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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Cientistas contra o absurdo!

Publicado em 20 fevereiro 2012

Freud explicitou: o mundo é movido pelo sexo e dinheiro, acrescentando-se a vaidade. Em certos momentos faz bem acreditar em papai noel, duendes e coelhinho da páscoa, mas tem circunstâncias que dá uma vontade de virar o caminhão de mexirica, chutar o pau da barraca e colocar a boca no trombone!

Apesar de toda a falácia de que empresas financiam pesquisas, em todas as partes do mundo, o dinheiro para a ciência vem dos governos, direta ou indiretamente, via universidades ou institutos de pesquisa tipo Lauro de Souza Lima, ITA e IPT. É a sociedade que paga a inovação, tecnologia e ciência. Se a empresa não paga os impostos por isenção, se o governo compra os I seus produtos por preços elevados com exclusividade ou se compra a quase metade das ações: quem está pagando não é a iniciativa privada, somos nós que acreditamos nesta fantasia chamada "me engana que eu gosto!".

O pesquisador, pago pelo governo, se quiser publicar um trabalho científico, financiado pelo governo, em uma revista com boa repercussão ou impacto internacional vai ter que pagar, mas o governo em geral subsidia esta publicação, em média US$ 3.000, ou seja o governo paga.

Se as 326 universidades e institutos de pesquisa quiserem assinar esta mesma revista tem que investir: o governo paga! No MEC gasta-se per ano R$ 133 milhões por 31 mil assinaturas para o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, em média 25 mil cada assinatura.

Se as universidades e institutos de pesquisa querem publicar um edital de concurso para admitir pessoal, o espaço nestas revistas é muito caro: o governo paga. Se os graduandos ou pós-graduandos quiserem obter um dos trabalhos publicados paga-se US$ 30 a 50, mas a escola ou programa de pós-graduação investe: o governo paga. As assinaturas destas revistas são caras e a publicidade, mais ainda.

Se o pesquisador pretende ter uma cópia do seu trabalho feito em sua universidade ou instituto, vai ter que pagar, mas o governo paga. Depois de alguns meses ou anos, se o pesquisador ou a universidade usar uma figura deste trabalho deve pedir autorização para a revista, pois o trabalho passou a ser propriedade da editora e o governo paga!

Este modelo de negócio não é da China, é muito melhor! Uma empresa, a editora Elsevier, foi incorporando cada vez mais revistas a ponto de se tornar a maior editora científica do mundo em todas as áreas do conhecimento humano, entre os quais o Lancet, Celi e muitos outros. Ela lucrou R$ 2,1 bilhões em 2010. As concorrentes menores são Springer e a Willey-Blackwell.

Os cientistas de todo o mundo, liderados pelo matemático Timothy Gowers da Universidade de Cambridge sugeriu e muitos estão acatando um boicote coletivo publicações da Elsevier. Eni Nova York, Tyler Nylon, também matemático organiza pela internet um abaixo assinado contra a Elsevier (thecostofknowledge.com) com mais de 7 mil assinaturas de cientistas se comprometendo a não mais submeter trabalhos às 2000 revistas da editora. Tem pesquisadores saindo do corpo editorial de revistas da Elsevier.

A Fapesp mantêm (o governo paga) a Scielo, uma base de dados científicos de acesso livre na internet muito elogiada no mundo com 230 periódicos científicos brasileiros. O seu coordenador Rogério Meneghini opinou: "parece que o movimento de livre acesso ao conhecimento científico deu um passo importante com essa mobilização internacional."

Um absurdo: a Elsevier está apoiando projeto de lei no congresso estadunidense ou "Research Works Act" para impedir as instituições de pesquisa e as universidades divulgarem livremente os trabalhos científicos de seus próprios pesquisadores! A Nasa, Institutos Nacionais de Saúde (NIH) e Harward não poderão divulgar os resultados de suas pesquisas, apenas as revistas! O deputado republicano autor do projeto e o democrata que o apoia tem suas campanhas financiadas pela Elsevier. Se o cientista, autor de um trabalho quiser disponibilizá-lo em seus site ou blog: estará proibido!

Os lideres do movimento querem acesso livre às informações científicas na internet. Se a empresa quer lucrar, que venda assinaturas e cobre dos anunciantes! Os líderes até aceitam pagar para publicar, o que é um absurdo! Se alguém disser: publiquei um artigo científico na melhor revista do mundo! Pergunte: quanto você pagou? Parece uma humorista popular: tô pagaaaaando!

Alberto Consolam é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br