Notícia

A Granja

CIGARRINHA-DA-RAIZ ataca nos canaviais

Publicado em 01 novembro 2002

Por Aline Eltz
As últimas estatísticas revelam um crescimento do setor sucroalcooleiro no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, em 2002, a safra de cana-de-açúcar deve chegar a 361,1 milhões de toneladas, volume 4,3% maior que o registrado no ano passado. No entanto, outros índices têm preocupado os produtores de cana em São Paulo, Estado responsável por quase 60% da produção nacional. Por força da lei, até 2020 toda a área cultivada terá que ser colhida sem queima - o fogo é normalmente usado para eliminar a palhada, reduzir o volume no transporte e facilitar o corte manual. A redução das queimadas, que deve ser de 20% ao ano, vem sendo feita de forma gradual. Entretanto, o fim da queima acarretou a proliferação da cigarrinha-da-raiz, inseto de apenas um centímetro que se transformou na principal ameaça aos canaviais. A cigarrinha, que em São Paulo era considerada uma praga ocasional, teve o ciclo alterado, tornou-se abundante e provocou perdas de até 60% da lavoura em algumas propriedades. Desde a fase de ninfa, a Mahanarva fimbriolata, (nome científico do inseto) suga a seiva da planta a partir da raiz, causando redução de produtividade. Já na fase adulta, ela inocula toxinas que prejudicam a qualidade da cana-de-açúcar. A preocupação com o impacto da supressão do fogo e a necessidade de buscar alternativas para reduzir seus efeitos uniu cientistas do Instituto Biológico, órgão da Secretaria de Agricultura de Campinas, da Esalq/USP e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) em torno de um projeto de avaliação e controle de pragas, doenças e ervas daninhas em culturas de cana-de-açúcar com sistema de colheita sem queima. Iniciado há dois anos, o projeto é subsidiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Para combater a cigarrinha, os pesquisadores recorreram ao fungo Metarhizium anisopliae. O fungo é produzido em porções de arroz que, lavadas em água, fornecem a calda a ser aplicada na lavoura. São necessários de um a dois quilos de arroz esporulado (ou seja, com alta concentração de fungos) para tratar um hectare. "As gerações iniciais aparecem logo após as primeiras chuvas da primavera, entre setembro e outubro, período em que deve ocorrer a primeira aplicação", explica o pesquisador Laerte Machado, do Centro Experimental do Instituto Biológico. "O fungo necessita de umidade e, além disso, é suscetível aos raios solares", diz. "Por isso, recomendamos que a aplicação seja feita em dias chuvosos, ao entardecer ou à noite." Todavia, antes de recorrer aos controles biológico ou químico, o produtor deve fazer um levantamento das infestações. "O controle biológico não atinge os inimigos naturais da cigarrinha, que devem ser preservados", ressalta o doutor em Entomologia Artur Mendonça, autor do livro Cigarrinha da Cana-de-Açúcar. De acordo com o professor Paulo Botelho, do Centro de Ciências Agrárias da UFSCAR, o produtor só deve recorrer ao controle químico quando os níveis de infestação forem elevados. Para ele, os inseticidas são uma solução emergencial. "Esses produtos são eficientes, mas deixam de agir em pouco tempo", adverte. O mestrando em Entomologia na ESALQ, José Francisco Garcia, em parceria com Paulo Botelho, estuda técnicas de criação da cigarrinha-da-raiz em laboratório, em função da ausência do inseto no campo no período de maio a setembro. "Precisávamos criá-lo em laboratório para intensificar os estudos", relata Garcia. Apesar das dificuldades em manter a praga em laboratório, os pesquisadores já chegaram à quarta geração do inseto. "Agora podemos trabalhar com material de qualidade, conhecer sua biologia e certificar sua sanidade, o que facilita as pesquisas sobre manejo e controle da praga", afirma.