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Jornal do Brasil online

Claudio Castro Filho analisa criticamente a escrita dramática de Lorca

Publicado em 28 agosto 2009

Por Wilson Alves-Bezerra

RIO - A reflexão de um autor brasileiro sobre o teatro de Federico García Lorca, num primeiro momento, não traz a dimensão da dívida crítica nacional ao fundamental dramaturgo espanhol. Pois no caso de Lorca, autor consagrado, sempre comentado de alguma forma, não parece haver resgate a ser feito. Entretanto, um olhar mais atento revela outra coisa. O objeto privilegiado da crítica - brasileira e estrangeira - tem sido primordialmente a poesia de Lorca, e não seu teatro.

No Brasil, a situação se agrava, pois aqui os livros críticos sobre García Lorca tendem a zero. Para que o leitor tenha uma ideia, o único trabalho brasileiro sobre o Lorca que consta na bibliografia deste O trágico no teatro de Federico García Lorca, de Claudio Castro Filho, é uma tese de doutorado dos anos 70 sobre Bodas de Sangre.

O feliz paradoxo é que a obra dramática de Lorca não sai de cena nos teatros brasileiros. Suas peças fazem parte do repertório da predileção das montagens nacionais, e se o leitor puxar pela memória certamente se lembrará de ter assistido a algum espetáculo do espanhol. O sucesso de público de Lorca no teatro, em contraponto à aparente inapetência dos homens e mulheres das letras em pensar publicamente sobre sua obra, segue nos interrogando.

Assim, se nem os trabalhos críticos nacionais geraram frutos que chegassem aos olhares do público, nem a notadamente popular poesia de Lorca fomentou estudos literários de fôlego, não é de se surpreender que o trabalho que agora o leitor terá em mãos tenha sido gestado não no universo mais imediato das letras, e sim no meio teatral. De forma que a obra de Lorca encontrou justamente no diretor teatral e professor de estética Claudio Castro Filho a atenção merecida.

Tal origem não apenas justifica, mas funda o estudo em questão. Pois ter tido contato com o teatro de García Lorca não somente da plateia ou pela página impressa é o elemento que fecunda a leitura de Claudio Castro Filho. A abordagem do estudo considera aspectos dramatúrgicos e estéticos, e não somente literários, de Lorca. É o aspecto da experiência e do conhecimento do métier que cativa o leitor. Detentor de um vasto repertório de peças a sua disposição, a abordagem de Castro, primordialmente comparatista, é generosa com o leitor, ao lhe oferecer um arquivo de referências a partir do qual possibilita pensar o lugar de García Lorca no contexto ocidental, de Sófocles a Artaud.

Entretanto, é na filosofia que o ensaio finca sua bases. Propõe-se a ler o teatro de Lorca a partir da noção de tragédia, que remonta à Poética de Aristóteles, e de seus derivados trágico e tragicidade, pensados sobretudo a partir de Nietzsche.

Há três discussões principais que põem o livro em movimento. A primeira é a reflexão sobre a tragédia ática, que teve lugar durante algumas décadas do século V a.C., e o modo como Aristóteles a entenderá, em sua Poética, um século depois.

A outra questão - mais instigante e melhor discutida - é a possibilidade de se pensar a tragédia na contemporaneidade, bem como o seu lugar, entendendo-se aí que mesmo findas as condições sócio-históricas que marcaram a existência da tragédia ática, há algo que segue operando nos dias atuais. Claudio Castro Filho retoma aqui a discussão presente entre George Steiner e Raymond Williams , lançando mão de exemplos como o atentado de 11 de Setembro e uma montagem de Antunes Filho de Medeia no começo da década, para refletir sobre o termo "tragicidade". Trata-se de pensar na possibilidade do efeito trágico no contexto contemporâneo, na esfera da coletividade e da individualidade; na experiência estética e fora dela. Espinhosa questão para os dias que correm, quando ao lado de montagens anódinas de tragédias, Lacan relê a Antígona de Sófocles para pensar na Ética da psicanálise.

A terceira discussão, que tem lugar no capítulo final do livro, é a retomada deste conjunto de questões no teatro de García Lorca. A inacabada Trilogía dramática de la tierra española é analisada a partir da noção de "tragicidade", urdida nos capítulos anteriores. E o interessante é que Castro coloca ao lado das consagradas Yerma e Bodas de sangre, a única página conhecida de La destrucción de Sodoma (peça inacabada devido à morte prematura do dramaturgo) para levar a cabo seu projeto comparatista. Serão privilegiados o papel do coro nas duas peças de García Lorca e no fragmento, em contraponto à tragédia clássica; ato seguido, o lugar da religiosidade cristã em Lorca, em oposição à cosmogonia grega, analisando as conseqüências da destituição do oráculo nas sociedades católicas; finalmente, o papel da heroína trágica de Lorca, plena em sua corporeidade.

O leitor se ressente um pouco da forma como está armado o livro, o primeiro e o último capítulos dedicados a García Lorca e os dois capítulos intermediários à discussão da tragédia e da tragicidade. Embora ambas discussões sejam fecundas, tem-se a impressão do ensaio aberto mais do que da obra fechada, o que também não deixa de ser instigante, pois convida o leitor a participar da construção.

A grande contribuição do trabalho de Castro Filho é projetar o teatro de García Lorca na tradição dramatúrgica ocidental, primordialmente na da tragédia clássica; daí a escolha feliz do termo "tragicidade", pois o autor não perde de vista a referência histórica da tragédia grega. Mas o que mais cabe celebrar é a aposta do autor em trilhar uma senda não óbvia, e aceitar a instabilidade inerente aos altos voos. Limitar García Lorca ao contexto espanhol ou ao teatro de seus contemporâneos certamente teria sido trabalho mais cômodo. Mas aceitar o preço das grandes apostas é algo a celebrar.

 

Wilson Alves-Bezerra é professor da Universidade Federal de São Carlos e autor de Reverberações da Fronteira em Horácio Quiroga (Humanitas/ FAPESP)