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Jornal Floripa

Cientistas usam genética para melhorar desempenho de atletas

Publicado em 15 junho 2016

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) está mapeando em atletas de elite de diferentes modalidades um conjunto de marcadores genéticos associados ao bom desempenho na prática esportiva.

O objetivo do projeto, intitulado Atletas do Futuro, é criar um banco de dados sobre variações genômicas (polimorfismos) frequentes na população brasileira e, com auxílio de softwares, usar essa informação tanto para a seleção e treinamento de novos talentos, como para o aperfeiçoamento da preparação física de atletas profissionais.

Resultados da pesquisa foram apresentados no dia 22 de março, em São Paulo, durante o workshop “Research on Sports and Healthy Living”, organizado pela Fapesp em parceria com a Netherlands Organisation for Scientific Research (NWO).

“Além de melhorar a performance, acreditamos que o conhecimento desses marcadores genéticos possa nos ajudar a reduzir o número de lesões e a prolongar o tempo de vida do atleta”, disse à Agência Fapesp João Bosco Pesquero, idealizador do Atletas do Futuro e coordenador, na Unifesp, do Centro de Pesquisa e Diagnóstico Molecular de Doenças Genéticas.

O grupo, que teve o auxílio de Elton Dias da Silva, Giscard Lima e Sandro Soares Almeida, já coletou dados de mais de 800 atletas – tanto na ativa quanto aposentados – de modalidades como judô, basquete, kickboxing, rúgbi, karatê, tênis, atletismo e futebol.

Entre os voluntários mais conhecidos estão o tenista Gustavo Kuerten, os jogadores de basquete Hortência Marcari e Oscar Schmidt, os judocas Edinanci Silva, João Derly e Aurélio Miguel e os corredores Marilson do Santos, Joaquim Cruz e Andre Domingos Silva.

O material foi coletado por meio de um raspado bucal, com um kitcomercial semelhante ao empregado em testes de paternidade.

A busca pelos marcadores foi feita por métodos de PCR (reação da polimerase em cadeia) e sequenciamento.

Para isso, foi usado um painel de genes-alvos já associados em estudos anteriores à performance esportiva, como, por exemplo, o ACTN3, que codifica uma proteína importante para a contração muscular, a alfa-actina 3.

“Com base na análise desses marcadores, criamos um escore que indica se aquela pessoa tem mais predisposição a atividades que requerem força ou a atividades de resistência. A princípio, estamos avaliando apenas essas duas variáveis. Mas é possível investigar outras, como capacidade respiratória ou propensão a lesão. No futuro, pretendemos ampliar o número de marcadores genéticos analisados”, contou Pesquero.

De acordo com o escore obtido pelo atleta, explicou o pesquisador, tanto a preparação física quanto a tática de jogo, no caso dos esportes coletivos, podem ser adaptados para alcançar melhores resultados.

O método foi testado com sucesso no time de basquete do Palmeiras, durante o campeonato de 2013, graças a uma parceria e orientação do preparador físico Chiaretto Costa e do fisiologista do exercício Paulo Correia, da Unifesp.

“Estávamos no meio do campeonato e o desempenho do time era ruim, havia perdido praticamente todos os jogos. Era um paciente terminal, então decidimos aplicar o tratamento experimental. A performance do grupo apresentou uma mudança drástica, melhorou muito, assim como a dos atletas individualmente”, contou Pesquero.

Na avaliação do pesquisador, o grande segredo está na capacidade de traduzir a informação genética para a prática esportiva.

“Já tentamos aplicar o método em diversos times de futebol. Fizemos as análises dos marcadores, mas há uma grande resistência em mudar o treino com base nos resultados”, contou Pesquero.

Outra experiência bem-sucedida, desta vez no basquete, foi com o time de São José dos Campos, na época comandado pelo preparador físico Adilson Doretto.

“Doretto já acompanhava o time havia três anos e relatou que o número de lesões caiu de 21, na temporada de 2010, para nenhuma, em 2013 – descontados os quatro casos de lesão por acidente. A performance do grupo também melhorou muito”, contou Pesquero.

Apesar dos potenciais benefícios do projeto para o treinamento de atletas profissionais, o pesquisador da Unifesp ressalta que seu principal público-alvo são crianças.

Uma das propostas de Pesquero é desenvolver um software que pudesse ser usado nas escolas, pelos professores de Educação Física, para identificar as modalidades mais adequadas para cada estudante e orientar o treino.

“Muitas vezes, a criança desiste do esporte porque acredita que aquilo não é para ela. Mas, na verdade, está fazendo algo que não é adequado ao seu perfil. Por exemplo, se ela gosta de natação e é mais propensa a atividades de força, podemos orientá-la a optar por modalidades como 100 metros livres. Modalidades acima de 400 metros livres seriam recomendadas para indivíduos propensos a atividades que requerem resistência. Quando a criança faz algo em que se destaca, aquilo funciona como um estímulo positivo, ajuda a manter a prática de atividade física e aumentam as chances de virar um atleta”, avaliou.