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) de clonagem da Cryptomeria japonica, conhecida popularmente como o pinheirinho de Natal. E outras espécies deverão começar a ser estudadas e clonadas por ele em breve, em colaboração com a pesquisadora Ludana Di Ciero, do laboratório de recursos genéticos e biotecnologia florestal da Esalq, e a Fapesp. Uma delas é a babosa. "Ela é interessante para a agricultura familiar, pois precisa de pouco espaço, 5 mil metros quadrados, para ser economicamente viável", diz Ludana. Hoje quem entrar na sala de crescimento do Cebetec verá vários milhares de mudas de, por exemplo, banana-maçã, nanica e prata em pequenos potes de vidro numa sala limpíssima. São basicamente clones, filhos idênticos de algumas poucas matrizes escolhidas a dedo por produtores, que viram nelas características interessantes enquanto elas estavam no campo. Após atingirem certo estágio, as mudas vão para a casa de vegetação, onde se aclimatam e crescem mais um tanto até o dia em que o caminhão de um produtor encoste do lado de fora para levá-las para o campo. Na safra seguinte, o ciclo se repete e, como gosta de dizer Gonçalves, vivemos cercados de clones.