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Cientista leva prêmio por pesquisas sobre alimentos que curam doenças

Publicado em 21 outubro 2016

Por Caio Gomes Silveira

Ex-aluno de escola pública e bolsista na vida acadêmica, o pesquisador e cientista Adriano Costa de Camargo, de 37 anos, natural de Tatuí (SP), foi o primeiro sul-americano a receber um prêmio de ciências pela Sociedade Internacional de Nutracêuticos e Alimentos Funcionais por desenvolver pesquisas sobre compostos alimentícios que combatem e previnem doenças. A premiação foi na conferência anual da sociedade, em 11 de outubro, em Orlando, Flórida, nos Estados Unidos. Além de Adriano, um pesquisador do Canadá também foi premiado.

Criada em 2009, o prêmio é concedido todos os anos em função dos resultados dos trabalhos e da trajetória acadêmica. Para Adriano, é um marco. “Sempre gostei de ciências, de estudar, mas, claro, não esperava chegar tão longe como cientista. Lembro que na época de estudante, quando disse que queria tentar uma universidade pública, muita gente foi cética. Tanto amigos da escola pública ou de escolas privadas duvidavam. Isso é bom que eu ressalte. O estudante de escola pública tem que levantar a cabeça, acreditar, se dedicar e dar o seu melhor. Muitos vão pelo caminho mais fácil, uma faculdade particular ou trabalhar sem estudo porque tem medo de fracassar, mas todos podem conseguir”, afirmou em entrevista ao G1.

Segundo Adriano, a Sociedade atua nos cinco continentes com pesquisas sobre o uso de alimentos para funcionalidades médicas e os nutracêuticos, que são medicamentos naturais como suplementos alimentares. Para ganhar o prêmio, é avaliado o currículo e a contribuição de cientistas para a ciência dos alimentos funcionais. Adriano acredita que contou muito o fato de já ter publicado 19 artigos em revistas científicas e por ter escrito quatro capítulos de livros sobre pesquisas relacionadas aos compostos alimentícios que ajudam a curar e prevenir doenças.

“A maioria desses trabalhos está relacionado a identificar compostos alimentícios que combatem a obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e câncer. Sempre busquei trazer essa aplicação na prática para as pessoas. Além de avaliarem essas participações cientificas, os avaliadores precisaram de meu currículo e de cartas de recomendação. Minha professora do mestrado e do estágio de doutorado, do Canadá, escreveu à sociedade”, diz.

Nesta quinta-feira (20) Adriano apresentou a tese de doutorado que produz há quatro anos na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (USP/Esalq), em Piracicaba (SP). Ele estudou a utilização de sementes de uva e pele de amendoim, dois resíduos da indústria alimentícia, para produzir nutracêuticos. “Uma forma de produzir um produto mais barato ao consumidor e de agregar valor à indústria, o que pode melhorar e economia”, diz.

Diante de tantas conquistas científicas, ele afirma que é impossível não lembrar da época de estudante de ensino médio na Escola Estadual Chico Pereira, em Tatuí (SP), e como se tornou orgulho para a família por chegar onde está. “Para a família e amigos foi como uma medalha olímpica. Eles já falavam ter orgulho por meu esforço, mas parece que o prêmio foi o reconhecimento disso. ‘Bombou’ no Facebook”, diz.

Carreira

Adriano conta que terminou o ensino médio em 1998 na Escola Estadual Chico Pereira e sempre estudou em escola pública. Após se formar, trabalhou dois anos como concursado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) até fazer o vestibular da USP e ser admitido no curso de química. Desistiu em 2002 porque, segundo ele, queria uma aplicação prática da área.

Ele fez vestibular ainda em 2002 e foi aprovado no curso de ciência dos alimentos pela USP Piracicaba. Durante o curso, Adriano chegou a dar aulas de química em escolas públicas e trabalhou como estagiário. Terminou o curso em 2007 e já foi contratado para trabalhar como supervisor de alimentos e bebidas em uma indústria da cidade.

Em 2009, inscreveu-se para mestrado no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/USP) por meio de bolsa da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Começou mestrado em 2010 e terminou em 2012. No mesmo ano foi admitido para o doutorado na USP/Esalq. Durante esses seis anos, viajou três vezes ao Canadá para cursos na Memorial University of Newfoundland, em St. John’s. As viagens foram por meio de bolsas do Programa Ciência Sem Fronteiras e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

“Nesses anos eu tive o incentivo irrestrito de órgãos públicos que financiaram as minhas bolsas de mestrado e doutorado. Também sou grato a todos os membros do meu departamento da Esalq e da Memorial University of Newfoundland, além de todos os meus professores de Tatuí”, ressalta.

Dificuldades

Diante de tantos anos de estudo e do esforço em pesquisas, o pesquisador admite que a vida pessoal foi deixada um pouco de lado. “Quantas noites sem dormir, fins de semanas e feriados. Na época de pesquisa intensa a gente chega no laboratório sabendo o horário de começar, mas não de terminar. Variava de oito a 12 horas diárias de estudo. Muitas vezes meus amigos me chamaram para sair, para conhecer o Canadá, mas eu não pude porque precisei acompanhar meus experimentos”, diz.

Apesar da abdicação, para o cientista o mais difícil ainda é o começo. “Na época do ensino médio vencer a insegurança e acreditar que eu conseguiria foi o mais difícil. Na época da graduação também foi difícil porque dividia os estudos com o estágio, com o trabalho de professor. Tanto é que na época era um aluno mediano, devido ao momento não conseguia me dedicar por inteiro”, conta.

Agora com o título de doutor e o primeiro sul-americano a ser premiado pela Sociedade Internacional de Nutracêuticos e Alimentos Funcionais, o cientista pensa em descansar. “Não sei se voltarei para a iniciativa privada ou me torno professor universitário. Só sei que estou um pouco cansado agora e preciso de uma pausa. Meus amigos brincam se agora poderei sair mais cedo do laboratório (risos)”, completa.

Do G1 Itapetininga e Região