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Cientistas de SP descobrem como fungo do mofo azul ataca laranjas e outras frutas (98 notícias)

Publicado em 31 de maio de 2026

Pesquisadores da Unicamp e da USP descobriram como o fungo do mofo azul, que estraga laranjas, limões e tangerinas, usa substâncias químicas para vencer a defesa das frutas. Esse estudo, que ganhou um prêmio, pode ajudar a criar novos métodos para combater a praga sem usar agrotóxicos.

Só de ver um pontinho branco-azulado em laranjas, limões ou tangerinas, quase todo agricultor já sabe que o resultado será uma caixa inteira de frutas mofadas. Quando o fungo Penicillium italicum, responsável pelo mofo azul, se instala na casca da fruta, a planta rapidamente ativa um verdadeiro arsenal químico de defesa para tentar impedir a invasão.

Mas o trabalho é praticamente em vão, uma vez que o P. italicum libera moléculas químicas capazes de neutralizar não só as defesas naturais da fruta como também os microrganismos benéficos (endofíticos) que vivem na superfície desses vegetais.

O estudo foi feito por cientistas da Unicamp e da USP e ganhou um prêmio de melhor artigo científico de 2025.

O fungo usa um 'arsenal químico' para vencer as defesas das frutas e dos microrganismos que as protegem.

O mofo azul é a segunda praga que mais causa prejuízos na citricultura, perdendo só para o mofo verde.

Atualmente, o controle do fungo depende de agrotóxicos que estão perdendo a eficácia e preocupam o meio ambiente.

A descoberta pode levar a novas formas de combater o fungo sem usar venenos, de um jeito mais seguro para a saúde e a natureza.

Esse roteiro de ataque do patógeno foi desvendado pela primeira vez por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de São Paulo (USP) em estudos apoiados pela FAPESP (projetos 22/02992-0 e 19/17721-9). A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de novas estratégias de combate ao fungo, que é uma das principais pragas da citricultura brasileira.

Publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry, o trabalho detalhando essas descobertas foi selecionado pela revista americana como o melhor artigo científico de 2025.

O Brasil é o maior produtor de laranja e líder mundial na exportação de suco, mas enfrenta sérios prejuízos no pós-colheita causados por fungos. O mofo azul (P. italicum) é o segundo mais problemático, atrás apenas do mofo verde (P. digitatum), responsável por até 90% das perdas em regiões tropicais. Apesar disso, o mofo azul ainda recebe pouca atenção, afirma Taícia Pacheco Fill, professora do Instituto de Química (IQ) da Unicamp e autora principal do estudo.

Por isso, compreender melhor as estratégias e o arsenal químico desses patógenos é fundamental para desenvolver formas de controle mais eficazes sem depender de agrotóxicos, completa a pesquisadora.

Atualmente, o controle do mofo azul depende de fungicidas sintéticos como imazalil e tiabendazol, que apresentam resistência crescente e preocupações ambientais.

Como o fungo ataca

Para o mapeamento das moléculas que atacam os microrganismos benéficos, os pesquisadores estudaram o conjunto de substâncias químicas produzidas pelo patógeno durante a infecção no fruto, usando técnicas de metabolômica avançada (que analisa os produtos do metabolismo do organismo). Com isso, conseguimos identificar compostos essenciais para o desenvolvimento da infecção. Verificamos em laboratório que, sem essas substâncias químicas, o fungo P. italicum cresce só um pouquinho, o que abre espaço para novas estratégias de combate. Tanto que o nosso próximo passo é desenvolver inibidores específicos dessas vias metabólicas, capazes de desarmar o patógeno sem afetar o hospedeiro (o fruto), conta Fill. Essa parte do estudo foi publicada em artigo posterior, na revista Postharvest Biology and Technology.

Passo a passo da infecção

A rápida disseminação do fungo nas caixas de frutas é um processo conhecido como nesting, responsável por até 50% das perdas da cultura na China, o terceiro maior produtor de laranja do mundo e um país de clima majoritariamente temperado, onde o mofo azul se desenvolve melhor.

Ao analisar diferentes dias de infecção, os pesquisadores identificaram que o fungo se instala na casca da fruta por meio de microlesões. Nos primeiros dias, ele desmonta a parede celular da fruta com enzimas, enquanto esta reage produzindo compostos naturais bioativos (flavonoides) antifúngicos, como a naringenina e a diosmina. No entanto, o fungo contra-ataca produzindo também compostos naturais bioativos como a brevianamida F e a desoxibrevianamida E, detalha Evandro Silva, bolsista da FAPESP e primeiro autor do estudo.

Os pesquisadores também utilizaram técnicas de imageamento por espectrometria de massa para mapear a distribuição espacial das moléculas durante a infecção. O patógeno não luta apenas contra as defesas da fruta, mas também contra os microrganismos do bem (endofíticos) que vivem na casca e tentam protegê-la. Ele usa esses compostos para modular a comunidade microbiana e se instalar, enquanto enfrenta as defesas da fruta. Acaba sendo um combate múltiplo em que ele consegue se sobrepor a esses outros microrganismos e prosperar, explica Fill.

Os cientistas destacam que identificar as moléculas produzidas pelo patógeno é o primeiro passo para desenvolver estratégias de controle específicas. Nosso laboratório tem trabalhado com essa lógica de descrever como se dá o ataque de patógenos e reconhecer os metabólitos (produtos do metabolismo) usados por eles. Isso possibilita o desenvolvimento de inibidores mais seguros para o meio ambiente, menos nocivos à saúde humana e com menor risco à resistência fúngica ou bacteriana, conta a pesquisadora.