Notícia

Jornal da USP

Clonagem humana - Uma tecnologia para o bem da humanidade

Publicado em 28 julho 2002

Em tramitação no Senado Federal, um projeto de lei do senador Sebastião Rocha (PDT-AP) prevê o uso de células do corpo humano para fins terapêuticos através da clonagem - um procedimento vedado pela legislação atual. Se aprovado, os cientistas poderão fazer pesquisas que permitam, a partir de uma única célula, criar tecidos para reconstituir órgãos degenerados. Uma pessoa com problemas cardíacos, por exemplo, poderia doar uma célula que, cultivada em laboratório, daria origem a tecidos do coração. Estes seriam implantados no portador da deficiência sem nenhum risco de rejeição. O mesmo se daria com tecidos dos rins, do fígado ou do pulmão.A técnica, porém, não serve para os mais de 5 milhões de brasileiros portadores de doenças genéticas, já que todas suas células apresentam a moléstia. Para eles, a solução está nas células embrionárias, extraídas de embriões em estágios muito iniciais de desenvolvimento e capazes de se transformar em qualquer tecido desejado. Usar tais células, porém, continua proibido pelo texto do senador. "Muitos embriões são descartados pelas clínicas de fertilização artificial", afirma a professora Mayana Zatz, do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP. "Por que não podemos usá-los para salvar milhares e milhares de vidas? CLONAGEM HUMANA - "NÓS LUTAMOS PARA SALVAR VIDAS" ROBERTO C. G. CASTRO A utilização de células-tronco embrionárias - não permitida pelo projeto do senador Sebastião Rocha - é a grande esperança de milhões de brasileiros que sofrem de doenças genéticas, afirma a professora Mayana Zatz A coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, Mayana Zatz, sexplica, nesta entrevista, o que é clonagem terapêutica e os benefícios que essa tecnologia - se permitida - poderá trazer para a humanidade. Jornal da USP - Professora, o que é exatamente clonagem? Mayana Zatz - A tecnologia surgiu com a clonagem da ovelha Dolly, em 1997. Esse fato mostrou que é possível, a partir de uma célula já diferenciada, fazer um organismo inteiro. Com isso, abriu-se a possibilidade de usar essa tecnologia para fazer seres humanos. É o que a gente chama de clonagem reprodutiva: eu pego uma célula sua - da pele, por exemplo - e tiro o núcleo dessa célula. Em seguida, pego um óvulo de uma mulher, tiro o núcleo desse óvulo e coloco no lugar desse núcleo do óvulo o núcleo que tirei da sua célula. Finalmente, ponho esse óvulo com o núcleo da sua célula no útero de uma pessoa. Se der certo, vou ter um clone igual a você. É uma loucura tentar isso. O risco de gerar embriões malformados, de nascer pessoas com doenças genéticas graves é enorme. JUSP - E o que chamam de clonagem terapêutica, o que é? Mayana - Na clonagem terapêutica, usa-se a mesma tecnologia utilizada na clonagem reprodutiva: pego o núcleo de uma célula sua e coloco num óvulo sem núcleo. Só que, ao invés de colocar esse óvulo num útero, eu vou fabricar tecidos com isso em laboratório. JUSP - Quais as vantagens dessa tecnologia? Mayana - Veja. Se eu pegar uma célula da sua pele e fizer uma cultura em laboratório, eu só vou conseguir fazer célula de pele. Se pegar célula de músculo, só vou obter músculos, e assim por diante. Ou seja, as células do nosso corpo já estão diferenciadas em determinados tecidos. E, uma vez diferenciadas, todas as células descendentes daquelas vão manter as mesmas características. Bom, vamos imaginar que você precise substituir um pedaço do seu fígado. A clonagem terapêutica me permitiria usar uma célula da sua pele para fabricar tecido de fígado e trocar a parte afetada do seu órgão. Enfim, o que nós queremos, com a clonagem terapêutica, é fazer tecidos, futuramente órgãos, mas nunca um ser humano. E a grande barreira é muito simples: o útero. Você só vai ter um ser humano se colocar o óvulo no útero de uma mulher. Se não colocar, nunca vai ter um ser humano. JUSP - Essa tecnologia evitaria qualquer tipo de rejeição. Mayana - Sim. É a grande vantagem da clonagem terapêutica. Se eu pegar uma célula da sua pele para produzir tecidos que vão regenerar o seu coração ou o seu fígado, não haverá rejeição nenhuma, porque estou usando a sua própria célula. JUSP - E quais as desvantagens dessa tecnologia? Mayana - Ela não serve para portadores de doenças genéticas. Isso porque o gene defeituoso está expresso em todas as células. Se eu pegar uma célula da pele de uma pessoa com uma doença genética para fazer tecidos, a mutação estará também nessa célula. Ela continuará com o mesmo problema. Como as doenças genéticas afetam 3% da nossa população, que é de 170 milhões, essa tecnologia não serve para mais de cinco milhões de brasileiros. JUSP - E de que modo essa grande parcela da população poderia se beneficiar com a clonagem terapêutica? Mayana - Essa tecnologia serviria para conseguir células-tronco, que podem ser muito úteis no combate a doenças genéticas. As células-tronco são as células que ainda não se diferenciaram, que ainda têm esse potencial de se diferenciar em outros tecidos. Você pode classificar as células-tronco em duas categorias: as células-tronco pluripotentes, que podem se diferenciar em vários tecidos mas não em todos, e as totipotentes, que se diferenciam em todos os tecidos. Lembre-se de que, quando começamos a nossa vida, todos fomos uma única célula, que se multiplicou em duas, que viraram quatro, que viraram oito e assim por diante. Até um determinado momento, essas nossas células todas são totipotentes, capazes de se diferenciar em qualquer tecido. Mas a partir de determinado momento elas começam a se diferenciar e, uma vez diferenciadas, mantêm as suas características. O que nós queremos é pegar essas células totipotentes para usá-las em pacientes portadores de doenças genéticas. JUSP - Onde se encontram as células-tronco? Mayana - Existem três fontes de células-tronco. Uma é o corpo humano. Elas estão na medula, no sangue, em diferentes tecidos. Porém, a quantidade de células-tronco produzida pelo nosso organismo é muito pequena e não sabemos ainda se esse tipo de célula é capaz de se diferenciar em todos os tecidos ou só em alguns tecidos. JUSP - Qual a segunda fonte de células-tronco? Mayana - É o cordão umbilical. Neste momento estamos trabalhando com células de cordão umbilical para verificar se elas têm capacidade de se transformar em músculo. Se elas tiverem essa capacidade, será maravilhoso. Não precisaremos mais nos preocupar com essa polêmica sobre o uso de células embrionárias para fazer clonagem terapêutica. A nossa preocupação será ter bancos de cordão umbilical e sensibilizar as autoridades para a importância de criar esses bancos. O cordão é o melhor material que existe para casos de doenças hematológicas, como leucemia. Sabemos que se houver 12 mil amostras num banco de cordão, a chance de achar um compatível é de praticamente 100%. Ou seja, amanhã uma criança qualquer lá no Nordeste tem leucemia, por exemplo. Em vez de a família correr desesperada em busca de um doador compatível, se existir esse banco de cordão ela vai achar com certeza. Só isso já justifica ter bancos de cordão umbilical. Agora, se realmente essas células tiverem capacidade de se transformar em outros tecidos, aí não há dúvida nenhuma de que esses bancos vão ser fundamentais para curar inúmeras doenças. JUSP - E a terceira fonte de células-tronco? Mayana - A terceira fonte é a que está causando mais polêmica: são os embriões. Sabemos com certeza que as células embrionárias são totipotentes, que são capazes de se transformar em qualquer tecido. E aí que está a grande polêmica: usar ou não usar essas células. JUSP - O que a senhora defende? Mayana - Que seja possível, que se permita o uso de células embrionárias com fins terapêuticos, para transformar em tecidos. Há pessoas que consideram que isso é o mesmo que destruir vidas. Mas veja o que acontece com esses embriões. Em primeiro lugar, 90% dos embriões gerados em clínicas de fertilização e colocados no útero não vão para frente. Dizer que pegar um embrião é matar uma vida significa um otimismo fantástico, porque 90% deles não vão criar vida nas melhores condições. Em segundo lugar, sabemos que os embriões sobressalentes vão para o lixo: o casal já decidiu não ter mais filhos e não há lugar para guardar tanto embrião. Então, o fim deles é o lixo. Ora, por que não usar esses embriões, que são jogados fora, para gerar tecidos e tentar salvar vidas de crianças que estão condenadas? Se fizermos isso, ao contrário de destruir, estaremos criando vidas. JUSP - Os críticos também consideram que a clonagem terapêutica vai abrir caminho para a clonagem reprodutiva. Mayana - Esse risco existe. A tecnologia é a mesma. Mas será que por causa do risco de que se façam alguns clones humanos nós vamos deixar de beneficiar milhares e milhares de pessoas? Compara-se muito a clonagem reprodutiva com a energia atômica, que pode ser usada para fins construtivos e também para fins destrutivos. Mas, ao contrário da energia atômica - tecnologia que pode produzir uma bomba capaz de destruir toda a humanidade -, a clonagem reprodutiva pode causar o quê? Uma meia dúzia de clones. Que mais pode acontecer? Nunca vai-se poder fazer isso em larga escala, nunca vai-se destruir a Terra com isso. Portanto, considero que deixar de usar essa tecnologia por causa do medo de gerar alguns clones humanos, primeiro, não faz sentido e, segundo, sabemos que isso vai acontecer independentemente da nossa vontade. Quem são controlados são os laboratórios dentro das universidades, que fazem projeto de pesquisa, pedem recursos, passam por comitês de ética e têm ética. Agora, as clínicas de fertilização não passam por comitê nenhum. Ninguém as está controlando. Não duvido de que estejam tentando fazer clones humanos. JUSP - Em que estágio estão as suas pesquisas sobre as células do cordão umbilical? Mayana - Estamos no começo. Verificamos in vitro se, em laboratório, elas têm a capacidade de se transformar em células musculares. É só um primeiro passo. Espero que nos próximos meses tenhamos alguns resultados. É uma pesquisa muito promissora. Estou bastante esperançosa. JUSP - Como seria a aplicação dessas células? Mayana - Primeiro é preciso separar as células-tronco e depois injetar no paciente, da mesma maneira que fazemos no caso de um transplante de medula. O nosso maior sonho é que, ao injetar essas células em pessoas portadoras de distrofias musculares - que são as doenças com que eu mais trabalho -, por exemplo, elas tenham a capacidade de regenerar o músculo que está se degenerando. Isso seria fantástico. Estamos batalhando para ver se isso acontece. JUSP - Acontecendo isso, a clonagem terapêutica se tornaria dispensável? Mayana - A clonagem terapêutica - tirar célula da sua pele para transformar em tecidos - teria ainda a supervantagem de evitar rejeição. Se isso funcionar, não precisarei ir a um banco, mas usarei a célula da própria pessoa. Aí é 100% de certeza de que não haverá rejeição. Será um uso limitado, mas talvez sirva para pessoas que romperam a medula em acidentes e ficaram paraplégicas. JUSP - É possível realmente nascer clones ou é algo ainda muito incipiente? Mayana - A tecnologia existe. Colocar o núcleo de uma célula dentro de um óvulo e pôr esse óvulo num útero não é difícil. O que não se consegue é controlar as conseqüências. Ninguém consegue saber, hoje, como vão se comportar os genes e os cromossomos. O risco de nascer bebês com problemas genéticos é muito alto. Existem mais de sete mil doenças genéticas conhecidas e na maioria dos casos as mutações que causam essas doenças só são descobertas depois do nascimento. Para os cientistas fazerem a Dolly, eles fizeram antes quase 300 tentativas que deram errado. E mesmo assim a Dolly sofre de envelhecimento precoce. JUSP - O Velho Testamento, que boa parte da humanidade considera palavra sagrada, afirma, literalmente, que os olhos do Senhor me viram "a coisa não-formada", ou, numa tradução mais livre, "a substância ainda informe". Essa "coisa não-formada", essa "substância ainda informe" não seriam esses embriões que a senhora quer utilizar? Mayana - Nos seminários sobre o tema de que participei em junho, no Senado, a Igreja Católica foi contra todo tipo de clonagem. Os umbandistas e os espíritas foram totalmente a favor, até da clonagem reprodutiva. Mas a posição que eu achei mais interessante foi a dos judeus ortodoxos, que são tão conservadores quanto o papa e também se baseiam no Velho Testamento. Eles se reuniram e decidiram que um embrião congelado não tem o mesmo status que o ser humano - talvez isso responda à sua pergunta - e que, se esse embrião puder ser usado para salvar vidas, isso é algo que deve ser aceito de braços abertos. Eles são contra a clonagem reprodutiva, mas são totalmente a favor da clonagem terapêutica. Veja que não estou falando dos judeus liberais, mas dos ortodoxos, que são extremamente conservadores. JUSP - Um embrião congelado teria um outro status, então. Mayana - Sim. Na minha opinião, a clonagem terapêutica deveria ser considerada apenas uma maneira mais sofisticada de fabricar tecidos - não uma tecnologia que vai servir para fazer clones humanos. Fazer tecidos em laboratório é uma rotina há muito tempo. No nosso laboratório fazemos culturas de pele, de músculos, e ninguém questiona. Só que não são usados para fins terapêuticos, mas somente para pesquisa. O que queremos é usar isso para uma função terapêutica. JUSP - O trabalho que a senhora realiza aqui na USP, desde os anos 70, em favor dos pacientes portadores de distrofias musculares não tira a sua objetividade e torna, portanto, o seu julgamento sobre a clonagem terapêutica subjetivo e utilitário? Mayana - Acho que todos somos subjetivos, de uma maneira ou de outra. Obviamente estou lutando para salvar vidas. Muito pelo contrário, esse contato direto que tenho com pessoas com doenças graves é que me faz batalhar e dizer: "Puxa, se temos um caminho, vamos lutar com todas as forças para seguir esse caminho". Nós não podemos fechar as portas que se abrem. JUSP - O que a senhora diria para os senadores e deputados que terão de votar sobre a clonagem? Mayana - Acho fundamental que eles, antes de tomar qualquer decisão, ouçam as pessoas que sofrem com esses problemas. Os milhares de afetados que estão condenados, os pais desses afetados, que sabem que a única esperança deles hoje é essa tecnologia. Quando você tem um filho com uma doença grave, a sua visão do mundo é totalmente diferente. Quando se tem o problema bem perto é que se sabe exatamente do que se está falando.