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Cientistas pesquisam a interferência das radiações cósmicas sobre a Terra

Publicado em 21 julho 2006

Em tempos de mudanças climáticas, não é apenas para dentro dos limites da atmosfera terrestre que os cientistas precisam olhar. De acordo com um grupo de estudiosos do Universo, reunido na 58ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Florianópolis, é cada vez mais necessário incorporar o clima espacial aos estudos feitos sobre a biosfera. Tudo feito a partir de uma visão interdisciplinar. 'A quantidade de partículas cósmicas emitidas principalmente pelo Sol, que atravessam o espaço interplanetário e chegam à Terra, pode interromper transmissões de televisão, destruir satélites - o que ocorre muito todos os anos - e até mesmo causar furacões', disse Abraham Chian, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Uma das linhas de pesquisa em andamento no laboratório coordenado pelo pesquisador, que nasceu em Taiwan mas veio criança para o Brasil, é a prova de que a conferência feita nesta quinta-feira (20/7), sobre a importância da relação Terra-Sol, não é apenas uma peça de retórica.
'Começamos a tentar entender se o aumento na produção do fitoplâncton marinho [microrganismos que utilizam a luz do Sol para se multiplicar] pode estar relacionado, em algumas situações, com a elevação no bombardeamento de radiações cósmicas sobre a Terra', disse.
Outro tipo de relação com os seres microscópicos que vivem no mar, segundo o pesquisador do Inpe, foi bem documentado recentemente. "Um estudo detectou que, poucos dias antes de quatro terremotos atingirem a Ásia e a África, houve um aumento na produção primária nos mares das regiões afetadas", disse.
Para Chian, essas informações geradas recentemente precisam ser integradas por equipes interdisciplinares, para que sejam criados, no futuro próximo, modelos de previsão de catástrofes naturais. '
É importante olhar nos dois sentidos. Tanto da Terra para o espaço como na direção contrária. A questão espacial interfere muito no nosso dia-a-dia. Uma visão interdisciplinar é importante, pois faz tempo que essa área deixou de ser exclusiva dos astrônomos', disse Carlos Alexandre Wuenche, também do Inpe, outro integrante da conferência em Florianópolis.
Se prejuízos com satélites ou a potencialização de eventos como furacões e terremotos não são suficientes para colocar as conexões espaciais em pauta, Chian lembra que as radiações cósmicas também interferem diretamente na saúde humana. "O buraco na camada de ozônio na Austrália e no sul do Chile, já se sabe, causa mais cânceres de pele. O mesmo vale para os pilotos que trabalham muito nas rotas transpolares", disse.
Segundo Wuenche, que também estuda planetas fora do Sistema Solar, uma das grandes proteções naturais da Terra é exatamente o seu campo magnético. É por isso que qualquer alteração nesse escudo pode causar sérios problemas.

Agência FAPESP