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Cientistas se unem pelo uso de bioenergia no transporte

Publicado em 14 abril 2010

A experiência brasileira com o etanol e a argentina com o biodiesel mostram que é possivel substituir parte dos combustíveis fósseis usados no transporte de pessoas e mercadorias por combustíveis de fontes renováveis. Essa é parte da conclusão da minuta de resolução da convenção latino-americana do projeto Global Sustainable Bionergy (Sustentatibilidade Global da Bioenergia).

O projeto reúne cientistas de todos os continentes e é uma iniciativa coordenada pelo pesquisador norte-americano Lee Lynd. O texto do encontro de São Paulo afirma ainda que a América Latina tem potencial para expandir a produção de bioenergia sem que isso comprometa a produção de alimentos, o meio ambiente e a biodiversidade, justamente a preocupação internacional relacionada à geração de bioenergia nos países tropicais. O encontro latino-americano aconteceu de 23 a 25 de março em São Paulo; recebeu o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Academia Brasileira de Ciência (ABC). Foi precedido da convenção europeia, ocorrida entre 24 e 26 de fevereiro, e da africana, entre 17 e 19 de março.

Com a realização de mais dois encontros de cientistas - um que acontecerá na Malásia, em junho, e outro na América do Norte, em setembro - vai se encerrar a primeira etapa do projeto. O PROJETO O Projeto GSB foi iniciado em junho de 2009 e parte de uma pergunta: é possível substituir 25% da energia que move o transporte no mundo por biocombustíveis sem prejudicar o meio ambiente, a sociedade e a produção de alimentos? As convenções realizadas na primeira etapa do GSB estão servindo para os pesquisadores envolvidos na iniciativa organizarem o projeto que responderá essa pergunta.

Os cientistas participantes da convenção latino-americana, por exemplo, sugeriram que talvez a premissa devesse partir da substituição de 30% dos combustíveis fósseis, como já ocorreu no Brasil com o uso do etanol. Também questionaram se deveriam tratar apenas da energia usada na mobilidade ou da energia como um todo. A resolução divulgada ao final da conferência no dia 25 de março não trouxe, de forma explícita, a resposta para a premissa do projeto. Em entrevista a Inovação, Lynd, que também é dono da Mascoma, empresa que estuda e desenvolve tecnologia para produção de etanol celulósico, explicou que não é intenção do GSB, nas conferências iniciais, chegar a essa resposta. Estamos propondo fazer novas análises que satisfaçam o mundo sobre a questão da bioenergia e sua sustentabilidade e as respostas não serão obtidas em uma reunião de três dias. Isso é um longo processo, afirmou.

O que fizemos foi informar a maneira como vamos nos aproximar dessa questão em um nível global, e esse era o objetivo da conferência, acrescentou. AMÉRICA LATINA A convenção de São Paulo atraiu poucos participantes de outros países da América Latina. Na plateia, a maioria era pesquisadores brasileiros, com alguns representantes de empresas, como a DuPont. Entre os palestrantes, falaram especialistas do setor de biocombustíveis e bioenergia, como José Goldemberg, físico do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP; Luiz Cortez, pesquisador da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp; André Nassar, do Instituto Icone; Márcia Azanha, da Escola Superior de Agricultura da USP (Esalq); Manoel Regis Lima Verde Leal, do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE); e Heitor Cantarella, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

Entre os convidados estrangeiros, apenas dois representantes de países latino-americanos: Rodolfo Quintero, pesquisador da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM); e Faustino Siñeriz, da Universidad Nacional de Tucumán (UNT), da Argentina. A representatividade da iniciativa, que trata de um posicionamento relacionado ao continente latino-americano, foi prejudicada pela pequena participação de outros países? Reconhecemos que tivemos muitos brasileiros. Algo similar ocorreu no encontro na África do Sul. Vamos fazer com que saibam o que o correu nesse encontro e enviar a resolução final para pessoas em outros países, de forma a incluir outras nações, responde Lynd.

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, também integra o comitê de organização do GSB. Por que o Brasil se envolveu no projeto, já que o País tem uma experiência comprovada que, de certa forma, responde a pergunta do projeto? O Brasil mostra para o resto do mundo que é possível substituir, em grande escala, a energia que move o transporte. Nossa participação traz para o grupo aquilo que aprendemos com nossa experiência. Já o País obtém acesso a um debate que vai criar conhecimento relevante para a questão da sustentabilidade, onde ainda precisamos fazer muita coisa, respondeu ele a Inovação.

Quando brasileiros participam de grupos internacionais como esses, cresce a visibilidade do que o Brasil realizou e ajuda a conquistar aliados para as ideias do Brasil sobre esse assunto, completou. Brito também explicou que há uma discussão entre se o GSB deveria trabalhar com 25% ou 30% da mobilidade e se deveria tratar de transporte ou da energia total consumida. Esperamos ouvir os outros países, nas demais convenções, para chegar a um entendimento final, esclareceu. Nas etapas 2 e 3 do projeto, os cientistas do GSB vão convidar outros pesquisadores para que estes façam os projetos de pesquisa envolvendo bioenergia e sustentabilidade. Agora estamos debatendo qual o objetivo, que desafio científico queremos enfrentar.

A partir dessas convenções, vamos organizar as informações para montar um projeto de pesquisa completo sobre a sustentabilidade e a substituição em larga escala [de energia fóssil por bioenergia], disse. Atualmente há muita produção científica relacionada ao assunto. O GSB servirá para organizar melhor esse grande volume de estudos, identificar lacunas e motivar pesquisadores a cobri-las, comentou. Brito afirmou que a representatividade é um ponto de preocupação do comitê organizador do projeto. Na organização da conferência em São Paulo, procuramos trazer mais pessoas da América Latina, e não conseguimos, por razões que não saberíamos identificar. Por isso estamos chamando a resolução de minuta e vamos agora apresentá-la a outras organizações na América Latina para ver se gostariam de endossar e aumentar a representatividade, contou. Entre os palestrantes, por exemplo, houve representantes do México e da Argentina, mas faltou outro país forte em bicombustíveis na região, a Colômbia.

A resolução latino-americana

Após os três dias de apresentações e discussões sobre a demanda e produção mundial de energia e bioenergia, com destaque para a experiência com o etanol no Brasil, um grupo de aproximadamente 80 cientistas e representantes de empresas votou pela aprovação da resolução latino-americana. O documento destaca ser necessária uma agenda para a pesquisa e o desenvolvimento e formação de recursos humanos diante de uma realidade social e tecnológica em mudança, e de novas tecnologias para aperfeiçoar os elos da cadeia produtiva, chegar à produção flexível de coprodutos complementares e atingir uma ampla sustentabilidade.

Também diz que a redução das barreiras comerciais e o desenvolvimento de padrões internacionais de certificação poderiam fazer emergir um mercado aberto e beneficiar a todos. A resolução destaca que a América Latina já demonstrou potencial para fornecer biocombustíveis. Existe diversidade local de matérias-primas e a cana-de-açúcar é percebida como a principal matéria-prima para a produção sustentável de etanol. Recursos em terras estão disponíveis sem comprometer a segurança alimentar e os ecossistemas, aponta. O documento menciona dois modelos de destaque, o de produção de biodiesel na Argentina e de etanol no Brasil.

O caso brasileiro é notável e relevante para os objetivos do GSB, consta no documento, ao lembrar que 16% do suprimento energético primário total do País vêm da cana-de-açúcar e que o etanol de cana-de-açúcar substitui mais de 30% da gasolina. A cana é a segunda fonte de energia mais importante, ficando atrás do petróleo e à frente da hidroeletricidade e da biomassa tradicional. Os participantes da convenção em São Paulo também deixaram registrado na resolução que o apoio governamental é necessário para normatizar políticas comuns, como as certificações de sustentabilidade e de composição e para apoiar o desenvolvimento de tecnologias de conversão econômica que respondam à diversidade de matérias-primas, escalas e outras circunstâncias locais.

Primeiro dia

Lynd explicou no primeiro dia da conferência que a cana-de-açúcar é o melhor insumo, mas tem escala restrita, pois não pode ser cultivada em todos os continentes. Também citou a alga, que teria características atraentes, mas o custo de produção por unidade de energia ainda não foi calculado. Ele aposta nas tecnologias que procuram quebrar a celulose para dela se extrair mais açúcar, a ser convertido em etanol, como a hidrólise enzimática. Ele também identifica que o custo da terra será importante para a questão da bioenergia.

O GSB deve discutir, portanto, se é possível conciliar bioenergia, produção de alimentos e preservação ambiental e se o mundo deveria produzir bioenergia em larga escala, dúvidas que a ciência deve responder. Nathanael Greene, que integra o comitê diretor do GSB e é diretor de política energética da organização não governamental Natural Resources Defense Council (NRDC), também no primeiro dia da reunião em São Paulo, explicou que o GSB quer olhar o quadro mais desejável, informar a sociedade, procurar novos entendimentos e consensos sobre a produção da bioenergia. Como público-alvo ele definiu aqueles que ainda têm dúvidas sobre a compatibilidade entre produção de bioenergia e sustentabilidade e os que estão convencidos de que a bioenergia é o caminho. No caso desse último grupo, o GSB pretende contribuir dotando essas pessoas de mais argumentos para convencer outros a trabalharem no tema.

AS RESOLUÇÕES DAS CONVENÇÕES DA EUROPA E DA ÁFRICA

Sobre a conferência europeia, Nathanael Greene explicou que os participantes estavam convencidos do potencial da bioenergia, mas têm dúvidas relacionadas aos limites e contextos dos países. Os europeus basicamente querem saber se é possível fornecer bioenergia para 25% da mobilidade mundial, se seria possível fazer isso atingindo um mínimo de sustentabilidade, e qual a energia mais viável para o futuro. Na conferência africana, o GSB procura um endosso mais amplo, envolvendo mais países do continente. Também observaram que há questões institucionais na região que não serão atingidas pelo Projeto GSB, como os problemas de gestão da terra, cujo preço é elevado. Há uso de bioenergia na África, mas com alto custo para a ecologia e a saúde humana. Usa-se, por exemplo, madeira, colhida pelas mulheres, obrigadas a caminhar longas distâncias, e cuja retirada destrói ecossistemas e cuja queima prejudica a saúde.

Patricia Osseweijer, diretora do Kluyver Centre for Genomics of Industrial Fermentation, da Holanda, onde ocorreu a convenção europeia, contou na manhã de 24 de março, segundo dia da reunião em São Paulo, que 70 delegados, de 10 países, participaram do encontro. A Europa percebe a importância dos biocombustíveis líquidos e deverá importá-los. Identificou-se potencial de produção, especialmente no leste europeu. Como desafios, levantaram a escala de produção, a fonte dos biocombustíveis líquidos, a cadeia de suprimento, o consumo e comportamento do consumidor, e a infraestrutura. As terras disponíveis - 40 milhões de hectares - dão conta de um terço da necessidade europeia. A resolução chama atenção para o fato de a Europa precisar reconfigurar a terra disponível ou que possa ser disponibilizada para produzir biomassa com finalidade de gerar energia.

Na resolução, reconhecem que a produção de biomassa contribuiria para aumentar a oferta de alimentos e de bicombustíveis. Não há contradição insolúvel entre as duas opções, que podem ser integradas de forma sustentável, consta no documento. Em um vídeo exibido no auditório da Fapesp, em São Paulo, durante a convenção latino-americana, Emile van Zyl, pesquisador da South Africa´s National Energy Research Institute (SANERI), instituição ligada ao Ministério de Minas e Energia da África do Sul, falou sobre a convenção africana. Ele lembrou que 50% da energia usada na África é bioenergia, mas tradicional, como a queima de lenha e de carvão vegetal. Agregar valor é o desafio do continente. A conferência africana também identificou que a África pode fornecer um quarto da energia mundial na forma de bioenergia, se fizer uma agricultura adequada para tal ação.

O uso de gramíneas e de terras abandonadas poderia viabilizar a bioenergia sem comprometer a produção de alimentos e o meio ambiente. Os países devem tomar cuidado na escolha do insumo, aproveitando o conhecimento endógeno. Ele citou que foi recomendado o uso de pinhão manso e a experiência se mostrou desastrosa. A planta não tinha defesa contra pragas e teve baixa produtividade, entre outros problemas. Na resolução, a bioenergia é vista como uma grande oportunidade para os africanos, dado seu potencial geográfico de produção, que excederia as demandas por alimentos e as necessidades básicas da população africana. A produção de bioenergia pode atender às comunidades rural e urbana, estimular o setor industrial, reduzir as emissões de gases de efeito estufa, desenvolver a infraestrutura agrícola, recuperar o solo e criar paisagens ecologicamente saudáveis, enumera o documento.

Também consta na resolução uma série de ações a serem desenvolvidas, como mais análises sobre o potencial bioenergético da África, o mapeamento de tecnologias, disseminação de projetos que sejam exemplos, formação de recursos humanos, políticas internacionais, regionais e locais que alinhem as necessidades dos países relacionadas ao comércio, posse da terra e desenvolvimento com a formação de uma cadeia de valores integrada para produção de alimentos e bioenergia.

OS PANORAMAS NA OCEANIA, ÁSIA E NOS ESTADOS UNIDOS

Em palestra também no segundo dia da reunião do GSB em São Paulo, Ramlan Abd Aziz, pesquisador da Universidade Tecnológica da Malásia, apresentou um panorama da Ásia e tratou também da Austrália, na Oceania, que se destaca na produção de etanol, ao lado da China e da Tailândia. A Ásia, disse ele, tem o maior potencial de produção, porque dispõe de mais terra arável, em especial no sudeste asiático, e um regime de chuvas favorável para produção de bioenergia a partir de biomassa. O Vietnã é um dos países que tem se desenvolvido rapidamente em bioenergia, por inclusive receberem investimentos em infraestrutura de Cingapura. A China tem se destacado em etanol, mas a Austrália é quem está mais organizada.

O Japão também tem se desenvolvido, mas importa etanol. A Malásia tem projetos com óleo de palma, resíduos agrícolas, como o do arroz, cana e uso de resíduos urbanos, como o esgoto, para produzir energia. Nos Estados Unidos, contou Nathanael Green, há o domínio da indústria do milho e a razão mais forte do apoio que o setor obtém está na política agrícola. Um cenário mais possível de se concretizar seria o uso de eletricidade nos carros menores e de bicombustíveis para veículos mais pesados. Ele disse que já houve mais otimismo nos EUA quanto ao potencial do uso de bicombustível devido à experiência com o etanol de milho, em especial por conta da competição com alimentos. Segundo Green, também há certo desânimo no que se refere às tecnologias de segunda geração, em especial a hidrólise enzimática, pois sempre é dito que ela atingirá a escala comercial num futuro próximo, mas os planos não se concretizam. Green afirmou que seria preciso implementar algumas tecnologias de segunda geração para poder reconstruir a base de apoio para elas.

Inovação Unicamp 14/04/2010