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IASB - Instituto das Águas da Serra da Bodoquena

Cientistas confirmam que mais de 40% das espécies de borboletas, abelhas e outros polinizadores estão sob ameaça

Publicado em 01 março 2016

Mais de 40% das 20 mil espécies de abelhas selvagens, além de borboletas e outros insetos polinizadores, estão sofrendo sérias ameaças em todo mundo, por fatores como o uso de pesticidas e as culturas de transgênicos. Com o risco representado pelo desaparecimento desses milhares de polinizadores, também estão sob ameaça cultivos agrícolas, milhões de empregos e bens culturais, em prejuízo de toda a humanidade. A advertência foi feita pela Plataforma Intergovernamental de Ciência e Políticas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, em inglês), em um estudo divulgado na quarta reunião plenária da organização, concluída neste domingo, 28 de fevereiro, em Kuala Lumpur, na Malásia.

A IPBES reúne cientistas e formuladores de políticas de mais de 100 países, com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Unesco, FAO e PNUD, tendo sua sede em Bonn, Alemanha. O objetivo da Plataforma Intergovernamental é avaliar o estado da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos no planeta e propor estratégias e ações que podem ser transformadas em políticas públicas.

O estudo “Polinização, polinizadores e produção de alimentos” foi desenvolvido nos últimos anos, com a participação de centenas de centenas de cientistas, sob a coordenação do britânico Simon G. Potts, professor da Universidade de Readings, no Reino Unido, e da brasileira Vera Lúcia Imperatriz Fonseca, professora sênior do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e membro do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA).

Ameaças generalizadas –  O documento divulgado na Malásia reafirma a importância dos polinizadores e as ameaças que pairam sobre milhares de espécies, com prejuízos incomensuráveis para muitos povos e comunidades.  São mais de 20 mil espécies de abelhas selvagens, e muitas outras espécies de borboletas, moscas, mariposas, vespas, besouros, pássaros, morcegos e outros animais que contribuem para a polinização, lembra o estudo.

Culturas polinizadas incluem aquelas que produzem óleos, nozes, frutas, legumes e sementes, nozes e óleos. Sem essas culturas, há forte risco de incremento da má nutrição em várias regiões.  Diversas culturas também representam importante fonte de renda em países em desenvolvimento pela produção de itens como café e cacau.

“Sem polinizadores, muitos de nós já não seriam capazes de desfrutar de um café, chocolate e maçãs, entre muitos outros alimentos que fazem parte de nossas vidas diárias”, disse o Dr.Simon Potts, Ph.D. Mais de três quartos das culturas alimentares do mundo dependem pelo menos em parte da polinização por insetos e outros animais, acrescenta o documento.

O estudo ratificou que mais de 40% das espécies de polinizadores invertebrados e 16,5% dos polinizadores vertebrados estão sob várias ameaças, como o uso intensivo de pesticidas. A avaliação constatou que os pesticidas, incluindo inseticidas neonicotinóides, ameaçam polinizadores em todo o mundo, embora os efeitos a longo prazo ainda sejam desconhecidos. Um estudo pioneiro realizado em campos de exploração agrícola mostrou que um inseticida neonicotinóide teve um efeito negativo sobre as abelhas selvagens, mas o efeito sobre outras abelhas ainda é menos clara. “Enquanto subsistem lacunas no nosso conhecimento sobre polinizadores, temos evidências mais do que suficiente para agir”, disse a professora da USP Vera Fonseca.

As culturas geneticamente modificadas são geralmente tolerantes a herbicidas ou resistentes a pragas. Os herbicidas reduzem a disponibilidade de ervas daninhas, que fornecem alimento para polinizadores. Já o provável menor uso de inseticidas pode reduzir a pressão sobre insetos benéficos incluindo polinizadores. No entanto, os efeitos sub-letais e indiretos das culturas de transgênicos sobre os polinizadores “são mal compreendidos e não costumam ser contabilizados em avaliações de risco”, observa o estudo.

O documento ressalta ainda que polinizadores também estão ameaçados pelo declínio de práticas baseadas no conhecimento indígena e comunitário. Estas práticas incluem sistemas agrícolas tradicionais; manutenção de diversas paisagens e jardins; relações de parentesco que protegem polinizadores específicos; e culturas e línguas que são ligadas aos polinizadores.

Propostas de ação – A quarta reunião plenária da IPBES na Malásia aprovou um conjunto de ações para proteger os polinizadores dos riscos a que estão submetidos, com impacto direto em termos biológicos, econômicos, sociais e culturais. As salvaguardas incluem a promoção de uma agricultura sustentável, que ajuda a diversificar a paisagem agrícola e faz uso de processos ecológicos, como parte da produção de alimentos.

As opções específicas incluem a manutenção ou a criação de uma maior diversidade de habitats dos polinizadores em paisagens agrícolas e urbanas; apoio a práticas tradicionais que gerem rotação de culturas e co-produção entre a ciência e o conhecimento local indígena; educação e troca de conhecimentos entre os agricultores, cientistas, indústria, comunidades e público em geral; diminuição da exposição de polinizadores aos pesticidas, reduzindo seu uso, buscando formas alternativas de controle de pragas, e adotando uma série de práticas específicas da aplicação, incluindo as tecnologias de redução de pesticidas e derivados; e melhoria da criação de abelhas para controle de patógenos, juntamente com uma melhor regulamentação do comércio e uso de polinizadores comerciais.

Agencia Social de Noticia (ASN)