Notícia

UFPR

Cientistas da UFPR explicam prejuízos de discursos que invalidam a ciência em respostas para dúvidas da sociedade

Publicado em 29 outubro 2021

Pesquisadores das áreas de Bioquímica e Biologia Molecular, Ciência Política, Comunicação, Farmacologia, Patologia Básica e Psicologia responderam perguntas sobre desinformação, vacinação e cuidados na pandemia

Durante a pandemia de Covid-19, aumentaram as inseguranças e as dúvidas. Com o acesso fácil às redes sociais, espalharam-se as notícias falsas e as soluções milagrosas, o que coloca em dúvida os conhecimentos produzidos pela ciência. No Brasil, não foi diferente, mas, como explica Gabriel Gomes de Luca, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador do Projeto Avalie! Não seja Fake , a desinformação circula no país antes da crise sanitária. “O conhecimento e as informações são recursos e instrumentos para que as pessoas resolvam seus problemas pessoais e os problemas sociais dos contextos em que vivem. Sem que considerem o conhecimento e as informações mais confiáveis, como o conhecimento científico, tais problemas simplesmente não são resolvidos”, reforça.

O esclarecimento foi prestado pelo pesquisador em resposta à sociedade através da ação Pergunte aos Cientistas , da Agência Escola UFPR. Neste mês, o tema foi “Fake news e pandemia” e, assim, a população pôde enviar perguntas sobre desinformação e também informações que gostaria de saber se eram verdadeiras. Desta vez, cientistas dos Departamentos de Bioquímica e Biologia Molecular, Ciência Política, Comunicação, Farmacologia, Patologia Básica e Psicologia da Universidade respondem às perguntas, que abordam áreas como as fake news, a vacinação e a contaminação pela Covid-19.

Assim como Gabriel, os pesquisadores Emerson Cervi, do Departamento de Ciência Política, e Michele Massuchin, do Departamento de Comunicação, também participaram do Pergunte aos Cientistas e reforçam as consequências negativas dos discursos que desacreditam a ciência. “Retrocedemos ao colocar em dúvida descobertas e afirmações científicas aceitas em todo o planeta. Nós, brasileiros, perdemos internamente quando ocupamos nosso tempo e gastamos nossa energia tendo que desqualificar discursos desqualificadores da ciência”, diz Emerson.

“Apesar de muitos conteúdos invalidarem procedimentos e resultados atrelados à pandemia de Covid-19, um conteúdo equivocado levado em consideração para uma decisão sobre tomar ou não a vacina hoje, por exemplo, pode ainda impactar em decisões sobre outras vacinas futuramente. Ou seja, os reflexos são a longo prazo”, acrescenta Michele.

Além dos três pesquisadores já citados, participaram desta edição do Pergunte aos Cientistas os professores Emanuel Maltempi de Souza, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular e presidente da Comissão de Enfrentamento e Prevenção à Covid-19 da UFPR; Patrícia Dalzoto, do Departamento de Patologia Básica da Universidade; e Alexandra Acco e Juliana Geremias Chichorro, do Departamento de Farmacologia. Confira a seguir as perguntas e os respectivos esclarecimentos:

“Qual o prejuízo para o Brasil estar associado a discursos que invalidam a ciência?” (Daniel Faria, estudante, Alta Floresta d’Oeste-RO)

Emerson Cervi, cientista Ciência Política UFPR – Olá, Daniel. Eu diria que há prejuízos em pelo menos duas grandes dimensões, uma interna e outra externa.

Começando pela externa, o Brasil nunca foi visto como um grande exemplo de sociedade igualitária, humanisticamente falando. Os traços conservadores e que ajudam a perpetuar uma desigualdade social são vistos, historicamente, como um problema que ainda não foi resolvido desde o século 19, quando estivemos entre os últimos países do mundo a abolir a escravidão. E, ainda assim, o fizemos por motivos econômicos e não humanistas. Passando por meados do século 20, quando tínhamos a vergonhosa cifra de cerca de 50% da população adulta analfabeta, chegando ao século 21, quando uma crise econômica mundial (a de 2008) e uma pandemia sanitária (a de Covid-19) foram suficientes para reverter as curvas de ganhos sociais, redução da pobreza e erradicação da miséria. Externamente, o Brasil tem duas grandes qualidades: a tecnologia para produção agrícola de forma intensiva e, na cultura, a Bossa Nova. Essa última dispensa maiores detalhes, mas a tecnologia de produção agroexportadora brasileira é resultado direto do desenvolvimento científico a partir de uma grande empresa estatal – Embrapa. O agro é produto da ciência estatal brasileira. Essa ciência, exportada para centenas de países, é o que resta de positivo na imagem brasileira no exterior.

E há também um prejuízo interno, que é a dificuldade em produzir condições mínimas necessárias para o desenvolvimento social. O descrédito da ciência, principalmente em manifestações de representantes oficiais, reduz o debate público brasileiro a um permanente “fla-flu”. O espírito de torcedor de time de futebol não é o mais adequado quando se trata de discutir os rumos do país. Retrocedemos ao colocar em dúvida descobertas e afirmações científicas aceitas em todo o planeta. Nós, brasileiros, perdemos internamente quando ocupamos nosso tempo e gastamos nossa energia tendo que desqualificar discursos desqualificadores da ciência. O país e a sociedade perdem quando o debate público gira em torno da desqualificação da ciência, seja por crendices com origens medievais, seja por fake news “turbinadas” pelos ambientes digitais do século 21. O último grande salto evolutivo do ocidente foi impulsionado pelo Iluminismo: abrir mão dos ganhos de séculos em nome de uma disputa fratricida, radical e com bases puramente emocionais só nos traz prejuízos. Não à ciência, mas à sociedade que abre mão dela.

Michele Massuchin, cientista Comunicação UFPR – De ordem interna, quando os cidadãos convivem com discursos que invalidam a ciência e que conformam uma disputa de narrativa, seja sobre uso ou não de medicamento, uso ou não de máscara, de adesão ou não à vacina, o cenário pouco claro para quem consome os conteúdos desencadeia desconfiança generalizada. Ademais, essa desconfiança é levada a outros contextos de saúde pública, como prevenção de outras doenças e adesão a campanhas feitas pelos órgãos públicos. Isso porque as informações, muitas vezes em conflito, incidem em decisões a serem tomadas pelos cidadãos.

Apesar de muitos conteúdos invalidarem procedimentos e resultados atrelados à pandemia de Covid-19, um conteúdo equivocado levado em consideração para uma decisão sobre tomar ou não a vacina hoje, por exemplo, pode ainda impactar em decisões sobre outras vacinas futuramente. Ou seja, os reflexos são a longo prazo. Ainda de ordem interna, o convívio com discursos e ações que invalidam a ciência, mesmo que possam não ser generalizados e partirem de grupos e atores específicos, quando ganham maior proporção e visibilidade, podem levar os cidadãos a desacreditarem nas instituições que produzem ciência, duvidando dos procedimentos científicos e dos seus resultados. Esses discursos também fazem com que instituições de pesquisa, inclusive as universidades brasileiras, percam a confiança dos cidadãos e, até mesmo, de órgãos internacionais.

De ordem externa, essa associação do país, enquanto nação, a discursos que invalidam a ciência coloca em risco a credibilidade adquirida em anos de políticas públicas efetivas e de campanhas de vacinação pelas quais o Brasil ficou conhecido pela redução tanto de mortes quanto da circulação de doenças graves.

Gabriel Gomes de Luca, cientista Psicologia UFPR – Olá, Daniel. Tudo bom com você? Ótima pergunta, meu caro, que nos faz refletir sobre as decorrências no contexto brasileiro para o descrédito que a ciência tem sofrido. É fato que esse descrédito não é uma particularidade brasileira. Diversos países têm minado a credibilidade da ciência e dos cientistas, em função, por exemplo, do aquecimento global. Para que esses países não precisem lidar de forma direta com mudanças estruturais necessárias para diminuir a gravidade do aquecimento (mudanças que são complexas, exigem consensos difíceis de serem conseguidos e, a depender de suas características, prejuízos econômicos, em curto prazo), ataca-se ou ignora-se a ciência e os cientistas. Com isso, tais mudanças não são executadas.

No caso brasileiro, como em alguns outros países, a diminuição da credibilidade da ciência e dos cientistas advém, de certa forma, da polarização política, fenômeno que ocorre quando diferentes grupos políticos deixam de respeitar seus adversários, passando a tratá-los como inimigos. Tal fenômeno ocorreu em 2016, na eleição presidencial estadunidense e na eleição pela permanência ou saída do Reino Unido da União Europeia. Nesse ano, o uso da desinformação como estratégia política foi tão comum e frequente que “pós-verdade” foi eleita a palavra do ano pelo Dicionário Oxford, expressão que se refere ao processo em que opiniões e posições pessoais são mais importantes para definir o que é verdade do que os próprios fatos. Nesse contexto, e com a massificação da internet a partir das redes sociais, criou-se a possibilidade de uso da informação e, principalmente, do uso distorcido dela (a desinformação e as fake news) para que certas visões ou interpretações dos fatos (as “narrativas”) se proliferem e se tornem hegemônicas. Mas, para que isso seja possível, certas agências e instituições que produzem conhecimento e informação, como a ciência e a imprensa, são reiteradamente ignoradas e atacadas, de forma que elas percam a credibilidade social e se crie um caminho fácil para que as informações sejam deliberadamente distorcidas.

Os prejuízos que isso gera são graves e de diversas ordens. Alguns prejuízos sociais envolvem o acirramento da polarização política, uma vez que as pessoas tendem a acreditar somente naquela versão dos fatos que lhes convém. Isso fortalece a criação de “bolhas” ou “câmaras de eco”, fenômeno muito comum nas redes sociais (mas também na vida cotidiana) em que as pessoas tendem a conversar e estabelecer relações interpessoais somente com pessoas que compartilhem sua visão de mundo e sua versão dos fatos. Com isso, as informações não são colocadas em discussão, tampouco são examinadas com a devida profundidade. O conhecimento e as informações são recursos e instrumentos para que as pessoas resolvam seus problemas pessoais e os problemas sociais dos contextos em que vivem. Sem que considerem o conhecimento e as informações mais confiáveis, como o conhecimento científico, tais problemas simplesmente não são resolvidos!

A atual pandemia de Covid-19 tem demonstrado isso. Ela consiste em um problema complexo, não só pela dificuldade de se lidar com ela, mas porque o manejo da pandemia envolve conhecimento de diversas áreas do conhecimento e campos de atuação profissional, incluindo conhecimento confiável a respeito da sociedade brasileira e de suas particularidades. Com a desconsideração do conhecimento científico para lidar com a pandemia, a quantidade de mortes e de contaminação no Brasil foi uma das maiores do mundo, em números absolutos e relativos. A economia brasileira também sofre com isso, pois a manutenção do alto nível de contaminação e de mortes postergou a retomada econômica que tem sido vista em países que lidaram com a pandemia a partir de princípios científicos e com a maximização da vacinação. Ademais, a falta de consideração do conhecimento científico no Brasil tem trazido prejuízos à imagem e ao prestígio do nosso país na comunidade internacional, processo que fortalece os prejuízos econômicos e financeiros ao Brasil e à sua população.

“É muito difícil ser cientista no que tange remuneração e outros aspectos econômicos?” (Kaik Gabriel Moraes, 18 anos, estudante do curso de Medicina na UFPR).

Emanuel Maltempi de Souza, cientista UFPR – Olá, Kaik. Essa é uma pergunta difícil de responder e também muito subjetiva. Segue a minha resposta, mas lembre-se de que haverá dezenas de respostas diferentes, todas corretas.

No Brasil, a maioria dos cientistas trabalha nas universidades públicas: cerca de 90% da produção técnico-científica brasileira vem dessas instituições. O salário bruto de professor universitário federal varia de cerca de R$ 2,5 mil (professor auxiliar, com graduação, em regime de 20 horas semanais) até R$ 20,5 mil (professor titular, com doutorado, com 40 horas semanais e dedicação exclusiva). O salário de professor de instituições estaduais varia de estado para estado, mas em geral não difere muito (há exceções, normalmente para menos). Embora sejam esses os extremos, a maioria dos pesquisadores trabalha em regime de dedicação exclusiva, tem doutorado e está na categoria de professor adjunto ou associado com salário correspondente a 60% a 90% do titular. Como todo funcionário público, estamos sujeitos aos apertos orçamentários e por vezes passam-se anos sem recomposição salarial. Apesar disso, na minha opinião, nosso salário é bom no contexto brasileiro.

Uma crítica importante ao nosso sistema é que praticamente não há espaço para remuneração que premie a produtividade. Pelo que noto, baseado nas colaborações que mantenho com pesquisadores estrangeiros, em outros países o salário de pesquisador, no espectro de poder aquisitivo de cada país, se correlaciona aproximadamente ao nosso, sendo proporcionalmente mais valorizado em países como Estados Unidos, Suíça e países nórdicos, e menos na América Latina. Portanto, o desenvolvimento técnico-científico e econômico desses países não é mero acaso. Na China, pesquisadores de ponta são extremamente valorizados, o que novamente parece guardar correlação com o desenvolvimento científico e crescimento econômico. Embora não seja o único fator, a valorização da ciência sempre significa, no médio e longo prazo, crescimento econômico sustentado.

Agora chegamos no grande problema de ser pesquisador no Brasil: obter recursos para realizar nossa pesquisa, especialmente nas chamadas ciências duras, que requerem mais recursos. O sistema de financiamento de pesquisa no mundo todo é muito dependente do financiamento governamental, e no Brasil não é diferente. Mas aqui o sistema é extremamente dependente da vontade política do governante de plantão, com orçamentos que são cortados constantemente. Não é por acaso que não temos capacidade de exploração espacial, construção de satélites ou produção de vacinas. Isso é caro e demanda financiamento constante e previsível. Por outro lado, a falta dessa capacidade nos deixou à mercê de vacinas importadas para combater a Covid-19. De 2000 a 2015, tivemos um apoio à pesquisa constante e crescente, quando desenvolvemos a infraestrutura de pesquisa e formamos pessoal altamente qualificado através de nosso sistema de pós-graduação. Naqueles anos, chegamos a pensar que havia uma mudança de paradigma. Ledo engano. A partir de 2015, o orçamento de ciência e tecnologia no país (talvez com exceção de São Paulo, que tem a poderosa Fapesp, cujo orçamento é protegido pela constituição estadual. Mas, mesmo com orçamento das universidades estaduais paulistas protegido pela constituição estadual, já houve, mais de uma vez, tentativa do governo estadual de reduzir ou condicionar os recursos devidos) tem sido reduzido anualmente. O resultado é um sucateamento da infraestrutura de pesquisa, descontinuidade de projetos (com perda do investimento feito no passado) e a já famosa evasão de cérebros (de vez em quando vemos na imprensa realizações científicas de brasileiros trabalhando no exterior. O que poucos dizem é que a maioria desses brasileiros foram formados no Brasil com recursos dos brasileiros e então forçados a achar emprego no exterior por falta de condição de trabalho).

Não tenho dúvidas de que o descaso com o financiamento de pesquisa científica significará retrocesso econômico pelos próximos anos. O subfinanciamento para ciência no Brasil precisa ser revisto se queremos desenvolvimento social e econômico duradouro e sustentado.

A primeira dose da vacina te deixa 50% imunizado?” (Heloísa Cadan, 17 anos, estudante do ensino médio, Cianorte-PR).

Emanuel Maltempi de Souza, cientista UFPR – Olá, Heloísa. Seu raciocínio tem lógica, mas nosso sistema imune não funciona dessa forma. O número de doses da vacina depende de vários fatores, entre eles o agente patogênico e a tecnologia utilizada para produzir a vacina. As vacinas de duas doses funcionam de uma forma chamada prime-boost. De uma forma simplificada, na primeira dose, nosso organismo entra em contato com moléculas ou antígenos derivados do patógeno (vírus SARS-CoV-2, nesse caso), quando nosso sistema de defesa o reconhece como um agressor, produzindo células que guardam na sua memória química a identidade dos antígenos. Na segunda dose, nosso sistema de defesa reconhece imediatamente os antígenos, aumentando o número de células de memória. As principais células de defesa são os linfócitos T e linfócitos B. Se o organismo for infectado pelo vírus SARS-CoV-2 após a segunda dose, a resposta de defesa mediada por essas células será rápida e eficiente, evitando portanto que a doença se desenvolva. Com o tempo, o número dessas células de memória pode diminuir, reduzindo também a eficiência da resposta. Por isso, pode ser necessário terceira dose ou dose de reforço, para não deixar nosso organismo se esquecer dos antígenos do SARS-CoV-2. Assim, embora a primeira dose já estimule uma resposta imunológica e certa proteção, é necessário a segunda dose para garantir a resposta imunológica eficiente.

“Posso beber álcool no dia em que tomei a vacina contra a Covid?” (Assistente de suporte, 30 anos, Santa Catarina)

Patrícia Dalzoto, cientista UFPR – As vacinas utilizadas no Brasil não trazem nenhuma informação sobre efeitos colaterais do consumo de álcool. Assim, acredita-se que, com moderação, não são esperados efeitos adversos do álcool após a vacinação. Lembrando que o consumo de álcool em excesso é prejudicial para a saúde como um todo, afetando o funcionamento do organismo e comprometendo a imunidade.

“Tomei as duas doses da vacina Coronavac. Posso tomar outra vacina, principalmente se precisar ir a outro país que não aceita essa vacina, ou posso tomar lá mesmo? Há algum risco de morte ou consequência grave? Queria tomar a Pfizer” (Douglas Ferreira, 27 anos, arquivista, Duque de Caxias-RJ)

Patrícia Dalzoto, cientista UFPR – Olá, Douglas. No momento, a dose de reforço com a Pfizer, para qualquer uma das vacinas usadas no Brasil, só está sendo aplicada em pessoas com imunossupressão (sistema imunológico enfraquecido) e maiores de 60 anos. Alguns países, como a França, já estão aplicando a dose de reforço em toda a população, inclusive em pessoas vindas de outros países. Há uma tendência de que os países aceitem as vacinas aprovadas pela Organização Mundial de Saúde, como é o caso da Coronavac. Inclusive, nos Estados Unidos ela já é aceita, e as fronteiras abrirão para os brasileiros a partir de 8 de novembro. Espera-se que, à medida que a vacinação avance, essa dose de reforço seja disponibilizada para todos os grupos no Brasil, mas para a sua faixa etária ainda pode demorar um pouco, pois as primeira e segunda doses estão sendo priorizadas. Por fim, não há evidências de efeitos adversos na aplicação de uma vacina diferente na terceira dose.

“Existe algum estudo a respeito do número de mortes de vacinados em relação à marca da vacina?” (Sérgio Baptista Salgueiro, 48 anos, analista de gestão, Curitiba-PR)

Patrícia Dalzoto, cientista UFPR – Olá, Sergio. É importante saber que nenhuma vacina protege 100%, portanto casos de Covid-19 e até mesmo mortes são esperados, mesmo após a imunização completa com qualquer imunizante. Entre as vacinas que vêm sendo aplicadas no Brasil, já foi documentado que a Coronavac confere menor proteção que a Astrazeneca e Pfizer, especialmente entre os idosos, que podem ter uma imunossenescência, ou seja, uma resposta menos eficiente do sistema imune. No Brasil, observamos que 98% das pessoas que morreram após a imunização completa são idosos. Isso está associado às comorbidades, comuns nessa faixa etária. A diferença na proteção depende do tipo de vacina. A Coronavac é produzida a partir do vírus inativado, enquanto a Astrazeneca utiliza um adenovírus modificado geneticamente. A Pfizer, por sua vez, usa a tecnologia do RNA mensageiro. A Coronavac foi a primeira vacina aplicada no Brasil e os idosos receberam as duas doses antes dos demais grupos. Isso permitiu a redução significativa do número de casos e mortes por Covid-19.

“Eu tiro o sapato e limpo a patinha da minha cachorra quando volto do passeio com ela. Precisa limpar o chão em que ela pisou antes da limpeza?” (Selma, 51 anos, São Paulo-SP)

Alexandra Acco, cientista UFPR – Olá, Selma. Seu procedimento de retirar os sapatos e higienizar as patinhas de sua cachorra está adequado. Neste momento, não há evidências de que animais de estimação estejam envolvidos na propagação da Covid-19. Os surtos humanos são impulsionados pela transmissão de pessoa para pessoa.

A chance de transmissão de Covid a partir de superfícies, como o chão ou móveis, é inferior a uma em 10 mil. As diretrizes agora afirmam que o uso de desinfetantes é desnecessário, a menos que alguém em sua casa esteja doente ou alguém que seja positivo para a Covid-19 tenha estado em sua casa nas últimas 24 horas. Assim, se ao passear com sua cachorra usou máscara e manteve distanciamento social, e ao chegar em casa higienizou as mãos, além dos cuidados que mencionou, deve estar segura contra a infecção do SARS-CoV-2.

Vale lembrar que a higienização das patas deve ser feita com água e sabão ou lenços umedecidos próprios. Não limpe ou banhe seu animal com desinfetantes químicos, álcool, peróxido de hidrogênio, produtos para limpeza de móveis ou outros, pois podem causar irritação na pele/coxins dos animais.

“Tenho 65 anos e minha esposa, 64. Já tomamos as duas doses da vacina. Eu trabalho no modo 100% remoto. Tenho uma filha casada e ela e o meu genro já tomaram as duas doses da vacina. Ela trabalha 100% presencial e ele 100% remoto. Já é seguro a visita deles sem máscara, pelo menos no fim de semana, se eles ou ela vem do apartamento deles para a minha casa?” (Alexandre Falcão)

Juliana Geremias Chichorro, cientista UFPR – Prezado Alexandre, sua dúvida é muito relevante. Todas as vacinas ofertadas no Brasil garantem uma boa proteção contra casos graves da Covid-19. Se vocês quatro estão com o esquema completo da vacina, já são considerados seguros encontros de família sem o uso da máscara. Entretanto, é importante ressaltar alguns pontos:

1) São consideradas pessoas completamente vacinas àquelas que receberam as duas doses da vacina e já aguardaram um intervalo de 15 dias após a segunda dose.

2) Pessoas vacinadas também podem contrair e transmitir o vírus. Então, vocês devem manter os cuidados no dia-a-dia, principalmente o uso de máscaras em locais públicos, distanciamento social e evitar aglomerações ou frequentar lugares fechados com a presença de muitas pessoas.

Se todos estão vacinados e continuam se cuidando, o momento permite a retomada desses preciosos encontros familiares!

Para ver mais respostas dos cientistas para dúvidas da sociedade sobre a Covid-19, clique aqui

O podcast Fala, Cientista, produzido pela Agência Escola UFPR, tem um episódio sobre Fake news em tempos de pandemia – clique aqui e confira

Por Isabela Stanga

Sob supervisão de Chirlei Kohls

Parceria Superintendência de Comunicação e Marketing (Sucom) e Agência Escola de Comunicação Pública da UFPR