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Jornal do Brasil

Cientistas desvendam mistério da Via Láctea

Publicado em 18 janeiro 1996

Por KATHY SAWYER - Washington Post
SAN ANTONIO, TEXAS — A Via Láctea, galáxia onde fica a Terra, está repleta de fragmentos de matéria escura resultantes da morte de estrelas, invisíveis aos olhos humanos. Segundo dados divulgadas, na terça-feira, durante a reunião de inverno da Associação Americana de Astronomia, os novos objetos parecem estrelas destruídas chamadas anãs brancas. Mas também poderia haver uma mistura de restos estelares, inclusive buracos negros (estruturas com um campo gravitacional tão forte que nem a luz pode escapar deles). Os cientistas dizem que a descoberta dos Objetos Maciços e Compactos da Auréola — a sigla em inglês, aceita mundialmente, é MACHOs — representa um importante avanço na luta dos astrônomos para localizar e identificar a matéria perdida no universo, que não podia ser encontrada até a criação de novas técnicas. As evidências sugerem que muito da matéria perdida é feita do mesmo material que compõe as estrelas e os planetas. Metade — Segundo o astrônomo David Bennett, do Laboratório Nacional de Livermore, na Califórnia, o grupo de 18 pesquisadores — que ele chefia — comprovou que pelo menos metade da matéria perdida é composta de estrelas mortas. Apenas 10% da matéria cósmica -são objetos celestiais brilhantes e, por isso, visíveis, como estrelas e galáxias. Os outros 90% foram detectados através de influência gravitacional sobre objetos vizinhos próximos. O mistério da matéria escura está ligado a questões que envolvem a formação e desenvolvimento do universo. Há muitos anos, o meio científico debate se a matéria perdida é feita de prótons e neutrons, como a matéria comum, ou se poderia ser composta por partículas elementares exóticas e indetectáveis. O pesquisador John Bahcall, do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, conta que as novas observações viram o jogo em favor dos defensores da composição comum. "Este é a mais importante notícia científica de que já ouvi falar nos últimos anos", disse. Bahcall diz que a descoberta contradiz teorias da física de partículas. Os MACHOs são estrelas mortas, buracos negros e corpos subestelares sem luz própria, muito pequenos para desencadear a fusão termonuclear, que dá às estrelas seu brilho. Para detectá-los, os cientistas usaram um telescópio de 1,7 metro no Observatório de Monte Stromlo, na Austrália. A equipe usou a técnica de mitrolensing. A estratégia é detectar distorções na luz emitida por estrelas próximas, causadas pelo campo gravitacional do objeto escuro. Quando maior o corpo, mais longa será a alteração na estrela. Para chegar aos números atuais, os pesquisadores monitoraram 10 milhões de estrelas por dois anos. Os astrônomos sabem que a matéria visível só responde por uma pequena fração da força gravitacional necessária para manter a Via-Láctea compacta. Os que estudam a evolução do universo não vêem razão para crer que as coisas são diferentes em outros pontos do cosmos.