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Expresso MT

Cientistas reúnem-se em SP para curso inédito no país

Publicado em 18 abril 2010

Promovido pelo Hospital A.C.Camargo, o “Global Meeting A.C.Camargo of Translational Science” é o primeiro encontro realizado no país com foco na ciência biomédica translacional, área que conecta aquilo que é investigado em laboratório ao tratamento dos pacientes.

Trata-se do primeiro de uma série de eventos da Escola São Paulo de Ciência Avançada, modalidade de fomento lançada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) no ano passado para estimular a interação entre grupos científicos de diferentes países.

Segundo Emmanuel Dias Neto, pesquisador do Centro de Pesquisas do Hospital A.C. Camargo e coordenador do encontro, iniciativas como esta permitem um fluxo maior de pesquisadores no país e trabalhos de colaboração científica. “O Brasil evoluiu muito no número de publicações científicas, mas ainda falta um aumento qualitativo”, comenta.

Dias Neto, que fez parte da equipe que em 2001 fez história com o sequenciamento do DNA da Xylella fastidiosa, acaba de voltar de uma experiência de quatro anos como professor convidado do M.D. Anderson Cancer Center, um dos mais prestigiados centros de ensino e pesquisa sobre o câncer dos EUA. “O Brasil pode um dia se tornar um polo de pesquisadores do mundo inteiro, como é os EUA”, acredita.

O curso, que acontece até o dia 30, terá a participação de 40 palestrantes e, na plateia, quase 120 jovens cientistas selecionados entre mais de 400 inscritos de doze países (EUA, Portugal, Canadá, Finlândia, Itália, Japão, Inglaterra, Índia, Argentina, Holanda e Alemanha, além do Brasil).

A participação no encontro conta créditos para alunos de mestrado e doutorado de universidades nacionais e internacionais. “O A.C. Camargo é o único hospital privado do país que pode participar de um evento como este, pois nosso curso de pós-graduação tem nota 7 na Capes”, explica o cientista Ricardo Brentani, presidente do hospital e diretor-presidente da Fapesp.

Pesquisas

Metade dos palestrantes vem de instituições internacionais. É o caso do patologista lituano Rubin Tuder, da Universidade do Colorado, que falará sobre os mecanismos que fazem com que a fumaça dos cigarros lesione os pulmões. E do português Antonio Coutinho, que criou e dirigiu por 16 anos a unidade de imunologia do Instituto Pasteur, em Paris, e atualmente comanda o Instituto Gulbenkian de Ciência da Universidade de Lisboa. Sua descoberta sobre a ação das terapias imunológicas mudou a abordagem no tratamentos dos cânceres.

Além de oncologia, outros assuntos serão destaque, como a neurociência. Um dos palestramtes da área é Ivan Izquierdo, da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio Grande do Sul, que abordará suas recentes descobertas sobre a persistência da memória. Já o biólogo Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explicará como alterações no número de cromossomos das células do cérebro podem ter relação com doenças como o mal de Alzheimer.

Outra presença esperada no evento é a do casal de brasileiros Wadih Arap e Renata Pasqualini, que lidera um laboratório no M.D. Anderson Cancer Center e investiga, há uma década, o sistema vascular humano para encontrar marcadores moleculares para o câncer. A dupla chama a atenção da comunidade científica com uma terapia antiobesidade baseada na indução de apoptose (morte celular programada) na vasculatura do tecido adiposo (tecido gordo). Em outras palavras, a terapia levaria as células de gordura a cometer suicídio.

O destaque de cientistas brasileiros fora do país, como observam Dias Neto e Brentani, é uma tendência que tem trazido frutos para o próprio tratamento do câncer no Brasil. Não é à toa que o vice-presidente José Alencar foi indicado ao cirurgião brasileiro Ademar Lopes para liderar a equipe que realizou uma cirurgia de 17 horas para retirada de tumor na região abdominal. No encontro, o médico vai apresentar dados sobre a metástase na virilha, principal causa de morte nos casos de câncer de pênis.