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Cientistas alertaram para explosão de dengue em 2008

Publicado em 04 maio 2015

Por Júlio Ottoboni

São José dos Campos - A explosão de dengue no Estado de São Paulo está relacionada às mudanças climáticas e vinha sendo alertada desde 2008 pela Fundação Oswaldo Cruz, no estudo " Mudanças Climáticas e Ambientais e Seus Efeitos na Saúde", que também foi desenvolvido pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em conjunto com o Ministério da Saúde.

A pesquisa foi ratificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-15), na Dinamarca, em 2009. A organização estimou que mais de 13 milhões de mortes ocorrem ao ano no mundo, relacionadas ao ambiente. No entanto, governos em todas as esferas pouco fizeram para mitigar problemas vindos das alterações climáticas de origem antropogênica.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em pesquisa recente, mostra que as noites estão ficando mais quentes em todo o Brasil, inclusive no Sul, o que pode justificar a proliferação dos mosquitos. Em São José dos Campos, sede do instituto, os casos oficiais de dengue já bateram na casa dos 5 mil e informalmente fala-se em 20 mil infectados.

Neste período, nenhuma medida efetiva para conter o aumento de temperatura e mudanças pontuais, como as alterações nos regimes de chuvas, foi tomada. O que houve foram ações isoladas e de baixo impacto, tímidas para conter a ilha de calor local e as alterações climáticas de escalas local ou mesmo regional.

Outro fator apontado pelo estudo da Fiocruz, que aumenta a probabilidade da migração de doenças como dengue e malária, é a alteração de ecossistemas locais degradados pelo desmatamento. Com clima mais quente e chuvoso, cidades ficam mais propícias à reprodução dos mosquitos, que em áreas desmatadas ficam sem habitat migrando para a malha urbana. Segundo o pesquisador Ulisses Confalonieri, da Fiocruz, o maior exemplo disso são os casos de dengue deste ano no Sul do país, região com pouca tradição desses tipo de surto. "Há um estudo no Paraná que mostra o aumento da dengue no estado nos últimos anos pelo aumento na temperatura. E teses que mostram casos de malária no Rio de Janeiro".

A variação climática observada na Região Metropolitana de São Paulo nos últimos anos deve se agravar nas próximas décadas. As conclusões estão num estudo realizado por pesquisadores do Inpe e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em colaboração várias universidades dentro do projeto temático "Assessment of impacts and vulnerability to climate change in Brazil and strategies for adaptation option", que tem apoio da Fapesp.

Resultados do estudo foram descritos em artigos publicados na revista Climate Research e contribuíram para a elaboração do Atlas de Projeções de Temperatura e Precipitação para o Estado de S. Paulo, publicação do Inpe de 2014, também resultado de projeto. "Estamos observando na Região Metropolitana aumento na frequência de chuvas intensas, deflagradoras de enchentes e deslizamentos, distribuídas entre períodos secos que podem se estender por meses", disse o pesquisador do Cemaden, Antônio Marengo.

"São Paulo deve ter epidemias futuras graves, pela mudança brusca de temperatura", diz o professor de saúde pública da USP, Gonzalo Vecina.

"A probabilidade é grande de uma epidemia, se o poder público esmorecer ou se a população não levar isso a sério", afirmou Vecina.