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Folha de Itapetininga

Cientistas da computação pensam soluções inteligentes para cidades

Publicado em 01 agosto 2017

Em evento da Fapesp que vai até 4 de agosto, desafio de estudantes é achar soluções para municípios de todos os portes e características.

Pensar soluções com os recursos da Ciência da Computação para o desenvolvimento das cidades, que possam ser aplicadas globalmente em benefício da população, é o desafio colocado para 150 estudantes de pós-graduação de diferentes países, que participam dos cursos da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Cidades Inteligentes, organizada pelo Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP).

A Escola é apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo (Fapesp), por meio da modalidade Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA). Para o coordenador do evento, Alfredo Goldman, é um assunto interdisciplinar que envolve não apenas as ciências da computação, mas também urbanismo, biologia, direito e várias outras áreas. “O foco da Escola é pensar como nós, cientistas da computação, podemos lidar e disponibilizar dados para que, junto com as outras profissões, seja possível resolver os problemas dos municípios”, diz.

O programa reúne especialistas em áreas como redes móveis, Internet das coisas, sustentabilidade, visualização, simulação em grande escala, inovação, privacidade, aprendizado de máquina, big data e frameworks de software, todos com sólida formação em Ciência da Computação.

São 10 cursos que estão sendo ministrados no auditório da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Cidade Universitária, em São Paulo, até o próximo dia 4 de agosto. “Avançar no estudo de cidades inteligentes é uma grande oportunidade para fazer pesquisa com impacto positivo na vida de milhões de pessoas em todo o planeta”, disse Fabio Kon, coordenador adjunto de Pesquisa para Inovação da Fapesp e um dos professores da Escola.

O maior desafio, segundo os participantes, é encontrar soluções para as cidades de forma global e não apenas para os grandes centros desenvolvidos. A estudante da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, Kalyanaraman Shankari, acha que um dos pontos principais da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Cidades Inteligentes está no fato de se pensar em soluções para municípios em todo o mundo.

“Quase todos os aplicativos relacionados a cidades inteligentes são feitos por e para pessoas de 20 e poucos anos do Vale do Silício. O problema é que isso não significa nada para a maioria da população mundial. Por isso vim para esta Escola em São Paulo. Acredito que a interação com pesquisadores de outros países possa render soluções mais amplas para todos os lugares”, comenta a estudante.

Kon concorda: “Os exemplos de soluções em cidades inteligentes que temos hoje são quase sempre de Amsterdã, Paris ou do Vale do Silício, que já são bons locais para se morar. Acontece que a maior parte da população vive em grandes capitais em países em desenvolvimento. Temos que focar nos 95% da população nas cidades do mundo que enfrentam problemas com transportes, habitação, saúde, educação”.

Para ele, na maioria das soluções existentes há uma falta de visão global, gerando processos que otimizam o local, não o global. “E é assim que cientistas de computação podem aumentar a qualidade de vida das pessoas, otimizando o uso dos recursos da cidade por meio de algoritmos que têm uma visão do todo, possibilitando também o planejamento baseado em dados”, completa Kon.

Soluções
A procura pela Escola São Paulo de Ciência Avançada em Cidades Inteligentes foi tanta que, além das 75 vagas disponíveis para estudantes com despesas de manutenção financiadas pela fundação de fomento à pesquisa, outros 75 estudantes se inscreveram bancando os próprios custos.

A ESPCA é um programa especial da fundação que visa estabelecer, no Estado de São Paulo, um polo competitivo mundialmente para pesquisadores talentosos. A Fapesp já financiou mais de 50 escolas, que contaram com a participação de pesquisadores e alunos de vários países.

Mais da metade da população mundial vive hoje em cidades e, em 2050, o índice deve saltar para 75%. Goldman conta que o objetivo de reunir pesquisadores nestas duas semanas está em usar a computação para conseguir criar soluções que sejam reprodutíveis em todas as cidades. “Hoje, vemos que só pelo fato de os municípios serem diferentes, com características distintas, os modelos não se adaptam. Acreditamos que a Ciência da Computação possa mudar isso”, fala.

A ideia de realizar a Escola em Cidades Inteligentes surgiu como um desdobramento do projeto que reúne 48 pesquisadores em nove universidades brasileiras no estudo sobre o tema. Criado no ano passado, o INCT da Internet do Futuro para Cidades Inteligentes tem realizado estudos e publicado artigos apresentando soluções que estão sendo testadas no Brasil e que podem ganhar escala global.

Linhas de pesquisa
O projeto, coordenado por Fabio Kon, é um dos 33 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia do Brasil financiados por parcerias entre instituições federais – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) – e a Fapesp.

Para Goldman, a capital paulista possui características ideais para o desenvolvimento da pesquisa. “Acredito que São Paulo se mostra como uma cidade boa para fazer testes de modelos e soluções em cidades inteligentes. É uma cidade que se adapta a mudanças e soluções de forma muito rápida”. Entre os experimentos realizados pelo projeto estão aplicativos e análise de dados sobre transporte, atraso de ônibus, dados de saúde e privacidade de dados.

Em toda a evolução do projeto há o debate sobre a preservação da intimidade e liberdade proporcionada com o avanço da tecnologia. “Qual o nível de privacidade a população quer? Hoje, basicamente tudo é permitido com o sistema de celular. Com a Internet das coisas, teremos outros dispositivos que vão monitorar muito mais que o smartphone. Temos um grupo estudando como vamos validar as permissões e conceder o controle de dados. Isso é importante, pois quando se fala de privacidade, fala-se em liberdade também. É preciso decidir até que ponto queremos a facilidade e até que ponto, a intimidade”, ressalta Goldman.

Outro grupo do projeto está investigando como melhorar as redes veiculares (redes acessíveis em carros). “Em um sistema de monitoramento de trânsito, por exemplo, os carros passam muito rápido uns pelos outros, o que faz com que o tempo não seja suficiente para fazer com que a informação vá e volte da nuvem. Uma forma que estamos estudando de melhorar isso é, em vez de mandar para a nuvem, usar uma espécie de roteador, tornando o sistema mais rápido, mais eficiente e sem erro”, disse o professor do IME-USP.

De acordo com Goldman, o INCT está aplicando o conceito de usar computação para tornar as cidades melhores para se viver. “O projeto deve servir como alavanca para conseguir outros financiamentos e aumentar a visibilidade e a pesquisa que pode ser feita em cidades inteligentes. Na ESPCA pudemos, além de trazer pessoas ligadas ao projeto – principalmente alunos –, também aumentar a visibilidade de uma maneira enorme para o mundo inteiro”, finaliza Goldman.