Notícia

Jornal do Brasil

Cientistas criticam Bresser

Publicado em 06 fevereiro 1999

Por JAILTON DE CARVALHO
BRASÍLIA - Pouco mais de um mês depois de assumir o Ministério da Ciência e Tecnologia, o economista Luiz Carlos Bresser Pereira está em clima de confronto com a comunidade científica brasileira. Os cientistas estão irritados com o projeto de reestruturação administrativa apresentado pelo ministro. A proposta prevê a divisão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em três áreas distintas. Os pesquisadores também estão insatisfeitos com a ameaça de Bresser de cortar bolsas de instituições com forte poder de mobilização política. A briga começou no mês passado, quando o ministro Bresser Pereira anunciou sua intenção de dividir o CNPq nos departamentos de Ciências da Vida, Ciências Humanas e Ciências Exatas. Estes departamentos seriam independentes, inclusive financeiramente, mas estariam subordinados à presidência do CNPq, que teria à frente o próprio ministro da Ciência e Tecnologia. "Achamos que esta estrutura fragmentada está na contramão da crescente tendência dos estudos interdisciplinares", afirmou o presidente do Fórum Nacional de Secretários Estaduais de Ciência e Tecnologia, Adão Villaverde. Reunião - Segundo Adão, que é secretário do governo do Rio Grande do Sul, o CNPq era, há 25 anos, subdividido em quatro áreas. Com o desenvolvimento de estudos comuns promovidos por profissionais de diversos setores, esta estrutura teve que ser modificada. "Não dá para voltar no tempo depois desse avanço", disse o secretário, que na próxima quarta-feira terá uma reunião com o ministro. Para os cientistas, ao invés de fazer a reforma administrativa do Ministério da Ciência e Tecnologia, Bresser deveria estar mais preocupado com a política nacional de incentivo à pesquisa. Texto - "O foco da questão é outro. Temos é que definir quais, são as prioridades e de onde virão os recursos para a pesquisa científica no país", disse o secretário. Muitos cientistas ficaram revoltados também com uma nota divulgada por Bresser no jornal eletrônico da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. No texto, o ministro reclama por não ter sido convidado a participar de uma reunião promovida pela Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe), no Rio de Janeiro, e avisa que vai "eliminar" bolsas extras para instituições "com maior capacidade de se manifestar politicamente". Reforma - As declarações do ministro foram interpretadas como uma clara ameaça de retaliação política. "Este ataque junto às instituições que têm poder político é uma volta ao fascismo. Na ditadura era assim que funcionava", afirmou o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro, Fernando Peregrini. Segundo ele, a atitude do ministro é, antes de mais nada, um "desrespeito" à liberdade de reunião, um direito assegurado pela Constituição. Na reunião, que contou com a participação de secretários, do Rio, São Paulo e Minas Gerais, entre outros estados, o assunto principal foi a reforma de Bresser. Procurado ontem pelo JORNAL DO BRASIL, o ministro não foi localizado. Segundo a assessoria de imprensa do Ministério, Bresser Pereira estava viajando.