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Cientistas estudam sedimentos para reconstituir passado da plataforma continental

Publicado em 13 novembro 2014

A costa brasileira no Sul e Sudeste do país é margeada por uma plataforma continental – porção do continente que avança sob o mar – com extensão aproximada de 1,155 milhão de quilômetros quadrados. Sua largura varia de 200 quilômetros na região de Santos, no litoral sul paulista, a 90 quilômetros, na frente de Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro. Um grupo de pesquisadores do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) estuda os sedimentos encontrados nessa região oceânica para identificar os processos oceanográficos que ocorrem nessa crosta, chamada plataforma continental sul-sudeste brasileira.

 

Realizados com apoio da FAPESP e com o navio oceanográfico Alpha Crucis – adquirido em 2012 pela Fundação para o IO-USP –, os estudos tiveram alguns de seus resultados descritos em um capítulo de um livro sobre plataformas continentais do mundo publicado no início de novembro pela Geological Society, no Reino Unido.

 

“Com os sedimentos coletados durante cruzeiros científicos feitos com o Alpha Crucis pudemos fazer uma série de inferências sobre a circulação oceânica do passado da plataforma continental sul-sudeste brasileira”, disse Michael Michaelovitch de Mahiques, professor do IO-USP e coordenador dos estudos, à Agência FAPESP.

 

“Dessa forma, conseguimos de certa maneira reconstituir o clima e o ambiente dessa região oceânica nos últimos milhares de anos”, afirmou.

 

Os sedimentos coletados em Santos e Cananeia, no litoral sul paulista, e em Itajaí, em Santa Catarina, são grãos finos de areia, além de lama e material orgânico depositados no fundo do mar.

 

Nos cruzeiros realizados em 2013, os pesquisadores do IO-USP coletaram sedimentos em profundidades maiores que mil metros – antes impossível, pela falta de equipamentos e embarcações brasileiras adequadas.

 

“O Alpha Crucis nos permitiu fazer pesquisa de forma melhor do que antes. Com ele, temos a possibilidade de ficar mais tempo no mar, chegar a lugares mais distantes e fazer levantamentos mais contínuos”, avaliou Mahiques.

 

Em fevereiro de 2013, um desses cruzeiros percorreu quase 2 mil quilômetros da plataforma continental sul-sudeste, quando foram coletadas centenas de amostras de sedimentos a até 1,4 mil metros de profundidade.

 

Avanço da pluma

 

Com base nas análises químicas e físicas das amostras, os pesquisadores descobriram, entre outras coisas, que a pluma de água do rio da Prata, que carrega sedimentos originários do estuário formado pelos rios Paraná e Uruguai, atingiu o litoral paulista há 3 mil anos, até a ilha de São Sebastião (leia mais em http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/01/13/lama-que-vem-sul/).

 

Até 4,5 mil anos atrás, a pluma estendia-se por uma faixa estreita ao longo da costa do Uruguai e do Sul do Brasil e chegava apenas até o norte da Ilha de Florianópolis, em Santa Catarina.

 

Uma hipótese para explicar o avanço da pluma seria uma mudança gradual no clima – de seco para úmido – e nos padrões de precipitação, com chuvas mais intensas e frequentes no interior da América do Sul nos últimos 3 mil anos.

 

Como a bacia do Paraná começou a receber mais chuva, o sistema de correntes marinhas da plataforma continental sul-sudeste brasileira passou a ter um volume maior de água para carregar o sedimento para mais longe, a mais de 1,2 mil quilômetros de distância.

 

Além disso, também teria havido um aumento na força e na frequência dos ventos. “A principal forçante que traz essa pluma até as regiões Sul e Sudeste do Brasil é o vento”, afirmou Mahiques. “Associados ao aumento da descarga de água do rio do Prata – a segunda maior bacia de drenagem da América do Sul –, os ventos contribuem para a chegada de sedimentos do rio da Prata ao litoral paulista”, avaliou.

 

Os pesquisadores constataram ainda que as características físicas e químicas dos sedimentos encontrados agora ao sul de São Sebastião são parecidas com as que existem no rio da Prata e diferentes das amostras colhidas entre o norte da ilha paulista e Cabo Frio, no litoral fluminense.

 

Uma hipótese que explica essa diferença é que os rios Doce e Paraíba do Sul são as principais fontes dos sedimentos depositados ao norte de São Sebastião, enquanto o rio da Prata abasteceria com sedimentos o litoral sul e parte do sudeste brasileiro, até São Sebastião.

 

“Conhecer esses processos sedimentares passados nos permite avaliar as regiões litorâneas potencialmente favoráveis à acumulação tanto de sedimentos produzidos por processos naturais como de materiais antropogênicos [ descartados pelo homem]”, avaliou.

 

De acordo com Mahiques, já se constata a existência de materiais antropogênicos em algumas faixas de lama da plataforma continental sul-sudeste brasileira a 100 metros de profundidade.

 

“Até recentemente era negligenciada a exportação de materiais antropogênicos orgânicos e inorgânicos para áreas mais profundas do oceano. E temos encontrado esses materiais em regiões de plataforma continental”, afirmou.

 

Edição especial

 

O professor do IO-USP também é um dos editores de um número especial da revista Continental Shelf Research, da editora Elsevier, publicado recentemente, sobre a plataforma continental sul-sudeste brasileira.

 

Os outros dois editores da publicação são os professores Áurea Ciotti, do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP, e Osmar Olinto Möller Junior, do Instituto de Oceanografia da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (Furg).

 

A edição especial da revista reúne 10 artigos resultados de pesquisas sobre processos oceanográficos observados na plataforma continental sul-sudeste brasileira. Alguns dos estudos foram realizados com apoio da FAPESP.

 

“Fizemos uma chamada para a seleção de trabalhos inéditos relacionados a essa região da plataforma continental brasileira”, disse Mahiques.

 

“A edição especial da revista dá uma boa medida da qualidade das pesquisas feita na área de Oceanografia no Brasil”, avaliou.

 

Intitulada Oceanographic processes associated with the main continental shelf waters off South and Southeastern Brazil, o número especial pode ser lido em www.sciencedirect.com/science/journal/02784343/89.

 

Já o livro Continental shelves of the world: Their evolution during the last glacio-eustatic cycle, com um capítulo de Mahiques e outros, pode ser adquirido pelo site http://www.geolsoc.org.uk/M0041.

 

E o artigo A multiproxy study between the Río de la Plata and the adjacent South-western Atlantic inner shelf to assess the sediment footprint of river vs. marineinfluence (doi: 10.1016/j.csr.2013.01.003), de Mahiques e outros, pode ser lido na revista Continental Shelf Research em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0278434313000058.

 

Agência FAPESP