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Cientistas criam anti-inflamatório e protetor solar usando restos de pequi

Publicado em 18 novembro 2021

Por Eduardo Sotto Mayor, da Fontes Comunicação Científica, para a Agência Unesp de Inovação

Conhecido por suas aplicações na indústria farmacêutica, de cosméticos e na culinária, o óleo de pequi é extraído a partir da polpa e da amêndoa do fruto originário do Cerrado. No entanto, o que sobra do pequi após esse processo (cerca de 90% de toda sua massa) geralmente é descartado, gerando um enorme desperdício que pode chegar a centenas de toneladas por ano. Foi esse cenário que motivou pesquisadores da Unesp a encontrarem uma forma criativa, sustentável e barata de aproveitar os restos do fruto. Em Assis, no interior de São Paulo, os cientistas desenvolveram dois novos produtos a partir dos resíduos da fruta: um creme com atividade anti-inflamatória e um protetor solar com propriedades antioxidantes, capazes de retardar o envelhecimento da pele. Com as inovações, o pequi poderá ser melhor aproveitado economicamente, aumentando o nível de vida das pessoas que dependem dele para sobreviver, além de colaborar com o meio ambiente.

Os produtos desenvolvidos com o resíduo do fruto apresentaram resultados promissores em testes farmacológicos. “Tivemos a mesma resposta que produtos que já estão consolidados no mercado utilizando uma matéria-prima genuinamente brasileira que iria para o lixo”, comemora a farmacêutica bioquímica Lucineia dos Santos, professora da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp e coordenadora dos estudos que resultaram na criação das soluções.

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As novidades, já patenteadas pela Agência Unesp de Inovação (AUIN), atendem a uma grande demanda do mercado por medicamentos e cosméticos mais naturais, como forma de substituir as substâncias sintéticas encontradas nas formulações dos produtos atuais, que podem gerar algum efeito nocivo. “A indústria farmacêutica não para de buscar novas medicações e soluções estéticas que sejam eficazes, seguras, de baixo custo e que não causem consequências negativas para o organismo. Nós temos esses produtos. Além disso, nossas inovações contribuem para o bem-estar ambiental, econômico e social, agregando valor a um resíduo que normalmente é descartado”, celebra a professora.

Segundo a docente, para produzir uma bisnaga de 60 gramas do novo creme anti-inflamatório, por exemplo, o custo aproximado seria de R$ 8,10, considerando desde etapas de coleta, transporte e materiais até o preparo do extrato e do creme no laboratório. Atualmente, a mesma quantidade de um creme anti-inflamatório comercial, também feito com ativos naturais, chega a ser vendida por R$ 65,00.

A ideia inicial da pesquisa surgiu a partir de um outro estudo desenvolvido por uma colega de departamento de Lucineia, que trabalhava para aumentar o rendimento da extração de óleo do pequi, cuja produtividade é muito baixa – a quantidade de óleo extraído é inferior a 10% da massa de polpa. “Essa docente estava criando uma prensa para otimizar essa retirada. Nós dividimos a mesma sala e eu observei que ela prensava o pequi, tirava o óleo e desprezava o resto. Eu pensei que naquele resíduo poderiam ter substâncias importantes que dariam para ser aproveitadas. Quando analisamos esse material, o que imaginei se comprovou. Encontramos importantes compostos fitoquímicos que, provavelmente, estão respondendo pelas atividades anti-inflamatória, antioxidante e fotoprotetora”, descreve.

Para avaliar a ação do creme contra inflamações, os cientistas injetaram na pata de camundongos uma substância irritante chamada Carragenina, que gerou um processo inflamatório na região, causando inchaço, vermelhidão e aumentando a temperatura do local, fatores que favoreceram o aparecimento de um edema. Após a aplicação do creme desenvolvido na Unesp, os pesquisadores mediram o volume da lesão e monitoraram o quanto ela regrediu nos roedores com o passar do tempo. Em apenas duas horas, já foi possível notar a diferença. Em três dias, a área estava completamente recuperada.

Já a análise das propriedades do protetor solar foi feita por meio de um teste com o mesmo aparelho utilizado por grandes fabricantes do setor. O equipamento emite um feixe de luz intenso e uniforme que ilumina as amostras do material e, a partir da interpretação dos dados que são gerados, ele mede o fator de proteção do produto. A tecnologia segue as exigências de regulação da FDA (Food and Drug Administration), da Agência Federal de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos e da Associação Europeia de Cosméticos.

A docente, que já trabalhou com diferentes tipos de resíduos ao longo da carreira, explica que, com o aproveitamento da enorme quantidade de pequi que é desprezada, é possível agregar valor à biodiversidade. “Os frutos são coletados intensamente para consumo nos centros urbanos, mas ninguém planta o pequizeiro de forma ordenada. A produção acontece de forma predatória. Na maioria das vezes, são famílias que trabalham nessa cultura sem nenhum tipo de orientação técnica”, relata.

Os estudos foram realizados em parceria com uma cooperativa de Minas Gerais, que ajudou os pesquisadores a entenderem a dinâmica da produção do pequi no país. No Estado, cerca de 12 mil famílias, de 170 municípios, dependem economicamente da fruta.

Encontrado no Cerrado, em regiões de boa luminosidade e de menor fertilidade natural do solo, o pequi corre o risco de ser extinto pela própria agricultura predatória e pela pecuária desordenada. “A conservação do Cerrado requer a valorização de seus recursos naturais. A partir do momento em que as pessoas entenderem a importância de preservar o pequizeiro com uma cultura sustentável, vamos conseguir evitar a extinção. Além disso, com esses novos produtos podemos melhorar a condição econômica e social das famílias que dependem desse fruto para a sua subsistência”, defende Lucineia.

Financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), os estudos que resultaram nas patentes contaram com a participação de alunos de graduação e mestrado da Unesp. Agora, os pesquisadores têm trabalhado para otimizar as substâncias e buscado parceiros para dar continuidade nos trabalhos. “Precisamos atender as necessidades da população usando toda a riqueza que temos na biodiversidade e, para isso, procuramos parceiros na indústria para iniciar os testes em humanos dos produtos desenvolvidos com o resíduo do pequi”, conclui a docente.

 

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