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O Povo

Classificação das plantas em discussão

Publicado em 25 fevereiro 2006

De acordo com o pesquisador da Unicamp, George Shepherd, o Brasil deve ter cerca de 50 mil espécies de plantas, mas há estudiosos que falam em 35 mil ou até 75 mil espécies. Para ele, isso é chocante

Chocante. O termo é usado por George Shepherd, do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para fazer referência ao fato de que o Brasil não conhece o número de espécies vegetais que possui. "Qualquer número usado é praticamente uma questão de chute", explica o pesquisador. Apesar de Shepherd estimar que devam existir no País entre 45 mil e 50 mil espécies de plantas, alguns estudos falam em 35 mil e outros em até 75 mil. Ou seja, as variações são consideráveis.
"Temos ainda uma profunda ignorância sobre a nossa flora, apesar de a situação ter melhorado nos últimos anos", afirma o botânico, para quem a questão tem mais a ver com a quantidade do que com a qualidade dos taxonomistas. A importância de classificar as plantas, e não somente elas, mas todos os seres vivos do planeta, estará em debate em Curitiba, em março, durante a 8ª Reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 8).
Em estudo preparado em 2003 para o Ministério do Meio Ambiente, sobre a biodiversidade brasileira em relação às plantas terrestres, o pesquisador da Unicamp procurou mapear o conhecimento atual - e o desejado - da flora nacional. Os números foram apresentados para os quatro grandes grupos vegetais: briófitas, pteridófitas, gimnospermas e angiospermas.
No caso dos grupos dos pinheiros (gimnospermas) a situação, segundo Sheperd, está sob controle, pois existem apenas entre 14 e 16 espécies dessa categoria taxonômica no Brasil, todas já conhecidas. "Nos três grupos restantes, o cenário é outro: há poucos pesquisadores para muito desconhecimento", diz. No caso das plantas com flores (angiospermas), o Brasil tem quase 50 mil espécies, o que representa de 16% a 20% do total mundial. "E temos apenas cerca de 200 sistematas (pesquisadores que estudam os grupos, no caso, vegetais) voltados para esse grupo". Apesar do pequeno número, é a categoria taxonômica mais estudada no País.
Entre as briófitas e as pteridófitas, a situação é ainda pior. No primeiro caso, as espécies delicadas e pequenas desse grupo somam menos de 3 mil. As pteridófitas, que preferem ambientes úmidos como a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, estão em torno de 1,4 mil espécies.
Segundo Shepherd, o número de pesquisadores exclusivamente dedicados a essas pequenas plantas não ultrapassa os dez. "Nos últimos anos foram publicados, pelo Jardim Botânico de Nova York, dois importantes livros sobre as briófitas brasileiras", lembra o botânico da Unicamp. No Brasil, não foram produzidos trabalhos com a mesma importância no período.
Agência FAPESP