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Cientistas da USP criam índice para medir dietas saudáveis às populações e ao planeta

Publicado em 31 maio 2021

Sem mudanças radicais na dieta humana global, as crianças de hoje herdarão um planeta severamente degradado, onde grande parte da população sofrerá cada vez mais de desnutrição e doenças evitáveis. Esse é o alerta dos cientistas no relatório Food in the Anthropocene: the EAT–Lancet Commission on healthy diets from sustainable food systems , publicado no jornal científico The Lancet, quanto à urgência de se adotar um modelo de dieta que promova saúde não apenas à população, mas também ao planeta — como a Dieta da Saúde Planetária, proposta no relatório.

Com essa preocupação, pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP desenvolveram o Índice da Dieta da Saúde Planetária, capaz de avaliar a aderência de uma população às recomendações dessa dieta. Os dados mostram que, quanto maior a pontuação total do índice, menor a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEEs) gerada na produção dos alimentos consumidos e maior a qualidade nutricional da dieta. As análises também verificaram que as maiores pontuações constituíam dietas mais baseadas em vegetais (frutas, verduras, cereais integrais e feijões) do que em alimentos de origem animal e ultraprocessados, que são ricos em gorduras e açúcares.

O índice pode ser um instrumento para avaliar dietas, monitorar a adesão às recomendações dietéticas saudáveis e a qualidade geral da dieta de uma população. Além disso, a ferramenta permite identificar quais os grupos alimentares merecem maior atenção por parte das autoridades para propor medidas de redução do consumo, como é o caso da carne vermelha, indicada pelos pesquisadores. Trata-se de um método de análise coletivo, no âmbito de população, que pode ser aplicado em caráter de pesquisa em diferentes contextos socioculturais para avaliar a dieta de determinado grupo, e não para aplicação individual em consultório, por exemplo. “Também podem ser uma forma de testar se essas recomendações dietéticas possuem efeito protetor para a saúde”, afirma Leandro Cacau ao Jornal da USP.

O estudo é parte do doutorado em Nutrição em Saúde Pública do pesquisador Leandro Cacau, orientado pela professora Dirce Maria Lobo Marchioni, do Departamento de Nutrição da FSP, e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A pesquisa foi realizada com participantes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil) e contou com colaboração de pesquisadores do Grupo de Estudos Epidemiológicos e Inovação em Alimentação e Saúde (Geias) da USP, do Elsa-Brasil e da Universidade de Zaragoza, na Espanha. O artigo foi publicado na revista Nutrients, neste mês.

“No modelo de dieta do relatório da EAT-Lancet ainda há a possibilidade de consumir alimentos de origem animal, mesmo que em pequenas quantidades, para, assim, contribuir com baixos impactos ambientais. Ou seja, tanto o índice quanto o relatório focam uma dieta diversificada que seja capaz de reduzir impactos ambientais e promover saúde à população”

O pesquisador explica que não há mais como falar de dietas saudáveis sem levar em consideração a pauta da sustentabilidade. A Dieta da Saúde Planetária, do relatório da EAT-Lancet, apresenta um modelo para combater os hábitos que tornam o sistema de produção insuficiente para garantir a nutrição adequada às 10 bilhões de pessoas estimadas em 2050, voltado a alternativas com menor impacto ambiental e uso consciente da produção.

O índice desenvolvido pelo pesquisador foi testado em 14.779 brasileiros, funcionários de instituições públicas de ensino e pesquisa e participantes do Elsa-Brasil, estudo longitudinal e multicêntrico, ou seja, que acompanha ao longo dos anos pessoas de vários estados do Brasil. A aplicação foi realizada em dados que foram coletados entre os anos de 2008 e 2010, a primeira coleta de dados do Elsa-Brasil.

Como funciona o índice?

Baseado nas recomendações da dieta proposta no relatório da EAT-Lancet, o índice é composto de 16 grupos de alimentos como, por exemplo, o grupo de carne vermelha, que inclui carne de boi, carneiro e porco, e de frutas, que integra as frutas consumidas. O pesquisador explica que os indivíduos recebem uma pontuação gradual em cada um deles; ao final, a pontuação pode variar de 0 a 150 pontos. Desse modo, quanto maior a pontuação total, mais saudável e sustentável é a dieta.

Quanto à pontuação, de acordo com o cientista, foram empregadas várias análises de validação e de confiabilidade. Entre elas, está a análise que relaciona os grupos com as emissões de GEEs, um dos maiores causadores das mudanças climáticas e do aquecimento global. Assim, estimou-se a quantidade de emissão desse poluente na produção de cada um dos alimentos consumidos pelos participantes.

“O estudo acontece desde meados de 2019 e foram pensadas mais de 15 propostas para o índice, até obter uma que melhor capturasse a adesão a uma dieta saudável e sustentável”, afirma o pesquisador.

Os resultados mostraram que quanto maior a pontuação, menor a emissão de GEEs e maior a qualidade da dieta, que geralmente é caracterizada por maior consumo de frutas, vegetais, cereais integrais e leguminosas e baixo em alimentos gordurosos e adoçados, como os ultraprocessados.

“Nós verificamos que os participantes com maiores pontuações possuíam menor consumo de alimentos fonte de proteína animal (como, por exemplo, carnes, frangos e laticínios), colesterol, gordura total, gordura saturada e sódio. Enquanto que aqueles com maiores pontuações no índice consumiam mais fibras, proteínas de origem vegetal (como feijões, lentilhas, castanhas) e de micronutrientes antioxidantes, como zinco, magnésio e vitamina E”, afirma.

Mas, isso não significa que as dietas vegetarianas e veganas são a única opção. Leandro explica que no modelo de dieta do relatório da EAT-Lancet ainda há a possibilidade de consumir alimentos de origem animal, mesmo que em pequenas quantidades, para, assim, contribuir com baixos impactos ambientais. “Ou seja, tanto o índice quanto o relatório focam uma dieta diversificada que seja capaz de reduzir impactos ambientais e promover saúde à população”, esclarece.

Ele ainda destaca que os idosos possuem maior adesão a uma dieta saudável e sustentável, assim como pessoas que não fumam e que praticam atividade física, o que já era esperado pela característica desses grupos, que são mais preocupados com a alimentação.

Apesar de ter utilizado uma amostra da população brasileira, a ferramenta pode ser aplicada em outros países e essa é a próxima etapa do autor. Leandro Cacau irá avaliar se o índice também identifica a adesão à dieta saudável e sustentável em mais de 3 mil adolescentes da Europa, e se os adolescentes com maiores pontuações no índice possuem menor risco para doenças cardiovasculares.

De acordo com o pesquisador, como resultados preliminares com os participantes do Elsa-Brasil indicaram que os com maiores pontuações no índice têm menores valores de pressão arterial e menor chance de possuir excesso de peso, os autores também irão avaliar se eles também apresentam menores valores de perfil lipídico, de resistência à insulina e menor risco de aterosclerose, importantes fatores de risco para doenças cardiovasculares.

Os pesquisadores interessados em utilizar o índice devem encontrar em contato com Leandro Cacau pelo e-mail abaixo.

Mais informações: e-mail lcacau@usp.br, com Leandro Cacau. [2]

[1] Fotomontagem de Lívia Magalhães com imagem de Reprodução/EAT-Lancet Commission Summary Report.

[2] Texto de Guilherme Gama.

Como citar este texto: Jornal da USP. Cientistas da USP criam índice para medir dietas saudáveis às populações e ao planeta. Texto de Guilherme Gama. Saense. https://saense.com.br/2021/05/cientistas-da-usp-criam-indice-para-medir-dietas-saudaveis-as-populacoes-e-ao-planeta/. Publicado em 31 de maio (2021).