Notícia

Brasileiros online

Cientistas discutem inovação para tratar doenças neglienciadas

Publicado em 23 novembro 2015

Você sabe o que são doenças negligenciadas? São enfermidades que afetam populações que convivem com a pobreza, conflitos e violações de direitos humanos e que não recebem investimentos da indústria para o desenvolvimento de novos e mais eficientes fármacos para combatê-las.

Para essas populações carentes, em geral os fármacos são dados pelos governos. “Mas a maioria dos países afetados não tem dinheiro para bancar o investimento ou não são bons pagadores”, explica a professora Elizabeth Igne Ferreira, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP. Ela é coordenadora do quarto Simpósio de Planejamento e Desenvolvimento de Fármacos para Doenças Negligenciadas, que começa hoje na USP e vai até a quarta-feira (25). Estarão presentes representantes da indústria farmacêutica, universidades nacionais e internacionais e laboratórios oficiais.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), existem atualmente 17 doenças negligenciadas. O Brasil é atingido por nove delas: leishmanioses, Chagas, malária, tuberculose, filariose (elefantíase), esquistossomose, dengue e hanseníase, entre outras. A maior incidência está localizada nos estados no norte e nordeste. “No Sul e Sudeste a incidência é menor, entretanto é onde mais se concentram as pesquisas pois há maior investimento”, comenta a professora Elizabeth. Esse quadro de incidência reflete o que ocorre no mundo: os casos estão concentrados em países mais pobres como os da região central do continente africano, na China e na Índia.

Público numeroso faz indústria repensar

Segundo a professora Elizabeth, cada vez mais as indústrias farmacêuticas investem em pesquisas no setor. É a chamada tríplice hélice, como descreveu a pesquisadora Nubia Boechat, da FioCruz: muitas multinacionais já estão se unindo com universidades, instituições oficiais e organismos como o Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDI), uma rede internacional que realiza pesquisas sobre o tema, na busca por alternativas farmacológicas. “É a open inovation: as indústrias estão se abrindo para as universidades, em busca de inovação”, diz. Um dos objetivos do encontro é exatamente reunir esses diversos atores em busca de soluções efetivas envolvendo essas doenças.

Entre os laboratórios oficiais que irão fazer apresentações no simpósio estão a FioCruz, o Adolpho Lutz, e o Lafepe (Laboratório Farmacêutico de Pernambuco, responsável pela produção do benznidazol, medicamento para doença de Chagas utilizado no Brasil), entre outros.

A palestra de abertura será do pesquisador Alain Fairlamb, do Drug Discovery Unit, ligado à Universidade de Dundee, na Escócia, um centro de pesquisas que é um exemplo de como integrar forças entre a academia, as instituições de pesquisa e a indústria com o objetivo de chegar às soluções medicamentosas. Além do DNDI, haverá pesquisadores da Medicines for Malaria Venture (MMV), consórcio formado por várias instituições internacionais do setor. Da indústria farmacêutica, participa a representante da GSK, da Espanha.

Entre as universidades, estarão presentes pesquisadores da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), além de representante da Universidade da Califórnia em San Diego, e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A urgência de inovar

A professora Elizabeth lembra que, devido às migrações, muitos países desenvolvidos já apresentam casos de doenças negligenciadas. Canadá, sul dos Estados Unidos, alguns países da Europa e da região do Pacífico Ocidental são exemplos.

Outro problema é que um novo medicamento pode demorar de 10 a 15 anos para chegar ao mercado. Dados divulgados pela coordenação do simpósio na USP mostram que, de 1975 a 2004, foram desenvolvidos 1.535 medicamentos para outras doenças e apenas 18 são para doenças tropicais (3 para tuberculose). Já de 2000 a 2011, surgiram 756 novos medicamentos, sendo 29 para doenças negligenciadas e apenas 4 para tuberculose ou malária. Estimativas apontam que, de 10 mil moléculas com potencial, apenas uma vai dar origem a um novo fármaco, pois ao longo dos ensaios pré-clinicos, muitas delas apresentam alta toxicidade ou baixa absorção e são descartadas.

Outro sinal de que a ciência começa a se voltar para essa moléstias foi a entrega do último Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina. O prêmio contemplou cientistas envolvidos em pesquisas ligadas às doenças negligenciadas: a chinesa Tu Youyou, da Academia Chinesa de Medicina Tropical, realizou estudos com a artemisinina, um dos fármacos mais modernos contra a malária. E os pesquisadores William C. Campbell, da Drew University in Madison, nos Estados Unidos, e Satoshi Omura, da Kitasato University, no Japão, pesquisaram a avermectina, fármaco que apresentou bons resultados para tratar a elefantíase e a oncocercose (cegueira do rio).

Quarto Simpósio de Doenças Neglienciadas

As palestras do seminário sobre Doenças Negligenciadas ocorrerão no auditório “Profa. Maria Aparecida Pourchet Campos” (Auditório Verde) da Faculdade de Ciências Farmacêutica, na Av. Prof. Lineu Prestes, 580 – Bloco 13A, piso superior, Cidade Universitária, São Paulo.

A programação completa está disponível nos sites: http://event-ndmc.wix.com/simpdn e http://event-ndmc.wix.com/enpqf

Saúde!Brasileiros com Agência USP