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Cientistas descobrem possível nova opção de tratamento para câncer de pele

Publicado em 22 março 2019

Novos testes em animais e em células de melanoma em cultura mostraram que uma molécula conhecida como RMEL3, presente na maioria dos casos desse tipo agressivo de câncer de pele, tem função importante na sobrevivência e na proliferação do tumor. As novas descobertas sugerem que a inibição do RMEL3 pode ser uma nova opção de tratamento, auxiliando nos casos resistentes ao medicamento mais usado hoje.

O estudo teve a colaboração de pesquisadores da Harvard Medical School e da Universidade do Texas, ambas nos Estados Unidos, do Hospital do Câncer de Barretos, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (FCFAr-Unesp) e do Centro de Terapia Celular (CTC).

Os cientistas observaram que a molécula RMEL3, quando é introduzida em células não tumorais [que normalmente não o expressam], ela passa a sobreviver como se fosse uma célula tumoral, isto é, dispensa estímulos dos fatores de crescimento do meio extracelular, de acordo com Enilza Espreafico, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e coordenadora do estudo.

Em outro experimento, o grupo introduziu o RMEL3 em uma linhagem de células de melanoma que normalmente apresenta baixa expressão desse RNA. "Essas células passaram a proliferar mais em cultura e, quando implantadas em animais, geraram tumores que cresceram mais rápido que os tumores das células parentais [sem RMEL3]", disse Espreafico.

Segundo a professora, um dos medicamentos usados atualmente para o tratamento do melanoma é o vemurafenib, capaz de inibir diretamente as formas mutadas da proteína BRAF --presentes na maioria dos melanomas. No entanto, poucos pacientes se beneficiam desse tratamento no longo prazo devido à resistência desse tipo de câncer ao fármaco. "Podemos criar uma molécula para silenciar o RMEL3 e usá-la como um tratamento complementar. Essa abordagem talvez possa diminuir a resistência da célula tumoral", disse.

O RMEL3 pode ser uma boa alternativa como alvo para medicamentos porque é um RNA muito específico do melanoma, não sendo encontrado em praticamente nenhum tecido saudável. Essa característica sugere que sua inibição não afeta outros tecidos e não causa efeitos sistêmicos importantes.

"Essa propriedade de ser expresso de modo tecido específico e câncer específico é observada para muitos RNAs longos não codificantes e os tornam excelentes alvos terapêuticos", disse.

Para a realização dos testes em animais, um grupo de camundongos recebeu uma injeção com células de melanoma previamente infectadas com um vetor viral que carregava o gene RMEL3. Já outro grupo controle recebeu células infectadas apenas com o vetor viral vazio (sem o RMEL3).

Os dois grupos de receberam a mesma quantidade de células malignas. Nos primeiros 15 dias, os tumores cresceram de modo relativamente semelhante. Depois, porém, os que tinham o RMEL3 começaram a aumentar em maior proporção. Ao fim do experimento, no 24º dia, já tinham um volume significativamente superior ao do grupo controle.

Atualmente, o grupo está trabalhando para definir os mecanismos moleculares de ação do RMEL3, um passo importante para o desenho de drogas e a proposição de testes clínicos.

*Com informações da Agência Fapesp