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USP - Universidade de São Paulo

Cientistas melhoram compostos da "canela-preta" in vitro

Publicado em 16 setembro 2010

Por Antonio Carlos Quinto / Agência USP

O Laboratório de Biologia Celular (Biocel), do Departamento de Botânica, do Instituto de Biociências (IB) da USP, vem realizando estudos para o desenvolvimento de tecnologias inovadoras e de baixo custo para estabelecer programas eficientes visando a conservação e a produção de compostos vegetais biologicamente ativos. Entre as espécies vegetais trabalhadas no Biocel, destaca-se a Ocotea catharinensis (canela-preta), que se encontra atualmente na categoria de vulnerável segundo a International Union for the Conservation of Nature (IUCN).

Os estudos vêm sendo desenvolvidos com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - no projeto "Estudos de embriogênese como subsídios para estratégias e conservação de espécies arbóreas" -, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Petrobrás "Estudos de embriogênese em espécies arbóreas como estratégia para conservação de germosplasma e recuperação de ecossistemas ameaçados", sob a coordenação da professora Eny I. S. Floh, do Departamento de Botânica do IB.

De acordo com André L. W. Santos, que integra o programa de pós-doutorado no Biocel, a aplicação da técnica de embriogênese somática (produção in vitro de embriões) nesta espécie tem possibilitado a conservação de material genético da canela-preta, além de permitir a exploração sustentável de metabólitos secundários produzidos por esta espécie. Os metabólitos secundários são compostos orgânicos, cuja produção está diretamente envolvida em processos de crescimento e desenvolvimento vegetal. "Na natureza, esses metabólitos são produzidos frequentemente em baixas concentrações.

Com os estudos in vitro, abrem-se novas possibilidades para tentarmos incrementar a produção destes metabólitos com potencial, por exemplo, para a indústria farmacêutica". Estudos já realizados no Laboratório de Química de Produtos Naturais (LPQN), do Instituto de Química (IQ) da USP, que é coordenado pelo professor Massuo J. Kato, demonstraram a ação antioxidante de neolignanas (metabólito secundário) extraídos de folhas e embriões somáticos de canela-preta.

Importância econômica

Santos ressalta que o cultivo de espécies vegetais nativas tem se caracterizado como atividade econômica de grande importância para o Brasil. "Em especial as espécies vegetais com fins industriais (farmacêuticos, alimentício, cosmético e madeireiro) têm apresentado maior potencial em função da abrangência e estruturação de suas cadeias produtivas", diz.

Entretanto, apesar da sua importância econômica, a utilização de produtos oriundos de espécies arbóreas nativas ainda não é tratada com a devida atenção, pois faltam alternativas tecnológicas e econômicas que os tornem competitivos nos mercados local, regional, nacional e internacional.

O pesquisador destaca que os métodos convencionais para o melhoramento e seleção de espécies vegetais, como por exemplo os pomares de semente clonal, oferecem possibilidades limitadas para atender as crescentes demandas por matéria-prima. "As técnicas baseadas na biotecnologia proporcionam métodos eficientes em curto espaço de tempo e com baixo custo para micropropagação, conservação e melhoramento genético de plantas", ressalta.

A canela-preta é uma espécie arbórea da familia Lauraceae e ocorre no estado de São Paulo e na Região Sul do Brasil. Apesar de sua importância econômica, Santos lembra que os estudos relacionados à conservação e exploração sustentável da espécie ainda são escassos.