Notícia

Jornal do Brasil

Cientistas conseguem produzir antimatéria

Publicado em 05 janeiro 1996

Por PHILIPPE NAUGHTON - Reuter
GENEBRA — Cientistas europeus conseguiram criar átomos de antimatéria, peIa primeira vez na história. O Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN) informou, ontem, que nove átomos de anti-hidrogênio foram gerados em experimentos, em setembro de 1995. No entanto, os átomos só duraram cerca de 40 bilionésimos de segundo, antes de serem aniquilados pela matéria comum. "Quem assistiu Jornada nas estrelas sabe que a nave USS Enterprise era impulsionada por antimatéria", diz o "porta-voz do CERN, Neil Calder. "Nós ainda não chegamos lá, mas este foi o principal passo", avisou. Os físicos souberam ou suspeitaram da existência da antimatéria por mais de 60 anos e as primeiras antipartículas foram criadas em laboratório nos anos 50. Mas nunca foi possível juntar estas partículas para gerar um verdadeiro átomo de antimatéria. Hidrogênio — As experiências no CERN, que fica na Suíça, próximo à fronteira com a França, foram conduzidas pela equipe liderada pelo professor alemão Walter Oelert, da Universidade de Nuremberg e inclui cientistas da Universidade de Gênova, na Itália. Como o hidrogênio — que tem apenas um próton e um elétron — é o átomo mais simples de todos, os cientistas decidiram gerar o anti-hidrogênio através da combinação de um antipróton com um antielétron, ou posítron. A equipe colocou os antiprótons já criados no acelerador de partículas, fazendo com que eles passassem por um jato de gás xenônio a cada volta — ou cerca de 3 milhões de vezes por segundo. Em algumas raras ocasiões, um antipróton converteu uma pequena parte de sua energia em um elétron e um posítron enquanto atravessava o gás xenônio. Em ocasiões ainda mais raras, a velocidade do posítron estava suficientemente próxima da velocidade do antipróton para que as duas partículas se juntassem, criando um antiátomo de hidrogênio. Durante um período de três semanas, nove antiátomos de hidrogênio foram criados em colisões entre antiprótons e átomos de xenônio. Cada antiátomo sobreviveu por apenas 40 bilionésimos de segundo, viajando próximo à velocidade da luz por cerca de 10 metros, antes de ser aniquilado pela matéria comum. Energia — O único sinal que os cientistas tinham da existência da antimatéria era a energia intensa produzida por sua aniquilação. Baseados nisso, os escritores de ficção científica consideraram, por muito tempo, que a explosão provocada pelo encontro da matéria com a antimatéria poderia ser uma fonte de energia inesgotável no futuro. Outros também levantaram a possibilidade de se produzir bombas infinitamente potentes. Calder disse que o CERN não quis divulgar o fato até que os resultados do experimento tivessem sido conferidos exaustivamente por outros cientistas e, aceitos para publicação em uma revista científica respeitada. Segundo os especialistas do CERN, o próximo passo será o desenvolvimento de técnicas para armazenar antimatéria por períodos mais longos, seja por segundos, minutos ou mesmo semanas. A partir de então, os pesquisadores poderiam comparar os átomos de matéria e antimatéria para descobrir em que elas diferem. Uma das possibilidades é aprisionar a antimatéria através de campos magnéticos.