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Cientistas defendem novo modelo para descarbonização do setor elétrico nos países em desenvolvimento

Publicado em 30 setembro 2021

Por Agência FAPESP*

Se de um lado países desenvolvidos dominam tecnologias de fontes de energia renováveis, essenciais para a descarbonização do setor elétrico (retirada ou diminuição da queima de combustíveis derivados do petróleo e do carvão), países de baixa e média renda seguem com dificuldades para implantá-las.

Nos países em desenvolvimento, a transição energética caminha a passos lentos, mesmo que agendas de desenvolvimento sustentável, como Agenda 21 e 2030, e acordos multilaterais, como o de Paris, forneçam uma série de objetivos e metas para tornar o setor elétrico mais sustentável no mundo.

Estudo conduzido na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), por pesquisadores do Centro de Pesquisa para Inovação em Gás (RCGI) e da Universidade de Queensland (Austrália), mostra que um dos obstáculos que dificultam essa transição é a replicação de modelos de planejamento energético de forma desconectada da realidade desses países. Os resultados foram publicados na revista Energy.

O RCGI é um Centro de Pesquisa em Engenharia (CPE) constituído por FAPESP e Shell na Poli-USP.

“Quando se discute a transição energética, fala-se de uma série de soluções encontradas na bibliografia internacional, que é muito mais voltada para estudos realizados nos países desenvolvidos. Portanto, são discussões distantes da realidade de países de baixa e média renda. Enquanto os países desenvolvidos falam em autonomia do consumidor, outros países ainda lutam para dar acesso a qualquer tipo de energia elétrica para parte da população”, afirma Stefania Gomes Relva, pesquisadora da Poli-USP e autora do estudo.

Segundo Relva, não basta promover a transferência da tecnologia. São necessários modelos e planejamento estratégico diferentes dos adotados no Norte global, além de mecanismos de estímulo que levem em conta outras necessidades, como a formação de mercado interno e de mão de obra qualificada para manter as usinas renováveis autossuficientes.

Para que a transferência de tecnologia funcione e, por consequência, a transição para um setor elétrico de baixo carbono e mais sustentável, é preciso também focar nos países em desenvolvimento e não só nos desenvolvidos, defendem os autores.

Para rastrear essa desconexão entre as inovações propostas e o que de fato é implantado nos países em desenvolvimento, os pesquisadores fizeram uma revisão bibliográfica de artigos focados em questões de transição energética de países de baixa e média renda.

De 625 artigos analisados inicialmente, foram selecionados 85 que tratavam de projetos e demandas de transição energética em países em desenvolvimento, regiões ou blocos econômicos do Sul global. A partir disso, os pesquisadores foram coletando informações que respondessem à pergunta: quais elementos impulsionam ou atrasam a transição energética em países em desenvolvimento?

“Com essa abordagem, conseguimos ter uma visão abrangente de como essas informações se relacionam entre si, o que possibilitou uma análise em maior dimensão do que estava sendo apresentado nesses artigos. Pudemos mapear quais eram os elementos característicos da transição energética em países em desenvolvimento e, a partir desses elementos, identificamos quais eram os principais desafios”, explica Relva.

Na análise, os pesquisadores constataram que, já no planejamento para a transição energética, precisam ser considerados ainda aspectos como corrupção, imprevisibilidade econômica, formação de expertise e mercado interno nos países de baixa e média renda.

Outra questão importante em relação a essa desconexão entre as realidades se refere à eficiência energética. Países desenvolvidos associam eficiência energética aos equipamentos de uso final da energia. Porém, no Sul global, o sistema é tão incipiente que perdas muito maiores ocorrem na transmissão e distribuição da energia elétrica. O estudo, inclusive, traz um gráfico sobre o nível de perda de energia dos países de alta, média e baixa renda.

Nesse contexto, os pesquisadores sugerem uma maior interação entre países de baixa e média renda para troca de experiências ou pesquisa sobre a implantação de novas fontes energéticas. “Precisamos criar modelos próprios em vez de simplesmente importar modelos. Ao criar modelos domésticos, é possível trocar essas experiências com países do mesmo bloco – o que chamamos de cooperação Sul-Sul –, a fim de compartilhar essas tecnologias”, diz Drielli Peyerl, coautora do estudo.

O artigo Enhancing developing countries’ transition to a low-carbon electricity sector pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0360544220327663.

* Com informações da Assessoria de Comunicação do RCGI.