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Estadão do Norte (RO) online

Cientistas mapeiam ação do parasita da malária

Publicado em 15 agosto 2006

(*) Agência Amazônia com informações da revista Science e da Agência FAPESP

Cientistas do Brasil, França e Alemanha fizeram uma importante e surpreendente descoberta relacionada à malária. Após longos estudos, o grupo mapeou ação do parasita do gênero Plasmodium, causador da malária, no ser humano. A partir das pesquisas, eles identificaram como o agente faz para driblar a atenção do sistema imunológico do hospedeiro para chegar até a corrente sangüínea e, a partir dali, deflagrar a infecção. A descoberta está publicada na revista Science deste mês.
A malária é problema de saúde pública em mais de 100 países, onde cerca de 2,4 bilhões de pessoas (40% da população mundial) convivem com o risco de contágio. No Brasil, a doença pode tornar-se neste século um flagelo na Amazônia, a exemplo do que ocorreu há 100 anos, segundo o estudo Malária, Amazônia e Desenvolvimento, publicado em maio na revista Scientific American Brasil. De acordo com o trabalho a situação mais alarmante de avanço da malária na Amazônia é o Acre, com aumento de 153% de 2003 para 2004, e de 63% de 2004 para 2005.
A revista Science conta que os cientistas já sabiam que o processo da infecção da malária começa nas células do fígado. Mas não conseguiram entender com precisão como o parasita fazia para passar das células do tecido hepático para os glóbulos vermelhos do sangue. O artigo está publicado aqui. Para lê-lo é preciso ser assinante da revista.
Os cientistas descobriram que o plasmódio, ao entrar nas células no fígado do hospedeiro após a picada do mosquito, começa a se reproduzir de forma assexuada. Nessa fase, eles são chamados de merozoítos. São eles que vão desencadear todo o ciclo da malária nos mamíferos.
A revista descreve que a ação parasita ocorre assim: primeiro, os merozoítos matam as células do tecido do fígado onde estão hospedados. Esse processo faz com que esses conjuntos celulares sejam liberados na corrente sangüínea para serem, posteriormente, eliminados. É nessa etapa que surge o truque parasitário descoberto agora.
Segundo os pesquisadores, o plasmódio consegue desligar uma proteína que seria responsável por deflagrar a fagocitose (processo celular que ingere e digere elementos estranhos). Portanto, eles ficam livres para circular pela corrente sangüínea, invadir os glóbulos vermelhos e seguir espalhando a infecção.
Segundo Rogério Amino, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e um dos autores do estudo, o que mais surpreendeu aos cientistas foi a capacidade de o parasita manipular o organismo hospedeiro em seu proveito. De acordo com o professor, ao atuar dessa forma o plasmódio utiliza a célula hospedeira para, ao mesmo tempo, se camuflar e ser transportado na corrente sangüínea, como um verdadeiro cavalo de tróia.
Amino desenvolveu suas pesquisas em Paris. Isso se deu porque todos os estudos foram feitos com o Plasmodium berghei, espécie que não é encontrada entre os mosquitos que ocorrem no Brasil. Diante do conhecimento de mais uma etapa do complexo ciclo de vida do causador da malária, Amino e seus colegas já vislumbram novos caminhos científicos que serão seguidos a partir de agora.
Segundo o pesquisador, o próximo passo seria compreender como o parasita é capaz de manipular a célula hospedeira em termos moleculares. Outro caminho a ser pesquisado é identificação de drogas que possam inibir esse processo e, conseqüentemente, a liberação dos parasitas na corrente sangüínea.