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Clima favorável

Publicado em 29 agosto 2008

Por Thiago Romero

Agência Fapesp

Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais é lançado. Estão previstos R$ 100 milhões em dez anos para pesquisas sobre modelamento, causas, impactos e adaptações

O Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) foi lançado nesta quinta-feira (28/8), em cerimônia na sede da Fundação.

A proposta do programa é estimular e coordenar estudos a respeito do clima para ampliar o conhecimento dos sinais, causas e impactos das mudanças climáticas sobre a vida no planeta. O programa é inédito em sua abrangência e no estudo do papel do Brasil nessas mudanças, já consideradas inevitáveis.

O programa terá duração de pelo menos dez anos e a cada ano novas chamadas de propostas devem ser publicadas. Os recursos destinados pela Fapesp somam R$ 100 milhões, que poderão ser complementados por outras agências de fomento a pesquisa.

A cerimônia de lançamento do PFPMCG contou com a presença do professor Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil de 1995 a 2002, de Francisco Graziano Neto, secretário de Estado do Meio Ambiente, de Carlos Henrique de Brito Cruz e Joaquim José de Camargo Engler, diretor científico e diretor administrativo da Fapesp, respectivamente, e de centenas de cientistas.

Cardoso, durante sua palestra “O Brasil e as Mudanças Climáticas Globais”, fez um apanhado de suas experiências sobre o assunto, incluindo reuniões como a de Estocolmo, na Suécia, em 1972, e a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992.

“Essas reuniões conseguiram chamar a atenção dos países para o tema do meio ambiente, mas não tiveram efeito no que diz respeito à geração de políticas públicas que levassem em consideração seus resultados globais. Elas deram início a um imenso trabalho mundial de construção de mecanismos para assegurar uma compatibilização entre o meio ambiente e o desenvolvimento econômico”, afirmou.

O sociólogo também mencionou o lançamento do PFPMCG. “Gostaria de manifestar meu agrado por ver a Fapesp, como sempre, na liderança no apoio a pesquisas científicas no Estado de São Paulo. Desejo que os pesquisadores paulistas e do Brasil se lancem com afinco para ajudar os governantes a tomar as melhores decisões”, afirmou.

“Com essa base científica que poderá ajudar no enriquecimento da consciência sobre o tema, o processo de compreensão dos efeitos do aquecimento global e a redução dos riscos que envolvem a emissão de gases do efeito estufa certamente terão um avanço grande”, disse Cardoso.

Logo em seguida Brito Cruz fez um panorama de como a ciência mundial historicamente tratou o tema das mudanças climáticas globais, começando em 1827 com descobertas feitas pelo matemático Jean Baptiste Fourier (1768-1830), e prosseguindo com contribuições de John Tyndall (1820-1893) Svante Arrhenius (1859-1927), Guy Callendar (1898-1964) e Charles Keeling (1929-2005).

“Muitas pessoas olham para os resultados do IPCC [Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas] e têm a impressão de que o assunto das mudanças climáticas está em discussão apenas nas últimas décadas, o que não é verdade. A comunidade científica vem construindo esse conhecimento há pelo menos 200 anos, motivada pela curiosidade e para tornar a humanidade mais sábia. Foi uma evolução social, não teve um único pesquisador que descobriu o aquecimento global e também não será só um que apontará as soluções”, destacou.

Segundo Brito Cruz, é justamente nesse contexto que se insere o Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais. “Queremos juntar e estimular a comunidade científica para que ela trabalhe da maneira mais articulada possível, de tal modo que a troca de informações permita avançar em questões como as conseqüências das mudanças climáticas globais no funcionamento dos ecossistemas”, afirmou.

“Não estamos lançando um programa para resolver o problema das mudanças climáticas e sim para descobrir conhecimentos que ajudarão a humanidade a tratá-lo melhor por diferentes meios. A expectativa do programa é mobilizar pesquisadores de várias áreas, desde as ciências exatas e da natureza até as ciências humanas, para que essa fertilização cruzada de idéias gere novas descobertas”, disse Brito Cruz.

Chamada de propostas

No encontro a Fapesp tornou pública duas chamadas de propostas destinadas a pesquisadores de instituições de ensino superior e de pesquisa no Estado de São Paulo: Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais e Desenvolvimento de Modelo do Sistema Climático Global, que terão recursos totais de R$ 16 milhões, divididos em partes iguais pela Fapesp e pelo CNPq.

O objetivo da primeira chamada, que terá R$ 13,4 milhões, é identificar, selecionar e apoiar pesquisas fundamentais e aplicadas, de classe mundial, relacionadas a temas como “Conseqüências das mudanças climáticas globais no funcionamento dos ecossistemas, com ênfase em biodiversidade e nos ciclos de água, carbono e nitrogênio”, “Balanço de radiação na atmosfera, aerossóis, gases-traço e mudanças dos usos da terra” e “Mudanças climáticas globais e agricultura e pecuária”, entre outros.

“Essa primeira chamada é bem abrangente porque a idéia é compor uma base mais geral de projetos, desde os aspectos físicos e químicos até as dimensões humanas, efeitos antropogênicos e questões institucionais relacionados às mudanças climáticas. Esperamos que os pesquisadores consigam gerar boa ciência que leve o Brasil a ter uma participação mais efetiva no debate científico mundial das mudanças climáticas”, explicou Brito Cruz.

Com a compra do supercomputador que será instalado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o objetivo do segundo edital, que oferecerá R$ 2,6 milhões, é reunir um grupo de cientistas para o desenvolvimento de um modelo climático global.

“A idéia é criar um modelo próprio, um programa de computador com características e interesses regionais, para não ficarmos dependentes dos modelos desenvolvidos em outros países, que também são muito úteis. Na segunda chamada, diferentemente da primeira, iremos selecionar um único projeto, cujo objetivo seja contribuir para o desenvolvimento de um modelo numérico brasileiro do sistema climático global para ser utilizado em estudos de mudanças climáticas globais e regionais”, disse.

“Com o supercomputador e com as facilidades adicionais do Inpe em termos de modelagem de uso da terra e de sistemas computacionais, o instituto se coloca à disposição da comunidade científica para um esforço integrado e multidisciplinar em todas as áreas do conhecimento abrangidas pelo programa que acaba de ser lançado”, comentou Gilberto Câmara, presidente do Inpe, durante o lançamento do programa.

Mais informações: http://www.fapesp.br/mcg

Desafios climáticos

Os cientistas que participaram da cerimônia de lançamento do Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), na quinta-feira (28/8), são unânimes: a iniciativa ajudará a preencher uma série de lacunas nos estudos sobre o clima.

De acordo com Carlos Nobre, pesquisador do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a ciência feita em São Paulo tem contribuído para o conhecimento mundial sobre mudanças climáticas, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.

“O Brasil contribui com cerca de 1,5% dos artigos científicos sobre mudanças climáticas e São Paulo produz um terço disso. Trata-se de uma contribuição respeitável, mas temos diversos desafios pela frente e o programa será fundamental para enfrentá-los”, disse à Agência Fapesp.

Segundo Nobre, o investimento em novos estudos é urgente, já que as taxas de emissões de gases de efeito estufa estão muito acima do que se previa em 2000, superando os cenários mais pessimistas com crescimento de até 6% ao ano.

Para o pesquisador, há diversas questões relacionadas ao clima que ainda carecem de explicação, como as alterações nas precipitações. “Ainda não temos dados suficientes sobre a relação da mudança climática com o aumento das chuvas e dos extremos de precipitação, acima de 20 milímetros”, afirmou.

“Também há necessidade de mais estudos para entender o aumento das descargas elétricas que, em São Paulo, por exemplo, passaram de uma média de 6 mil, no fim dos anos 1950, para 10 mil hoje, o que representa um aumento de 30% a cada grau a mais na temperatura”, disse Nobre.

Em São Paulo, a queima de palha de cana-de-açúcar altera o ciclo de nitrogênio, provocando chuva ácida, mas o processo ainda não é totalmente conhecido. Enquanto isso, na Amazônia, o que preocupa são as interações das queimadas com o ciclo hidrológico. Segundo Nobre, problemas como esses serão mais bem enfrentados com o PFPMCG, que colocará em contato grupos que até agora trabalham de forma isolada.

“Há muitos desafios, como entender as causas das mudanças climáticas e conhecer melhor os ciclos biogeoquímicos e biogeofísicos. Precisamos de modelos climáticos regionais, com desenvolvimento de softwares brasileiros. Vamos ter que estudar também como mitigar as emissões, quais são as principais vulnerabilidades às mudanças climáticas e como aumentar a capacidade adaptativa”, afirmou.

Perda de espécies

Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), falou sobre o impacto das mudanças climáticas nos ecossistemas e nos ciclos biogeoquímicos. Para ele, embora o uso de algoritmos genéticos tenha ajudado muito a modelar a distribuição e redução da taxa de ocupação dos biomas por espécies de interesse, o conhecimento ainda é escasso em várias áreas.

“Temos pouquísssimo monitoramente do plâncton, por exemplo, que afeta toda a cadeia alimentar marinha. Não temos inventários brasileiros que permitam a criação de sistemas de alerta para termos capacidade de reagir às alterações”, disse.

Em relação às chuvas, Joly lembrou que, além das alterações na intensidade, as mudanças na distribuição da precipitação também precisam ser estudadas, já que teriam imenso impacto nas florestas tropicais.

Outra preocupação são as espécies invasoras. “Será preciso saber como modelar invasões de novas espécies. Sabemos que, das 100 espécies invasoras consideradas piores, a América Latina já tem a ocorrência de 55”, afirmou.

Joly citou como exemplo de iniciativa importante para aumentar o conhecimento sobre clima os projetos botânicos amadores que têm sido realizados no estado, nos quais a população dos locais estudados contribui reportando a fenologia das plantas, isto é, quando elas florescem e frutificam, a fim de monitorar as mudanças. “Esse tipo de projeto tem ainda a vantagem da interação com a população, o que tem um papel pedagógico”, disse.

No plano dos ecossistemas, é preciso quantidade maior de informações sobre estrutura vegetal e estoque de carbono, por exemplo. “A perda de espécies causa um efeito cascata e os ecossistemas vão perdendo capacidade de reagir. O PFPMCG ajudará a interferir nesse processo, fornecendo dados ambientais, biológicos e sociais que, se forem integrados, serão importantes na elaboração e montagem de hipóteses”, afirmou.

Muito a descobrir

Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), falou sobre mudanças climáticas, aerossóis e usos da terra. Segundo ele, a ação humana tem alterado o balanço da radiação terrestre, ao mudar a concentração de gases de efeito estufa e de níveis de aerossóis biogênicos. Os processos que regulam esse balanço de radiação, no entanto, ainda precisam ser mais estudados.

“Quando olhamos os resultados de 20 modelos diferentes usados para traçar cenários climáticos – todos de alta robustez, publicados em revistas indexadas – vemos que há variabilidade em um fator de 30 vezes. Isso evidencia que nosso grau de desconhecimento sobre componentes críticos para as mudanças climáticas é muito grande”, afirmou.

Segundo Artaxo, os processos radiativos com os quais as nuvens influenciam o clima global são também muito pouco conhecidos. “Temos aí um campo de pesquisa promissor. O desmatamento, por exemplo, pode aumentar ou diminuir a precipitação, dependendo da escala. É preciso entender esses processos”, disse.

O pesquisador explicou que o efeito estufa e o efeito de resfriamento dos aerossóis e das nuvens, combinados, formam a forçante radiativa final. A componente de aerossóis, segundo ele, é crítica para determinar essa resultante. “A incerteza relativa aos gases de efeito estufa é pequena, mas é muito grande no caso do efeito dos aerossóis, por causa do nosso desconhecimento científico sobre essa questão”, disse.

Os aerossóis biogênicos são emitidos pelas plantas para atmosfera, assim como o vapor d’água que faz as nuvens. A vegetação biologicamente tem controle intenso sobre o clima da Amazônia, além de outras forçantes externas.

Catástrofes otimistas

Para Eduardo Delgado Assad, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que falou sobre o tema “Mudanças climáticas e agricultura”, mais estudos sobre o clima global ajudarão gestores públicos a decidir em que alternativas de adaptação investir.

Assad citou, como exemplo de possibilidades de adaptação, um estudo feito pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). “O estudo mostra que, com o aumento de dois graus centígrados, o plantio de maçãs seria inviabilizado em Santa Catarina. Mas, pela mesma razão, o estado poderia plantar banana. Mais estudos vão apontar esse tipo de alternativa econômica”, afirmou.

De acordo com Assad, o cultivo de algodão poderá se tornar impossível em 2050 no Nordeste, isso em um cenário otimista de aquecimento global. Cerca de 600 municípios brasileiros, sendo a maior parte na região, seriam excluídos da zona de plantio de algodão.

A cultura do café também sofreria: com três dias sucessivos de temperaturas acima dos 34ºC, a flor do café é abortada, destruindo a capacidade produtiva da planta. No mesmo cenário otimista, a planta seria confinada a algumas localidades em 2020.

“Já a cultura da cana-de-açúcar seria beneficiada. Ela sofreria um deslocamento para o Sul e poderia ser plantada em 2,6 mil municípios, contra os 1,6 mil atuais. São Paulo seria o estado mais beneficiado”, disse.

Segundo Assad, os R$ 7,4 bilhões perdidos nas culturas alimentares, por causa do aquecimento, seriam amplamente compensados pelos ganhos com a cana-de-açúcar. “Mas o país ficaria seriamente vulnerável em termos de segurança alimentar”, ponderou. Para o pesquisador, mais estudos poderiam ajudar a determinar que tipo de investimento teria que ser feito para uma adaptação.

Mudanças sociais

“Dimensões humanas das mudanças climáticas” foi o tema de Daniel Joseph Hogan, do Núcleo de Estudos de População e de Estudos e Pesquisas Ambientais da Unicamp. Segundo ele, as ciências humanas demoraram para se dedicar a estudar problemas ambientais, mas começaram a fazer isso quando houve pressão de movimentos sociais diretamente envolvidos com essas questões.

“Muitos cientistas sociais passaram a estudar questões relacionadas ao meio ambiente, mas os paradigmas usados para esses estudos não contemplaram as mudanças climáticas globais”, disse.

Para o pesquisador, o quarto relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), ao colocar a ação humana como causa central das mudanças climáticas, mudou a perspectiva com que o clima era encarado pelos cientistas sociais.

“Até a linguagem sofreu modificações em relação aos relatórios anteriores. Se antes se falava em mitigação e modelos, começou-se a falar também em vulnerabilidade e adaptação”, disse.

Essa nova perspectiva, segundo Hogan, deu importância à discussão sobre como o comportamento humano afeta o clima e vice-versa. “É um campo que gera necessidade de profundos estudos para os cientistas sociais, que têm um acervo de conhecimento sobre essas questões”, ressaltou.

Segundo Hogan, o Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais criará um incentivo científico para a mobilização dos cientistas sociais.

“Quando as ciências humanas contemplam a perspectiva de longo prazo, geralmente focam o passado. As análises de longo prazo focadas no futuro são menosprezadas, vistas como exercício de futurologia. Mas, tendo à disposição cenários cientificamente embasados, será possível trabalhar nisso. Esses cenários, no entanto, precisam ser regionalizados, para que os cientistas sociais tenham uma base concreta”, afirmou.

(Agência Fapesp, 29/8)