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Cirrose: transfusões de plasma não previnem sangramentos, diz estudo da USP

Publicado em 20 fevereiro 2020

Por Júlio Bernardes | Jornal da USP

Quando uma pessoa tem cirrose no fígado, uma das complicações mais comuns são os sangramentos, que costumam ser tratados ou prevenidos com transfusões de plasma sanguíneo, na tentativa de melhorar a capacidade de coagulação do sangue. Porém, uma pesquisa realizada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, feita durante três anos em um grupo de 53 pacientes com cirrose internados no hospital, revela que 96% deles tinham coagulação normal antes da transfusão e apenas 1,9% tiveram melhoras depois de receber plasma.

O resultado foi obtido graças a um novo método de teste sanguíneo que mede a quantidade de trombina, proteína que realiza a coagulação. O teste, ainda em fase experimental, poderá no futuro reduzir o procedimento pouco útil ao paciente e os custos do SUS com transfusões de sangue.

"A cirrose é a fase avançada de várias doenças do fígado, que possui diversas causas, como vírus, álcool, medicamentos, alterações imunológicas, de metabolismo e fígado gorduroso, cuja incidência está aumentando e será um grande problema de saúde nos próximos anos", diz o professor Alberto Farias, da Divisão de Gastroenterologia e Hepatologia Clínica do HC, um dos orientadores da pesquisa.

"Ela é caracterizada pela destruição e perda de função do fígado, que deixa de fazer depuração, armazenamento e metabolização de substâncias e para de contribuir com a defesa imunológica e a digestão", diz Farias.

Procedimento que consome 30% do plasma de banco de sangue no HC pode ser desnecessário: maioria dos pacientes com cirrose tem coagulação normal antes da transfusão

O professor explica que, no início, as doenças hepáticas não têm sintomas visíveis, que só aparecem quando 70% do fígado deixa de funcionar. "Na fase mais avançada, elas atingem outros órgãos, como coração, cérebro, pulmão, rim, intestinos, músculos, ossos e algumas glândulas. Isso faz com que o paciente precise ser atendido por vários especialistas, o que torna o tratamento muito caro".

Segundo ele, nesse estágio, os principais sintomas são olhos amarelos, barriga d'água, e como os pacientes costumam vomitar sangue, são feitas transfusões de sangue para tratar o sangramento, uma das principais complicações decorrentes da cirrose.

O principal tipo de transfusão feita em pacientes de cirrose é o de plasma sanguíneo, para melhorar a coagulação do sangue, afirma o professor. "Transfusões de sangue são um recurso muito utilizado em hospitais de todo o mundo, em diversas situações, e salvam vidas. Nos casos de cirrose, ela é usada frequentemente antes da realização de procedimentos invasivos, para prevenir sangramento".

Farias diz que, embora os pacientes com cirrose representem apenas 8% das internações em hospitais como o HC, eles consomem 30% do plasma dos bancos de sangue. Transfusões são a segunda maior despesa do SUS com esses pacientes, por isso é importante medir com precisão a sua eficácia.

A pesquisa analisou 53 pacientes do HC durante 36 meses. Antes e depois das transfusões, amostras de sangue foram submetidas a dois testes de coagulação. Para ocorrer a coagulação do sangue é fundamental que o fígado produza substâncias chamadas fatores da coagulação que, ao serem ativados, resultam na geração de uma proteína chamada trombina, etapa fundamental.

Atualmente, o método padrão de teste em todo o mundo é o coagulograma, que mede a atividade dos fatores de coagulação, mas não a quantidade de trombina. "Apesar de o método ser utilizado há mais de 50 anos, ele identifica apenas 5% da capacidade de coagulação do paciente, superestimando os riscos de sangramento e levando a um maior número de transfusões", diz Farias.

Além do coagulograma, foram realizados testes com um equipamento chamado Trombograma Calibrado Automaticamente (CAT, na sigla em inglês), que mede a quantidade total de trombina gerada. "O CAT permite medir a real capacidade de coagulação, uma vez que avalia o seu principal parâmetro, o nível de trombina. Por meio de exames de sangue, a pesquisa verificou que, antes da transfusão, 96% dos pacientes tinham coagulação normal", destaca o professor.

Segundo ele, depois da transfusão, apenas 1,9% melhoraram sua capacidade de coagulação, não justificando o uso rotineiro do tratamento porque o benefício é muito pequeno.

Entretanto, Farias diz que o teste com o CAT ainda é experimental e precisa ser validado para uso clínico. "O estudo demonstrou que os pacientes possuem mecanismos compensatórios que permitem manter a capacidade de coagulação mesmo nas fases mais avançadas da cirrose, inclusive quando o teste convencional, que é menos preciso, exibe resultados alterados", afirma.

"No futuro, o novo método poderá ajudar a mudar políticas públicas de saúde, direcionando transfusões de sangue para casos efetivamente necessários, representando uma grande economia de recursos nos hospitais", diz o professor.

A pesquisa é descrita na tese de doutorado de Amanda Bruder Rassi, defendida no Programa de Pós-graduação em Ciências Médicas (Hematologia) da FMUSP. O trabalho foi orientado pelo professor Alberto Farias e teve como co-orientador o professor Elbio Antonio d'Amico, do Serviço de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular. O estudo teve financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e as conclusões também são apresentadas em artigo da edição de janeiro de 2020 do Journal of Hepatology, da Associação Europeia para o Estudo do Fígado, principal periódico da área. A tese também foi premiada no Congresso da Associação Americana para o Estudo do Fígado, em Boston (Estados Unidos) e no 8º Simpósio Internacional de Coagulação e Doenças Hepáticas, realizado na Universidade de Groningen (Holanda).

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