Pesquisadores analisam a possível relação entre microplásticos e aumento de casos de depressão, ansiedade e distúrbios do sono
Alimentos ultraprocessados fazem parte da rotina de milhões de pessoas. Produzidos com substâncias extraídas de alimentos naturais e aditivos químicos, esses produtos industrializados vêm preocupando cientistas pela presença crescente de microplásticos
Um conjunto de quatro estudos, publicado em maio pela revista Brain Medicine, aponta que essas partículas podem se acumular no cérebro humano, levantando hipóteses sobre impactos na saúde mental
As análises sugerem que microplásticos presentes nos alimentos embalados, como macarrão instantâneo, refrigerantes e salgadinhos , estariam ligados a processos biológicos com potencial efeito neurotóxico . Segundo os pesquisadores, embora ainda não existam comprovações em humanos, os achados são consistentes com estudos em animais.
Revisão aponta aumento de depressão e ansiedade
Além da possível ligação com doenças neurodegenerativas, os alimentos ultraprocessados já são associados a transtornos mentais. Uma revisão publicada em fevereiro de 2024 pelo grupo BMJ mostrou que pessoas com alto consumo desses produtos têm risco 22% maior de depressão, 48% maior de ansiedade e 41% mais chances de distúrbios do sono
Esses dados reforçam a preocupação com a exposição combinada aos aditivos químicos e microplásticos presentes em embalagens . De acordo com a professora Thais Mauad, da Faculdade de Medicina da USP, a contaminação ocorre por meio da lixiviação dos plásticos, especialmente ao aquecer alimentos em embalagens de isopor ou recipientes descartáveis.
Microplásticos são neurotóxicos em animais
Thais explica que ainda não há comprovação direta da presença de microplásticos no cérebro humano nem de suas consequências, mas lembra que testes com animais mostram impactos graves. “Essas partículas causam inflamação, estresse oxidativo e até danos no DNA em modelos animais”, afirmou a especialista em anatomia patológica.
A hipótese apresentada na coletânea da Brain Medicine é de que a exposição contínua aos microplásticos, associada ao consumo de ultraprocessados, possa estar ligada ao aumento de doenças mentais ou degenerativas. No entanto, os cientistas reforçam que ainda são necessárias mais evidências para validar essa relação em humanos
Mudanças simples podem reduzir o risco
Embora evitar completamente o contato com microplásticos seja quase impossível, mudanças de hábito podem minimizar a exposição. Thais orienta evitar alimentos embalados em plástico, não aquecer comida em recipientes descartáveis, não utilizar isopor e evitar bebidas quentes em copos plásticos . O alerta vale especialmente para crianças pequenas, que são mais vulneráveis a compostos tóxicos.
A docente também cita o Tratado Global do Plástico, que propõe a redução da produção de plásticos não essenciais e a regulamentação de aditivos químicos. Mais de 100 países já aderiram ao acordo, mas o Brasil ficou de fora da iniciativa, o que foi criticado por especialistas e ambientalistas.
Para Thais Mauad, essa decisão representa um retrocesso. “A poluição plástica é um dano ambiental imensurável e precisa ser combatida com urgência”, defende.