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Agência C&T (MCTI)

Claudia Andujar: poética do vivido

Publicado em 08 dezembro 2007

Por Caroline Vieira

Salvador recebeu no mês de outubro um dos mais importantes nomes da fotografia contemporânea.


Quem foi ao Museu de Arte Moderna da Bahia pôde conferir a exposição Uma Autobiografia Visual , da fotógrafa suíça radicada no Brasil Claudia Andujar, 75 anos, durante o 16º Festival Internacional de Arte Eletrônica Sesc_VídeoBrasil na Bahia, sob curadoria de Solange Farkas. A exposição aponta as escolhas feitas na vida e que se mostram como uma paisagem que "reflete as muitas viagens de autoconhecimento através do encontro com o outro".

Desses encontros, o mais marcante é o tempo vivido junto à tribo dos ianomâmis. São deles seus principais e mais belos registros. O belo, contudo, não fica restrito ao que dele extraímos plasticamente, mas, sobretudo, à sua entrega na luta pelas vidas afetadas pela construção da rodovia Perimetral Norte em Roraima, em 1974, responsável por inúmeras doenças e mortes para os ianomâmis. O rastro deixado por suas imagens revela o mapa de uma vida marcada pela memória de perdas e reencontros.

Filha de Germaine Guye, uma protestante de origem suíço-francesa, e do húngaro Siegfried Haas, Claudia veio para o Brasil em 1955, encontrar a mãe, emigrante da Segunda Guerra, depois de perder a família paterna nos campos de concentração de Dachau. Nascida na Suíça, ainda menina foi morar na Hungria, país que, na época, vivia os reflexos do terrorismo imposto pelo nazismo.

De origem judia, Cláudia guardou na memória os registros daqueles tempos, quando viu sua família ser exterminada pela guerra. Sofridas as perdas, deixou o país, indo para os Estados Unidos.

Nos EUA, conheceu o seu primeiro marido, Julio Andujar, de quem se apoderou para sempre do sobrenome.

"Um dos motivos era o complexo de ser judia, ou de ser descoberta como judia. Alimentei esse medo atávico por muito tempo e evitava falar sobre minha ascendência", explicou em entrevista para Augusto Massi, Eduardo Brandão e Álvaro Machado, no livro A Vulnerabilidade do Ser.Ainda nos EUA, conheceu o segundo marido, o também fotógrafo radicado no Brasil George Love (1937-1995), com quem trabalhou numa reportagem sobre a Amazônia, em 1971, nos tempos áureos da revista Realidade.

A identificação com o Brasil foi imediata. Aqui, ela afirma ter encontrado o que tanto procurava — a essência da vida, da existência humana. Suas primeiras imagens imprimiam não o olhar do simples viajante em busca de terras exóticas, mas a busca pelo desconhecido que habitava na sua persona. Em 1958, viajou para a Ilha do Bananal e realizou o primeiro contato com os índios carajás, por sugestão de Darcy Ribeiro. Como o interesse pela fotografia ainda era pequeno no Brasil desse período, a primeira exposição de Claudia aconteceu no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, sob a curadoria de Edward Ateichen e publicada em 12 páginas na revista Life.

As primeiras viagens e o contato com uma etnia indígena funcionaram, para a autora, como um meio de comunicação, ao mesmo tempo em que apontava o seu interesse pela diversidade. "Em vez de possuir caráter documental ou fotojornalístico", disse em passagem do livro, "as imagens registravam meu processo pessoal no conhecimento de outros povos: o aspecto humano, e também uma busca de mim mesma".

Em 1976, juntamente com Pietro Maria Bardi, Claudia realiza a curadoria da mostra Grande São Paulo, que lança nomes importantes no mercado fotográfico, entre eles, Miguel RioBranco, Pedro Martinelli, Cristiano Mascaro e Arnaldo Pappalardo.

Vulnerabilidade — As imagens em grande formato que ocuparam o salão nobre do MAM compõem o acervo de vida da fotógrafa. São fruto de uma revisão no seu arquivo de imagens, mexido e remexido para a exposição A Vulnerabilidade do Ser sob curadoria de Diógenes Moura para a Pinacoteca do Estado de São Paulo e que deu origem ao livro homônimo publicado pela CosacNaify, também em 2005. Nesta bela edição, Claudia divide seu percurso, como fotógrafa, em três séries intituladas: Territórios Interiores, Vulnerabilidade do Ser e Sonhos.

O livro abre com a imagem de um parto, em 1966, em Bento Gonçalves (RS). A vida é iluminada pela luz da vela. Por entre o facho luminoso, Claudia registrou o instante do nascimento. A vulnerabilidade da vida é desenhada por sua lente nas páginas seguintes, e pode ser vista através dos olhares das índias ou de um Brasil que aos poucos se desnuda.

A história de Claudia se mistura à dos ianomâmis.

Em 1971, durante a reportagem especial sobre a Amazônia, deu-se o seu primeiro encontro com a tribo.

Embora já tivesse tido contato com outras etnias indígenas, como os bororos e os xikrins, o encontro com os ianomâmis revelou-se mais impactante.

Depois do primeiro contato, ela voltou várias vezes à aldeia. Entre 1972 a 1973, fez um ensaio com financiamento da Fundação Guggenheim, voltando posteriormente, em 1974. A última estada em território ianomâmi aconteceu entre 1976 e 1977 e teve o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo — Fapesp. Em1977, Claudia foi expulsa do território pela Funai, que a enquadrou na Lei de Segurança Nacional. A proibição durou até 1978, interrompendo sua pesquisa.

Mais do que desempenhar o papel de fotógrafa, Claudia foi antes de tudo uma etnógrafa. Militante da causa ianomâmi, muitas vezes, deixou a fotografia de lado para lutar pela demarcação do território e a preservação da cultura desse povo. Fundadora da Comissão Pró-Yanomami, batalhou pela criação de um parque ianomâmi nos Estados de Roraima e Amazonas.

Suas imagens foram definitivas na corrida pela demarcação das suas terras. "Senti que, para além de expressão pessoal e íntima, eu deveria transformar a fotografia em uma forma política. Ou seja, passei a não me importar que me identificassem, de maneira redutora, como a fotógrafa dos ianomâmis", desabafou no livro A Vulnerabilidade do Ser.

Entre 1989 a 2005, participou de várias exposições, entre elas a do Memorial da América Latina, em São Paulo, da II Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba e do Photo España, Festival Internacional de Fotogra fia . Em função de uma vida dedicada aos índios, a fotógrafa recebeu dois grandes prêmios: o Prize for Cultural Freedom, da Fundação Norte Americana Lannan (2000), e o Bolsa Vitae (2004).

Súditos — Quem não conhecia pessoalmente Claudia Andujar, pôde desfrutar do prazer de passar um fim de tarde com ela, no MAM, no dia 10 de outubro.

A iniciativa fez parte do Festival Internacional de Arte Eletrônica SescVídeoBrasil na Bahia. Compondo a mesa, estavam ainda o galerista Eduardo Brandão, a pesquisadora Alejandra Muniz e o artista plástico baiano Caetano Dias.

"O índio é visto como o outro", cutucou a pesquisadora, ao falar sobre o trabalho de Claudia Andujar.

Brandão completou, dizendo que a fotografia trouxe como herança do século XIX o conceito do outro como forma de expressão. Na contemporaneidade, este outro, acrescenta, não é mais visto pelo exotismo, mas pela sua condição de miséria. "A fotografia não é mais o meio de conhecer o outro, mas de viver da carência do outro, o trabalho da Claudia é complexo porque vai além da fotografia, é uma questão política, a luta pela sobrevivência desse outro." Claudia permaneceu sentada, calada diante da discussão. Por algum tempo pareceu desconhecer o que se discutia; num outro momento interrompeu, com a voz grave e um português ainda precário, para dizer: "O mais perigoso é continuarmos a pensar que existem outros, pois os outros são aqueles que a gente não gosta e por isso discrimina. Um dos meios para acabar com isso é a arte, ela ultrapassa as barreiras que construímos na nossa própria mente", afirmou.

Caminhando pelo salão do MAM, o que se viu tornou possível compreender o que ela disse. Na primeira imagem, o registro de um enorme jacaré em território ianomâmi, de 1974. Na outra extremidade do salão, o recorte de um corpo ianomâmi morto marca as fotografias realizadas durante a missão Catriman, em Roraima, também de 1974. A luz incide no corpo a partir das frestas das tabas. O plano fechado no abdômen esconde o que a imagem, no livro, mostra em sua totalidade, a morte.

É desnecessário revelar a técnica empregada pela fotógrafa ou falar sobre a beleza da sua composição, a excelência da iluminação utilizada e tão referenciada em seu trabalho. O que interessa está em primeiro plano: a emoção, a história de vida que ganha forma através da imagem do outro. De igual impacto são as imagens dos retirantes nordestinos no Estado de São Paulo, que se alternavam com outras, como as da construção de Brasília, a fotografia do Fusca preto, o mesmo que a levou à aldeia ianomâmi em 1976, e um auto-retrato, todas em preto e branco. No andar de cima, a junção da fotografia com as imagens produzidas por Leandro Lima e Gisele Motta mostravam uma taba ianomâmi em chamas. A sensação é que o fogo se espalha pela taba em tempo real. A tela comprova os novos tempos da arte.

Caroline Vieira | é jornalista e mestre em Cultura e Sociedade pela Faculdade de Comunicação da Ufba

"A identificação com o Brasil foi imediata. Aqui, ela afirma ter encontrado o que tanto procurava — a essência da vida, da existência