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Cientistas descobrem dois novos exoplanetas

Publicado em 29 novembro 2016

Por Bruna Martins

Conhecer tudo o que existe no universo continua sendo um dos maiores desafios de nossa sociedade. Com este objetivo, cientistas do mundo todo realizam observações do espaço que, a qualquer momento, podem nos trazer novidades como esta: uma equipe de pesquisadores liderada por Jorge Melendez, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), descobriu a existência de dois exoplanetas (denominação dada aos corpos planetários localizados fora do sistema solar). Trata-se de uma super-Terra e um super-Netuno, que recebem esse nome por terem massa maior do que os respectivos astros de nosso sistema planetário, sem necessariamente terem qualquer semelhança física com seus análogos. Ambos se localizam na órbita da gêmea solar HIP 68468, uma estrela de seis bilhões de.anos que se encontra há 300 anos-luz da Terra.

Além de Melendez, a equipe de cientistas responsável pela descoberta é formada pelo professor Sylvio Ferraz Mello, dois alunos de pós-graduação e um de pós-doutorado do IAG, além de colaboradores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e de universidades de outros países, como Estados Unidos, Austrália e China. O grupo realiza estudos no La Silla, um dos observatórios gerenciados pelo ESO (Observatório Europeu do Sul), localizado próximo ao deserto do Atacama, no Chile. As observações acontecem desde 2012 e somam, até o momento, um total de 100 noites durante as quais a equipe estuda uma amostra de 63 estrelas análogas ao Sol.

Importância das descobertas

A super-Terra descoberta, chamada HIP 68468b, possui massa três vezes maior do que a do nosso planeta e seu período orbital, ou seja, o tempo que este exoplaneta leva para dar uma volta completa em torno de sua estrela, é de 1,8 dias. Esse curto período se deve à pequena distância entre a super-Terra e a gêmea solar – aproximadamente quatro milhões de quilômetros, o equivalente a 10% da distância entre a Terra e o Sol.

Já a respeito do super-Netuno, denominado HIP 68468c, o professor Melendez afirma que possui tamanho 50% maior do que o análogo ao do sistema solar e sua massa corresponde a 26 vezes à massa da Terra. Sua distância com relação à gêmea solar é de aproximadamente 100 milhões de quilômetros, número correspondente ao intervalo entre Vênus e Sol e que garante um período orbital maior do que o da super-Terra: 194 dias, com margem de erro de dois dias para menos.

De acordo com Melendez, as observações de sua equipe ajudam a confirmar a veracidade da teoria de outro cientista brasileiro, André Izidoro. Segundo ele, a arquitetura planetária que encontramos no sistema solar, com planetas rochosos e mais leves nas proximidades do Sol e planetas maiores e gasosos mais distantes da estrela, se deve à existência de Júpiter. Este, por ser muito grande, funciona como uma espécie de barreira gravitacional que impede que outros planetas gigantes, como Netuno, possam migrar para a região mais próxima do Sol. Isso é visto positivamente pois, se essa migração ocorresse, haveria o risco de ela desestabilizar a órbita dos planetas menores e eles poderiam colidir entre si ou, até mesmo, ir de encontro à estrela solar.

No sistema da estrela HIP 68468 não existe um análogo de Júpiter. Isso demonstra, então, que a super-Terra e o super-Netuno se encontram bem próximos de sua gêmea solar, mesmo sendo planetas gigantes, por terem se formado numa região mais distante e, depois, não terem encontrado dificuldades para migrar até regiões mais internas. Durante esse processo de migração, Melendez afirma que os exoplanetas podem, inclusive, ter “engolido” outros planetas existentes anteriormente no sistema. Essa possibilidade é evidenciada pelo excesso de lítio e outros elementos químicos presente neles e até mesmo na estrela análoga do Sol. No caso desta, o professor explica que “não se sabe um número exato de planetas, mas constatamos que a quantidade total que deve ter sido ‘engolida’ pela estrela equivale a seis Terras”.

Pela segunda vez

No ano passado, a equipe liderada por Melendez já havia encontrado um outro sistema planetário, comandado pela gêmea solar HIP 11915, que possui em sua órbita um planeta análogo ao Júpiter. Justamente pela existência deste planeta, o professor explica que tal sistema difere do que foi encontrado recentemente. Seu padrão arquitetônico se aproxima do apresentado pelo sistema solar, e por isso Melendez enfatiza que não se descarta a possibilidade de ali existir um planeta gêmeo da Terra.

Apesar de a tecnologia que temos hoje em dia ainda não permitir uma investigação profunda por um análogo da Terra, o professor afirma que as pesquisas a respeito desse sistema devem seguir nesse caminho, principalmente por haver a possibilidade de existência de vida nesse eventual planeta. “Já com relação à super-Terra e ao super-Netuno descobertos recentemente não há essa chance de existência de vida, uma vez que eles não apresentam condições adequadas de temperatura, por exemplo”, explica o professor.

Futuro incerto

No ano de 2010, o Brasil  foi o primeiro país fora da comunidade europeia a assinar um acordo que o tornou membro do Observatório Europeu do Sul. Segundo Melendez, esse é um fator fundamental que proporciona a realização e o sucesso das pesquisas do grupo liderado por ele, pois, além de receber financiamento da Fapesp, o projeto recebe grande apoio financeiro do próprio ESO. Despesas como deslocamentos, hospedagens ou alimentação dos cientistas são pagas pelo observatório desde o início do acordo.

Porém, o professor afirma que esse investimento do ESO tem futuro indefinido pois, apesar do acordo existir desde 2010, ele foi aprovado no congresso nacional apenas no ano passado e ainda não possui validação presidencial. “Toda a infraestrutura e o apoio cedidos até agora pelo Observatório não passam de favores realizados por ele, uma vez que o Brasil ainda não contribui financeiramente com a organização”, explica Melendez. “Por isso é difícil saber até quando esse benefício continuará sendo oferecido ao nosso país”.

Apesar das incertezas que rondam o futuro do projeto, o professor afirma que é muito importante continuar com as observações das 63 estrelas análogas ao Sol, pois já se conhece evidências de que outras delas podem conter planetas em sua órbita. Além disso, essas pesquisas são importantes porque quando analisamos outros sistemas planetários e os comparamos com o sistema solar, podemos entender as características deste e quão comum ele é no universo. A longo prazo, Melendez explica que “o objetivo final dessas pesquisas é encontrar um ‘sistema solar 2.0’ que possua seu Júpiter e seu planeta gêmeo da Terra orbitando numa estrela análoga ao Sol”.