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Jornal da USP

Clima de "encontro de amigos" marca primeira metade da homenagem a Goldemberg e Candido

Publicado em 02 outubro 2008

Por Tatiane Ribeiro / USP Online

“Grandes soldados do intelecto brasileiro”. Essa foi a descrição que Marco Antonio Raupp, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), fez dos homenageados no Simpósio Ciência e Literatura, duas visões do nosso tempo, realizado na manhã da quinta-feira (2), no prédio da Reitoria da USP. Não é para menos, já que se falava de grandes nomes do mundo intelectual contemporâneo. Antonio Candido, conhecido tanto pela atuação no estudo da literatura brasileira quanto pela sua militância política, é professor-emérito da USP e da Unesp. Já José Goldemberg, que atuou como reitor da USP entre 1986 e 1990, até hoje dá assistência para as ciências, sendo um dos maiores estudiosos brasileiros do etanol.

O clima do evento era de nostalgia. Importantes intelectuais do país pareciam reunidos como em uma festa de ex-colegas de turma. Enquanto se cumprimentavam e perguntavam pela família e amigos, lembravam de histórias em comum. O que acontecia naquele momento era a história dos 75 anos da USP sendo informalmente lembrada por aqueles que a fizeram. O café antes da abertura oficial do evento parecia uma grande aula de história, contada do ponto de vista dos bastidores.

Os que no auditório estavam já pareciam saber exatamente tudo o que seria dito. Cada um era uma pequena parte da história que seria traçada ali. Mesmo assim, todos ficaram atentos quando Walnice Nogueira Galvão, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, contou a sua versão da trajetória de Candido, que foi seu professor. Como Candido não gosta de elogios, Walnice citou o poema "Esboço de Figura", feito por Carlos Drummond de Andrade em homenagem ao professor.

Logo em seguida, foi a vez do coordenador da Coordenadoria de Comunicação Social (CCS) da USP, Wanderley Messias da Costa, falar sobre José Goldemberg. “Todo homem público é um político. Então, todos nós somos seres híbridos. Mas ele [Goldemberg] é um raro exemplar dessa hibridez, que se completa, que é a face técnica, científica e intelectual e a face política. A minha esperança é que nós venhamos a ter no país mais pessoas com esse perfil, que tragam o conhecimento aliado a uma enorme capacidade como gestor e, acima de tudo, uma ética cidadã”.

O etanol como solução

A mesa de debates da manhã, que se sucedeu às apresentações iniciais, abordou a questão do aquecimento global. Carlos Clemente Cerri, professor do Centro de Energia Nuclear em Agricultura (Cena) da USP, Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Luiz Gonzaga Bertelli, presidente executivo do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) e Ricardo Toledo Silva, secretário adjunto do governo de São Paulo, compuseram a mesa, que foi presidida pelo presidente do Conselho de Estudos Avançados (Consea) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Ruy Martins Altenfender Silva.

Fazendo uma explicação acadêmica, Cerri mostrou o funcionamento do efeito estufa natural e do antrópico, ou seja, aquele causado pelo homem. De forma didática, foi ele quem introduziu o assunto sobre o etanol, apontado como ferramenta de combate ao aquecimento global. De acordo com ele, a cana cultivada para a produção de etanol absorve todo o gás carbônico emitido pela queima do produto. Isso torna o processo auto-sustentável.

Para ilustrar a situação científica atual, Brito Cruz fez uma retrospectiva de 180 anos, mostrando os maiores estudiosos do efeito do gás carbônico na Terra. De forma descontraída, ele explicou a evolução das pesquisas, que inicialmente viam o efeito de aquecimento global como algo positivo para os países nórdicos, que seriam, de acordo com eles, mais habitável. Brito Cruz citou também as pesquisas de Goldemberg a esse respeito.

Trazendo a discussão para o mundo não-científico, Bertelli falou sobre o aumento dos licenciamentos de veículos na cidade de São Paulo. “Nós temos transporte particular de primeiro mundo, e público de quinto ou sexto”, afirmou. Bertelli mostrou especial preocupação com o aumento das motos, que antes não eram citadas quando se falava em poluição. Além disso, falou sobre a interrupção da diminuição do uso de combustíveis de baixa emissão de gás carbônico em indústrias causada pela falta do gás natural boliviano.

Bertelli mostrou sua preocupação com o aumento de doenças que, direta ou indiretamente, são causadas pela poluição. “Hoje, os brasileiros vivem, em média, 10 anos menos que os europeus, por causa do ar poluído”, concluiu. “São Paulo é a cidade mais poluída do Brasil”.

Ricardo Toledo Silva fechou a mesa de discussões falando sobre os desdobramentos da ação pública refletindo as pegadas de Goldemberg e Candido, a quem chamou de pioneiros. Para ele, não seria interessante falar de todas as ações do governo, mas destacar que as ações públicas seguem o modelo de grandes mestres, que tem como missão mostrar o caminho certo a ser trilhado pelo mundo.