Notícia

Saúde em Tela

Cientistas brasileiras decifraram como o coronavírus prejudica os rins

Publicado em 30 setembro 2021

As complicações renais estão entre as mais desencadeadas pela infecção pelo Sars-CoV-2, o vírus causador da Covid-19. Cientistas brasileiras decifraram um mecanismo que pode estar por trás do ataque aos rins. Segundo elas, o novo coronavírus reduz a atividade de uma proteína do organismo humano que é essencial para a regulação do sistema renal, a ACE2. Detalhada em um artigo publicado, ontem, na revista especializada Frontiers in Physiology, a descoberta, acreditam, pode ajudar no desenvolvimento de melhores tratamentos.

A investigação foi motivada pela alta taxa de problemas renais em infectados pelo vírus Sars-CoV-2. “Estudos e revisões sistemáticas confirmaram a incidência de 20% a 40% de lesão renal aguda em pacientes com Covid-19. Dados recentes também mostram que a recuperação é mais lenta em alguns casos, com complicações que requerem até diálise”, relata Nayara Azinheira Nóbrega Cruz, primeira autora do artigo e pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em entrevista à Agência Fapesp de Notícias.

Nayara Cruz e colegas de pesquisa revisaram uma série de artigos sobre a Covid-19 em busca de entender de que forma o novo coronavírus poderia atingir o sistema renal. Um dos principais pontos analisados foi o papel da proteína chamada enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2), que é usada pelo novo coronavírus para invadir as células humanas. “A importância desse receptor para a invasão pelo Sars-CoV-2 é conhecida há algum tempo, e essa interação impede que a ACE2 desempenhe suas funções protetoras”, explica Lilian Caroline Gonçalves de Oliveira, chefe do Laboratório de Rins e Hormônios da Unifesp e coautora do artigo.

As especialistas observaram que a interação entre a ACE2 e o Sars-CoV-2 também pode causar um desequilíbrio significativo no sistema renina-angiotensina, que está envolvido no controle da pressão arterial e de outros processos biológicos importantes para o funcionamento do sistema renal. Elas ilustram que, quando a pressão arterial cai, esse sistema libera substâncias, como hormônios, na corrente sanguínea que ajudam os rins a eliminar substâncias tóxicas em quantidades excessivas, garantindo, assim, o equilíbrio (homeostase) da função renal. Com a redução da proteína-chave, esses comandos são prejudicados. “Observamos que a perda da ACE2 induzida pela Covid-19 pode gerar um desequilíbrio capaz de desencadear a lesão renal grave”, frisam as autoras no estudo.

Transplantes

Para a equipe, o mecanismo observado pode abrir portas para o desenvolvimento de terapias capazes de contornar os desequilíbrios gerados ao sistema renal pelo deficit da proteína ACE2. Há uma perspectiva de um aumento no número de casos de lesão renal grave devido à pandemia de Covid-19. “Se a demanda por diálise estiver aumentando agora, podemos ver um aumento na demanda por transplantes renais em breve”, afirma Dulce Elena Casarini, coinvestigadora do trabalho e professora da Faculdade de Medicina da Unifesp.

César Carranza, médico infectologista do Hospital Anchieta, em Brasília, conta que os primeiros estudos sobre o tema revelaram que alterações na ACE2 poderiam ser as responsáveis por muitos dos danos que os pacientes apresentam durante a infecção. O estudo brasileiro corrobora as descobertas. “Faz muito sentido que esse desequilíbrio também seja a causa de complicações renais, que são alguns dos problemas mais frequentes em pessoas com a forma grave dessa enfermidade”, afirma.

O médico também acredita que os dados da pesquisa possam ajudar no desenvolvimento de tratamentos voltados para proteção do sistema renal de pessoas com Covid-19. “Muitos medicamentos estão sendo criados com o objetivo de proteger a ACE2, mas eles têm que ser administrados logo no início da doença, não serviriam para pessoas que evoluíram para a forma grave. Podemos, no futuro, criar alternativas que ajudem também essa parcela de indivíduos, evitando, assim, esses prejuízos mais agressivos”, cogita.

Também na placenta

O mesmo grupo de especialistas brasileiras divulgou, em agosto, um estudo que mostrou como mulheres grávidas infectadas pelo Sars-CoV-2 correm risco maior de desenvolver pré-eclâmpsia, complicação que pode desencadear doenças cardiovasculares graves, ameaçando a vida de grávidas e bebês. O trabalho, publicado na revista Clinical Science, avaliou mais de 145 estudos sobre o tema, e a equipe concluiu que um maior risco de pré-eclâmpsia está relacionado à redução dos níveis da proteína ACE2, que desencadeia alterações no fluxo da circulação sanguínea na placenta.